Deposição
Este é um texto para ler! Leiam-no!
Eduarda Dionísio
25 ANOS DO 25 DO ABRIL-VOZES DA MUDANÇA
1.
Primeiro ponto: tive sorte. Como alguns milhões que estavam vivos quando o 25 de Abril nos caiu do céu e nos aterrou em casa. Falo dos que não tinham nada a perder.
Ficou-me a memória de um tempo em que as pessoas (muitas) se puseram a tratar por tu e as gravatas desapareceram até dos telejornais e dos ministérios.
E com o gosto de uma vida assim fiquei, alguns ficaram. Repugnam-me um tanto lançamentos, casamentos, condecorações, comemorações e outras cerimónias que pouco (ou nada) contribuem para a mudança do mundo.
Foi um tempo sem relógios, sem “calendarizações” e “filofaxes”, em que a noite era tão ou mais importante do que o dia. A urgência era a vida, muito mais do que uma solução para os atrasos.
Fiquei com o tempo assim subvertido. Muitos ficámos. Não entendo a felicidade com hora marcada, de fim de semana no campo, de dia fixo na discoteca. Nem que a igualdade das mulheres possa passar por horários bem comportados nos parlamentos como são.
Tenho a memória de um tempo “rentável” em que o impossível se reduziu a quase nada, com o encolher da burocracia e o eclipse parcial dos intermediários. Foi estreita a margem entre o decidir e o fazer, entre o dizer e o acontecer.
E com a certeza desta possibilidade fiquei. Alguns ficámos. Evito quanto posso repartições públicas, concursos, pedidos de subsídios. Continuamos alguns em pequenas “aventuras” hoje quase invisíveis. Com muito gosto.
Tenho a memória de um tempo em que alguma coisa do que fazíamos aparecia nos jornais. As secções não reproduziam os organigramas dos governos e dos ministérios, as greves não iam para a secção da economia. Foi um tempo de máquinas de escrever, de copiógrafos, de paredes que se pintavam.
Passei a entender-me bem com fotocópias, faxes, e-mails e até com internet. Conservo essa ideia de que a imprensa serve para nos informarmos uns aos outros. E também o vício de “publicar”, de divulgar, de partilhar o que se sabe (ou julga saber), de apelar, de juntar pontas. Mesmo quando dizem que é “para nada”.
Tenho a memória de um tempo em que as vozes das mulheres se ouviam mais do que muitas outras fora de casa, e essas vozes chegaram às casas de cada um.
E com o som da alegria, da razão e dos divórcios para novas vidas fiquei. Não chego a entender o que sejam “quotas”.
Falo dum tempo em que subitamente cada um descobriu que sabia muito mais do que tinha aprendido. Os saberes nasciam da necessidade, do entusiasmo, da curiosidade por aquilo que não existia ainda, da atenção aos outros e às coisas, às palavras.
E com a crença de que só assim se aprende fiquei. Sou estranha às sábias ponderações sobre formação profissional, sucesso escolar, cultura com vista ao “desenvolvimento”…
Guardo a imagem de um imenso laboratório de fotografia de onde iam saindo rolos e rolos, ininterruptamente. Em negativo, claro. E era a própria luz do dia e os nossos olhares que os imprimiam. Melhor ou pior.
2.
1999. Descubro numa página de publicidade que os industriais portuenses são uma nova “voz da mudança”. A AIP, na comemoração dos seus 150 “prósperos” anos, oferece-nos uma fatia de cultura: o surrealismo - artistas devidamente “comissariados” por “gestor cultural”, explicados por “especialistas em arte”, “patrocinados” por 60 e tal logotipos de empresas várias, MC incluído.
É uma mudança: os patrões das fábricas onde foram vegetando operários numa miséria à Dickens (e que prescindiram dos seus Grémios no 25 de Abril…) interessam-se agora por Arte e escolhem aqueles que há 60 anos clamavam: “Transformar o mundo’, disse Marx, ‘mudar a vida’, disse Rimbaud - estas palavras de ordem são para nós uma só”.
O Ministro da Cultura tinha entretanto feito sua a primeira metade de um slogan dos operários italianos dos anos 70: “a cultura não é uma flor na lapela”. Apesar de não ter adoptado a segunda metade (“é crescimento colectivo e conhecimento da realidade para sabermos modificá-la”), também aqui há uma “mudança”…
O discurso da “mudança” é o discurso de hoje. É ponto assente que a “globalização” impõe “mudanças”, que as “novas tecnologias” as ampliam (ou vice-versa), que nos cabe saber “aproveitá-las”, que a civilização está “mudada”, que a cultura é “outra coisa”.
Mas essas “mudanças”, que se enquadram na tendência dominante para o “consenso” (o contrário da democracia) e que frequentemente se confundem com “democratização” (e até com “conquistas de Abril”) são na realidade a “certidão de óbito” do 25 de Abril como instrumento. Acompanham a sua transformação em objecto de evocação e de comemoração.
As mudanças que se deram há 25 anos foram rompimentos. De regime, mas também de referências, de conceitos, de relações, de gestos, de modos de vida, de linguagens. E o maior terá sido dar voz a quem não a tinha. Foi em conflito (em que uns perderam e outros ganharam - eu, por exemplo, perdi quase sempre…) que a democracia nasceu. Foi de rompimentos que ela se fez. Esquecer e silenciar isto não transformará a História.
A primeira voz que aqui trago é a de João Martins Pereira, que, em 1983, lembrava aos “intelectuais” o que se começava a esquecer:
"Esses dois anos terão sido para muitos (para eles próprios, mas sobretudo para uns milhões de trabalhadores da cidade e do campo, de "deserdados", de explorados, de moradores de bairros da lata, de velhos e novos, homens e mulheres) os dois únicos anos da sua vida - até ver - em que agiram, comunicaram, decidiram, enfim, intensamente viveram" .
E a segunda voz é a de Vítor Hugo Lucas, da Comissão de Moradores do Bairro da Liberdade, em Setúbal, fundador e gestor da creche, e que, durante anos, até descrer, esteve, em pleno uso quotidiano das palavras e das ideias. Conta o que aprendeu (por exemplo: que havia leis escritas, que elas podiam ser usadas) e o que ensinou. Sobre os engenheiros e arquitectos do SAAL, com quem diariamente conviveu, afirma: “eles aqui é que vieram aprender”.
3.
De facto, de um momento para o outro, milhares de pessoas que nunca tinham pegado espontaneamente numa caneta ou num pincel passaram a usar folhas brancas (que se tornaram comunicados e cartazes) e também paredes onde inscreveram, a preto e branco ou a cores, letras e imagens. Para viabilizar empresas, fábricas e terras, para construir casas, puseram-se elas a fazer projectos, orçamentos, actas, a falar umas com as outras e tu-cá-tu-lá com o poder. Foi de “conquista da felicidade” que se tratou.
O que começava a mudar era a vida. E com ela o conceito de cultura e o seu lugar no quotidiano.
Poucos artistas e intelectuais repararam que era o próprio terreno da cultura que se ia deslocando. Lembro-me do João Mota que notou a diferença que era ter passado a fazer teatro “sem polícia e sem bombeiro”, e na rua; de Ernesto de Sousa que insistiu na importância das manifestações teatrais fora da capital, do “número extraordinário de publicações”, das paredes anónimas de Lisboa.
Sobre essas paredes (que em breve seriam “limpas”) Fernando Azevedo diria: "A humanização da cidade não teve estratégia. Eclodiu. (...) A dimensão estética que inovou não teve assinatura. Foi obra do povo e sinal do seu poder".
É natural que, no meio destas mudanças, os artistas “a sério”, os escritores, não tivessem muita importância quando, ainda por cima, os grandes rompimentos de linguagens (talvez anunciadores do 25 de Abril) já se tinham dado uns anos antes e nada indicava que outros estivessem em preparação.
O que mudava eram os processos de produção, de distribuição, de consumo, com o “quem” (que se alargava e diversificava) ao centro: quem fazia, quem mostrava, quem recebia.
O significativo aumento, de 73 para 75, das idas ao teatro e ao cinema e das tiragens dos livros entra neste quadro de “movimento colectivo”, de “saída de casa”, de “descoberta do desconhecido”. Os números começariam a descer a partir de 76, para chegar, em 94 (ano da Capital da Cultura), a 1/6 do que eram então no caso do cinema, a 1/3 no caso do teatro e a metade no caso das tiragens de livros em 1ª edição.
Não existiu, portanto, um alheamento dos produtos culturais nestes tempos “conturbados”. Também não foram pequenas leis nem “grandes realizações” do Estado com vedetas no cartaz que fizeram aumentar os consumos.
4.
O painel feito por 48 pintores (muitos deles hoje com alta cotação no mercado), no primeiro 10 de Junho que não foi “da Raça”, não terá sido um “rompimento” de fundo, mas pôs os problemas com que as artes e a cultura se debatiam. Os artistas, aliás, não demorariam muito a “regressar à normalidade” e a apostar no seu novo papel de promotores de “consenso”.
A terceira voz que aqui trago é de a de António Mendes, autor de um dos 48 rectângulos do imenso painel, que ardeu em 81:
“Um grupo de pintores” … “no dia 1 de Maio, na rua” … “sugeriu que se fosse pintar as paredes do Técnico.” … “Eram feias assim” … “apetecia tornar as coisas bonitas” … “Era agora altura para cada um se manifestar, fazendo aquilo que sabe fazer, ao ar e à vista de todos” … “Depois, veio a fase da organização”… “Eu que tinha aderido a um puro divertimento, a uma festa, vi-me embarcado numa seriíssima 'homenagem'”... “que não se passava ao sol mas num espaço fechado” ... “que já não era o cobrir de uma parede cega mas a pintura de uma convencionalíssima tela...” … “Fui sem vontade”... “Mas a festa fez-se e acho que resultou melhor do que era de esperar”... “brutalmente cortada - é certo - pela cena da censura da televisão que todos sabemos.”
Foi assim que muitos artistas e intelectuais “perderam o pé” na complicada encruzilhada de três inconciliáveis desejos: 1º “a poesia está na rua”(sem autor portanto); 2º os poetas têm direitos de autor e sindicais; 3º o Aparelho de Estado é um lugar para poetas.
E a quarta voz que aqui trago é a de Ernesto de Sousa, uma grande excepção, que conta o seu quotidiano em 75. Deitar às 5, levantar às 8. E, num só dia, reler uma mesa redonda do Jornal Novo sobre “Revolução Cultural”, uma nota da Quinta Divisão sobre a polémica da Exposição de Paris, escrever uma crónica para a Vida Mundial, participar num júri da SNBA, fazer uma sessão de diapositivos no ARCO com uma escultora belga, encontrar-se com Mário Pedrosa (ex-director do Museu de Santiago do Chile), ver a exposição “Colagens” na SNBA, participar numa mesa redonda sobre o conflito no IPC, montar um super 8 da Festa da Electricidade para os amigos da Dinamização, pôr em dia a correspondência com o realizador Robert Kramer e o pintor Robert Filiou. E no fim exclama: “Eu sou um trabalhador, não acham? Pois, um trabalhador intelectual, e depois?”
Já em 77, poria de pé uma inesperada “Alternativa Zero”, com o apoio da SEC então ocupada em “moralizar” o teatro independente … “Criação consciente de situações”. “Entrar no quotidiano” sem a “mentira dos objectos”. 10000 visitantes no Mercado de Belém. Artistas consagrados e estreantes. Movimentos artísticos “de ponta”. Participação activa do público.
Mas já era tarde para provar que o difícil, o diferente, o abstracto ou o conceptual não é necessariamente igual a “elitista” e que o fácil, o habitual, o naturalista, o figurativo, o decorativo não é igual a “popular”. Tinha-se dado o regresso aos quartéis e começavam os regressos a casa. O 25 de Novembro apanhou na rede também a “Alternativa Zero”: possibilitou a sua concretização ao mesmo tempo que esvaziou a sua proposta.
5.
Vinte e cinco anos depois, falar do 25 de Abril é falar do 25 de Novembro, que aconteceu menos de dois anos depois, e onde houve vencedores e vencidos. Vivemos num pós-25 de Novembro e não no pós-25 de Abril. É útil perceber o que, sendo radicalmente novo, terminou na sua sequência e o que, apesar dele, continuou. E vamos parar às lutas mais radicais. Ou seja às que colocaram a questão de uma “outra cultura”.
Penso nos geralmente mal etiquetados casos República e Rádio Renascença; mas também na esquecida ocupação da Gulbenkian; noutras lutas localizadas - contra os patrões no Círculo dos Leitores, contra os filmes da Lusomundo - empresas hoje mais poderosas e mais consensuais do que nunca.
Histórias com morais diferentes, ao longo das quais os derrotados foram semeando mudanças. Lembro que a luta da Rádio Renascença começou, ainda em Abril de 74, com a proibição da administração (a Igreja) de transmitir declarações de Cunhal, Soares, JM Branco e L. Cília, regressados do exílio; que na Gulbenkian a luta começou, logo em Maio, com a proibição de uma reunião de trabalhadores por Azeredo Perdigão em pessoa.
E são estas as últimas vozes que aqui trago, de 75, contemporâneas das “paredes”:
Uma: “A Fundação continua a insistir no mesmo tipo de relação cultura-público e a servir a este o mesmo género de concertos, exposições, livros, etc. Deplorando esta situação, os trabalhadores estão determinados em mudar a concepção de cultura suscitando novas relações que ultrapassem o simples âmbito dos meros sinais exteriores de que a prática cultura se reveste”.
E outra: “Nós, trabalhadores da ‘República’, somos conscientes de que estamos numa sociedade a que falta ciência e educação, a que falta portanto uma política de informação que, em vez de mutilar as classes trabalhadoras exploradas e pobres, lhes dê o poder da inteligência e da economia” (…) “declaramos que na Informação os trabalhadores têm de poder determinar que o fruto do seu trabalho - o jornal - seja aplicado em realizações que dizem respeito à transformação do homem e da vida e não em objectivos belicistas dos políticos, em privilégios de minorias corruptas ou em exibicionismos partidários”.
Perceber estas propostas (vencidas) de mudança, em vez de obstinadamente lhes descrevermos os fastidiosos itinerários partidários, talvez esteja mais do que nunca na ordem do dia, quando velhos espectros com roupagens novas nos atacam e quando a dificuldade de os combater é cada vez mais declarada. Para citar só alguns: iliteracia, pensamento único, exclusão. Não era disto mesmo que estas últimas vozes falavam?
Não ter medo de fantasmas é a única forma de ver claro. Para poder utilizar hoje a sorte que tivemos ontem. Seria bom que “comemorar o 25 de Abril” pudesse significar fugir a sete pés do domínio das ideias feitas e do consenso obrigatório.
27 FEV 99
quinta-feira, fevereiro 19, 2004
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quarta-feira, fevereiro 18, 2004
Televisão
Um grupo de cinco crianças curiosas decidiu-se a explorar um velho báu empoeirado. Estava guardado á tanto tempo que os mais velhos não se lembravam mais da sua existência.
O mais intrépido dos miudos era o "P", era assim que lhe chamavam, e vinha do seu nome de familia. Fora ele quem decidira abrir o baú que o Flipe descobrira numa daquelas suas manobras malabaristicas que se lhe conheciam, pois era o mais desajeitado de todos. Andava sempre a cair. Os pais para evitarem as suas quedas tinham instalado lá em casa um sistema anti-gravitacional concebido pela Nasa, pelo que ele desde os 5 anos via os seus sonhos assombrados por um Newton furioso.
P, decidira que deveríam juntar esforços e conjuntamente abrir o Baú que deveria encerrar os mais varidos tesouros. E todos nós sabemos o quanto as crianças cobiçam os tesouros. Partiram todos equipados com os objectos que acharam mais apropriados entre os quais se encontrava uma lanterna roubada na garagem do pai do Raul, o boneco da irmã do Pedro, e um compasso.
Eis que depois de sacudir a poeirada toda, depois de muito tossir e, de muita esfregadela de narizes irritados, lá se abriu a velha tampa. A lanterna lançou a sua luz e os miudos viram dentro do baú um sotão empilhado de velharias. P decidiu que deveríam entrar.
Depois de bisbilhotar todos os cantos, encontraram um enorme skate, uma corda, um motor, e uma caixa de bolos que ainda estavam bons. Já o mapa estava um pouco amarelecido, mas ainda dava para notar aquele "X" a Vermelho. Carlitos, o mais velho de todos, agarrou no seu compasso e traçou umas linhas concêntricas, pelas quais afirmou terem encontrado um mapa. E mais uma vez fora Flipe quem tropeçara num caixote, e derrubara um lampião que se partiu. Quando foi para apanhar os vidros, procurou uma pá e uma vassoura, encontrou ao lado de uma picareta, uma pá e uma folha escondida dentro de uma garrafa. Pensava usar a folha como vassoura quando Carlitos lhe tirou o papel da mão. Agora a vassoura era um mapa, e todos gritaram de alegria, com a curiosidade a gemer sob os saltos que davam de entusiasmo.
"Vamos caçar um tesouro": Diziam. E lá foram, antes que se fizesse tarde.
Carlitos, mais uma vez opinou...viu que os circulos que traçara estavam um dentro do outro, e portanto, deveria haver outra porta, outro Baú. P chegou-se á frente e insinuou que só poderia ser a caixa onde Flipe tinha tropeçado. Verificaram a suspeita que se veio a verificar. Era um baú ainda mais velho que o primeiro. Abriram-no, coçaram os narizes, espirraram e entraram no Baú.
Estavam no meio do nada. Uma mata adensava-se em frente, e ouviam-se barulhos assustadores de pássaros inimagináveis. P meteu-se á frente e decidiu democráticamente que deveríam todos entrar na mata. O tesouro só poderia estar dentro dela. Mas Carlitos dizia que ainda faltavam dois circulos. P nem o ouviu, já tinha atrevessado a primeira linha de vegetação.
Subitamente um rosnar cercou-os por todos os lado e surgiu um enorme cão furioso.Provavelmente seria o guardião do tesouro, mas quem é queria saber de tesouros naquela altura. O Pedro atirou-lhe com a boneca da sua irmã e o cão hediondo ficou ocupado por uns segundos. Montaram todos a prancha, ligaram o motor e fugiram sem destino.
Assim que se acabou a gasolina, a prancha parou, e os 5 miudos estavam perdidos, no meio da escurdão, sem qualquer tesouro. Flip deixou-se cair para trás. Estava exausto. Os outros também. Decidiram comer os bolos junto ao lago ali em frente. Raul lançou a ponta da corda para dentro do lago. É que para além de gostar de atirar coisas tinha desenvolvido com seu pai o gosto pela pesca.
Terminados os bolos, veio o a tristeza. Estavam perdidos. P atira furiosamente uma pedra para o meio do lago e uma onda nasce do local onde a pedra foi arremessada. Esta formou um circulo e Carlitos ergueu-se em sobressalto pois este deveria ser o penúltimo circulo. E o curioso é que no centro do circulo surgiu uma esfera brilhante com um "X" vermelho marcado. Era um reflexo da Lua. Os cinco putos puseram-se a subir pela corda em direcção ao centro do lago, estavam a um passo de chegar á lua. Chegados ao destino, correram para o "X", pegaram nas pontas deste e descolaram-nas. Por debaixo do adesivo estava um Baú. Este era mais velho que os tempos. A ansiedade era muita, e mais uma vez espezinharam a curiosidade saltando-lhe em cima.
Espirraram, tossiram, esfregaram os narizes e abriram o baú...estranharam o que viram. Só encontraram umas escadas. P diz: "vamos embora, toca a andar" - e lá foram eles. Entraram numa sala onde cinco crianças, fartas de só verem telenovelas, malucos do riso e Marinas Motas, haviam decidido fazer algo de divertido e propuseram-se a abir um velho Baú.
Publicada por Artur à(s) 6:07 p.m. 0 comentários
terça-feira, fevereiro 17, 2004
IN SHA'A ALLAH
Oxalá
A cultura islâmica deixou-nos traços ainda que indeléveis, por vezes quase inelegiveis, que se misturam na nossa herança Europeia como tinta na paléte de um Deus pintor.
O termo "oxalá", significa "Se Deus quiser", e tem a sua raiz na palavra, que á primeira vista sobre a lingua desconhecida, nos confronta com um ponto de interrogação. Mas apesar do fervor islâmico, o nosso "oxalá" tornou-se uma expressão quotidiana, vulgar. Eu sempre a utilizei quando a natureza tem caminhos que parecem estar para além da minha força de controlo. Sejam eles momentos de dificuldade ou mesmo de prosperidade.
E perante a lei Islâmica, o "in sha'a alla" significa a entrega Deus, sendo o seu orador um novo "Abd", um novo servo de Deus. Então, este inicia a sua peregrinação( o "hajj" ), entregando o seu caminho a Deus todo o poderoso e sapiente, o pai de todos.
O que nos leva a nós Portugueses, herdeiros de uma variedade cultural tão vasta, a evocar esta expressão? Já é admirável o "oxalá" ter escapado á censura que a Igreja Católica imprimiu no passado.
Não vemos mulheres vestidas de "Chador" ou de "Burka" pelas nossas ruas, nem as encontramos representadas na suprema arte de azulejaria Portuguesa, mas de facto, parmanecem em nós traços caracteristicos dos povos dos desertos.
Quando o Português declama a sua paixão pelo mar, julgo que se esquece que também teve em tempos o deserto como casa. Quem sabe, não foi isso mesmo que o tão desejado D. Sebastião descobriu, e prefiriu, ao invés de ser Rei de Mares, viver como principe das areias, viver no meio daquela terra escaldante, onde um dia três reis se defrontaram e encontraram a paz?!
Já agora, continuando a epopeia Lusitana, que começou a partir do momento em que os pastores se romanizaram e desceram das montanhas para a boca faminta da civilização, dirijo-me para outro oceano, e este está já esquecido na nossa memória, para falar um pouco mais de espiritualismo. O tema agradou-me.
Os Indianos com o seu Budismo são muito mais especificos que nós os cristãos e muçulmanos. A sua religião está muito mais pensada para o ser humano. Ela define etapas da nossa vida.
Mas não se admirem ou criem pressupostos, lembrem-se que também Piaget, lido pelos psicólogos, aplica diferentes fases, estadios, etapas, ao nosso crescimento desde a infância á adolescência. Vai-se mudando a linguagem conforme os séculos...
Sendo assim, os budistas encaram a vida com o "Dharma", que se divide em diferentes objectivos a que o homem se deve propôr. Resumidamente aponto o "Moksha", ou seja o renascimento. Para o qual necessitaremos de atingir o "Sanyasa", um dos "Brachmacharya", e que se traduz numa total renúncia do mundo. Esta meta, entendi que deverá ser alcançada quando nos afastamos do "Svpra" (estado de sonho) ou do "Sushupta" (sono profundo), para atingir o Turiyna (super-estado). Pela concepção budista tudo depende do homem. Já pela concepção popular: "in sha'a allah" (oxalá). Não admira que Nietsche tenha elogiado o Budismo em relação a outra religiões.
Mas o que escrevo não tem o intuito de valorizar o Budismo. Há muito que olho para as religiões com curiosidade, sabendo que nelas existem ideias generosas, mas apenas isso. Não me considero um fiel, preferindo olhar para dentro como um individuo susceptivel a influências culturais. E como tal, pergunto-me porque razão o budismo não teve uma presença mais forte entre nós, o povo que converteu o Adamastor, e descobriu a "auto-estrada" para as especiarias em detrimentos da rede de "nacionais" Africanas.
Parece-me obvio que terá algo a ver com o poder institucionalizado da época, do qual fazia parte integrante a Sagrada Igreja. Hoje, a Igreja já não é tão sagrada, mas o facto é que continuamos a ser romanos, e infieis muçulmanos.
Pergunto-me se estaremos assim tão presos a laços genéticos? Se caso tivessemos sofrido uma ocupação dos povos da India não teríamos vocábulos evoluídos de expressões religiosas? Na alternativa de não termos nada que nos prenda a nivel genético, então porque permanecemos acorrentados a uma velha cultura que as várias revoluções puseram de parte? Estaremos á espera de uma nova religão globalizante? Ou aguardamos nova invasão? Será que este fenómeno de anti-globalização já vem de há uns séculos atrás, fechando os canais de trocas de ideias a conceitos caseiros?
Parece-me que resultamos de culturas globalizantes, religiões globalizantes, que tendo sido impostas pela força, resultam hoje em pormenores insconscientes contra os quais não existe sublevação.
Mas não deixamos de desejar a mudança!
O que escolher?
Sopas de cavalo cansado? Cuscous? Ou Caril?
Publicada por Artur à(s) 11:27 a.m. 0 comentários
Imediatos
"Abaixo a reacção!
Vivam os motores a hélice"
Lia-se na "Rás", uma républica de Coimbra.
Fixei a frase. Realmente as paredes poderíam ser muito mais uteis do que simples espaços onde se espetam pregos, se penduram quadros, se encostam moveis.
Publicada por Artur à(s) 11:16 a.m. 0 comentários
quarta-feira, fevereiro 11, 2004
Poesia Haiku
Tocar um corpo
e o ar
e a língua de neve.
Tocar a erva
mortal e verde
de cinco noites
e o mar.
Um corpo nu.
E as praias fustigadas
pelo sol e o olhar.
Publicada por Artur à(s) 6:57 p.m. 0 comentários
Na "metamorfose" de Ovidio
Principio Chaos in elementa quatuor a deo distinguitur;
quibus cum sui darentur incolae, etiam homo ex terra et aqua creatus est. Secutae sunt aetates hominum quatuor, in quarum postrema, eaque vitiosissima, cum Gigantes, ne terris securior esset aether, coeleste regnum peterent, ex eorum, a Iove interemptorum, sanguine nova hominum propago orta est. Qui cum et ipsi essent impii, Iupiter non modo Lycaonem in lupum mutat, sed omne genus hominum animaliumque terrestrium diluvio perdit, unde soli relinquuntur superstites Deucalion et Pyrrha, qui post redditam terram, iactis post tergum lapidibus, humanum repararunt genus.
Reliqua animalia sponte sua ex humore et calore prodierunt: in quibus etiam Pytho serpens. Quem cum Phoebus interemisset, Pythios ludos in rei memoriam instituit, quibus victores esculea corona donabantur; nondum enim erat laurus, in quam mox Daphne, Phoebi amorem fugiens, est conversa. Quod cum accidisset, tum ad patrem eius Peneum reliquis fluviis, sive gratulandi, sive consolandi gratia congregatis, solus desideratus est Inachus, sollicitus de Ione filia, quam Iupiter post stuprum in iuvencam mutarat. Ea cum a Iunone Argo custodienda esset tradita, hunc Mercurius, narrata prius Nymphae Syringis in arundinem transformatione, occidit, eiusque deinde oculi a Iunone in pavonem collati sunt. Tum Io, pristina mulieris forma recepta, Epaphum parit.
Eis que até as bestas amam.
Mas o amor raramente se prostra ou presta a facilidades. Pelo que a serpente tem o seu papel, os deuses têm o seu papel, e por vezes, não sendo suficiente, para que tudo funcione, tem de haver uma grande transformação.
Mas a verdade é que nunca gostei de Ovidio! Ao ler a "Arte de Amar", pareceu-me que deveria ter o titulo daqueles anûncios de jornais, ou livros de bruxaria: "como conquistar o seu amor", ou "como caçar o seu presa". Algo que fosse um pouco mais forte, ou menos poético.
Mas a entender pelo seu livro deveremos invejá-lo, pois só pode ter sido muito bem amado. Ovidio, o feliz.
Assim se transformam as bestas!
Publicada por Artur à(s) 5:25 p.m. 0 comentários
Pois é!!
Fiquei com esta frase a picar-me o humor. Encontrei-a no blogue de uma pessoa por quem tenho muito afecto. Um individuo fora de série, usando expressão corrente. O seu blogue denomina-se: arqueoblogo.blogspot.com, e é excelente.
Nele constava...
MYRTIS BENE FELAS
"Mirtis, faz boas mamadas"
Os romanos eram doidos dizia o Uderzo. Pois!
Publicada por Artur à(s) 4:23 p.m. 0 comentários
Mais uma bola
Continuação...
...
"Todos corríam em grande azafama. Parecíam todos extremamente ocupados, como que a preparar um festejo. Dirigi-me a um posto turistico e perguntei o que se passava para tanta correria. A rapariga que estava dentro do posto fechou-me o vidro no nariz e por pouco não entalou ali o meu orgulho. Salvou-o um ancião, que curioso pelos meus modos se aproximou e inclinando a barriga na minha direcção, a constatável prova da sua sabedoria, exclamou com voz pomposa, quais trompetas soprando no casamento do Rei:... "
...Quando ía a ouvir o que o velho tinha para me dizer, um grupo de Somalis passou por mim a correr, desvairados, lançando gritos agudos repartidos por estalidos, batendo com os pés descalços tão violentamente no chão que a cidade pareceu desaparecer. Ao que parece estavam a treinar para a caça de Elefantes. O seu treinador tinha-os dividido em equipas de 5, incitando-os á competição, com vista a melhorar a produtividade. Esta era uma tese sua, apoiada por imensa bibilografia que tinha vindo a recolher, e da qual pensava escrever um dia um livro versando a favor da viabilidade dos sistemas artesanais nas economias liberais neo-capitalistas africanas. O "coach" estava vestido de fato de treino com riscas ao comprido de ambos os lados, com um galo bordado sobre o peito, mas sem confusões, era mesmo da le-coq-sportiv. Tinha herdado este tesouro de uma antepassado seu que o tinha ganho de um estrangeiro que veio montar os caminhos de ferro, e como seu avô lhe desenrascou uns favores, e por reconhecimento, o tamanhão do europeu, deu-lhe a preciosidade que chegou a ter honras de indumentária de principe. O "coach", usava tinha também um cronómetro que comprou de um estudioso que cronometrava o tempo de expiração final de uma vitima da sida. Foi-lhe caro, gastou quase todo o dinheiro que ganhou a trabalhar nas minas de diamantes no Botsuana, o tipo não tinha qualquer escrupulo. Facista, dizia ele.
Na conversa com o "coach" lembro-me de termos combinado uma tarde de modo a eu poder ir assistir a um novo treino para caçar companhias petroliferas, o que me pareceu bizarro, mas ele explicou-me que são mais fáceis de encontrar do que os Elefantes. Fiquei curioso mas decidi-me a deixar o simpático "coach", que fiquei a conhecer por Ketumile.
Entretanto o avôzinho já se tinha ido embora e no seu lugar ficou uma bola de cortiça que imeditamente me apeteceu chutar. Como não sou muito capaz de refrear os meus intintos levantei a perna para trás e desferi um pontapé violento no objecto esférico. Claro que me esqueci de verificar se a bola era toda de cortiça, e de facto não era. No interior estava uma pedra, e isso já explicava a dor lancinante que tinha no pé. Pior ainda, o objecto foi arremessado contra uma vidraça que acabou por se partir.
Ainda estava eu agarrado ao pé, cheio de dores, já uma mulher vinha na minha direcção com um pau de vassoura brandido ameaçadoramente. O pouco que consegui destinguir no meio da minha dor foi a sua baixa estatura e uns gigantescos seios descaídos que repousavam sobre a sua barriga onde parecia caber todo o recheio valioso da sua casa. Já tinha levado três ou quatro vassouradas, até que me consegui desculpar e mostrar-lhe a minha agonia. Ela compadeceu-se e levou-me para casa. Quando lhe contei tudo, ela levantou-se irada. Pensei que fosse levar mais vassouradas, mas ela apenas berrou o nome que se prolongava por cada silaba: Feeer...naaaaannn...dooOOOO! Fernando, vem já aqui! E lá apareceu um Fernando. Daqueles Fernandos pequeninos, para aí com 8 anos, todo ranhoso e com cara de reguila. Era seu filho, no meio de outros 23. Foi o autor da bola de cortiça. Tinha como hábito pregar partidas e não havia vassoura que o dobrasse, foi o que fiquei a saber.
A cochear pela rua, tinha agora como companheiro um pequeno puto reguila. Foi o castigo aplicado a este Fernando. Teria que me acompanhar e ajudar-me até o meu pé ficar novamente. Pensando para com os meus botões, perguntei-me se este não tinha sido um duplo castigo, uma lição para não me entregar a impulsos infantis. E de facto caminhavamos juntos.
Continua...
Publicada por Artur à(s) 10:48 a.m. 0 comentários
O Homem de cinzento
Episódio V
O Homem, acordou! Hoje sem se levantar para fazer a barba, sem ter de espalhar o after-shave incomodativo dos úlitmos 5 anos. Sem tomar as torradas e o café com leite de toda a vida. Sem levar as crianças á escola, sem se despedir da mulher com um beijo.
Afinal ele nunca leu a biblia!
E aquele roupeiro forrado de fatos cinzentos não passa da falta de imaginação de um narrador que fez dele personagem. Um acto pobre e sem qualquer mais valia sentimental, desprovido do calor que na realidade a vida dá à superficie cutânea dos que estão vivos. Uma infeliz obra de um espirito que prefere montar a vida dos outros do que a própria.
O Homem ficou transtornado porque recebeu um exame do médico onde vinha especificado uma anomalia rara. A cavidade que se destina a receber o orgão vital estava vazia. Ele não tem coração! Não existe, e não se sabe se alguma vez existiu. Tem apenas um espaço vazio no seu lugar.
Está á mais de uma hora na cama a tentar ouvir palpitações do seu batimento cardíaco, mas não houve nada. Não é possivel, pensa ele. E amaldiçoa quem criou tamanha aberração.
Um homem sem coração só pode ter sido criado por outro homem sem coração- Pragueja ele-.
Saíu da sua casa, ainda de pijama vestido, levou o cartão de crédito e foi comprar fatos de outras cores.
Publicada por Artur à(s) 10:28 a.m. 0 comentários
segunda-feira, fevereiro 09, 2004
CITAÇÃO VI
" A educação criou uma vasta população capaz de ler, mas incapaz de reconhecer o que vale a pena ser lido"
Trevelyan,G.
Publicada por Artur à(s) 12:53 p.m. 0 comentários
Homem de Cinzento
Episódio IV
O Homem descobriu que afinal não tem nenhuma amante. Foi tudo um sonho criado pela sua cabeça. Ele teve sim, a vontade de ter uma amante. Por isso ficou mais tempo na cama e se atrasou.
A sua desonra foi causada por um sonho molhado, ali, mesmo ao lado da sua mulher. Foi o desejo de um pecador, que como um porco quis sucumbir ás delicias carnais dos diabos de saias roncando, chafurdando avidamente. Desejou esconder-se da sua vida entre as pernas de uma cortesã.
Concluiu que a vontade de ser jovem, em que era homem capaz e bem sucedido entre as mulheres, lhe prevaricou o juízo resultando dele um sonho cor-de-rosa. Cor-de-rosa, a cor do pecado disfarçado de cordeirinho.
Mais uma vez, veste o seu fato, cinzento, metódicamente, elegantemente, apertando o último botão do colarinho em frente ao espelho, incomodado pelo cheiro do after shave, ainda presente no ar, e parte par a sua desgraça como um soldado armado de rigidez troca a vontade própria por um designio maior.
Publicada por Artur à(s) 12:26 p.m. 0 comentários
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
O Homem de fato cinzento
Episódio III
09:05...Este é o marco na vida do Homem!
Será uma data que por mais que ele viva, jamais o esquecerá!
Existem poucas coisas que marcam desta forma a vida de um homem.
Ele lembra-se!
O dia do nascimento dos seus filhos. O dia em que acabou a universidade com as melhores notas do curso! O dia em que comprou o primeiro fato para o seu primeiro emprego a sério! O dia em que emprestou dinheiro ao seu pai! O dia em que a sua esposa o aceitou em casamento! Aliás, isto está muito caótico. Por ordem:
O dia em que emprestou dinheiro ao seu pai!
O dia em que acabou a universidade com as melhores notas do curso!
O dia em que comprou o primeiro fato para o seu primeiro emprego a sério!
O dia em que a sua esposa o aceitou em casamento!
O dia do nascimento dos seus filhos!
O dia em que foi elogiado pelo chefe como o empregado que ultrapassou os objectivos estabelecidos com mais sucesso!
E estas, são as pequenas grandes marcas do Homem que viveu a sua vida regrada, trabalhando arduamente, que foi admnistrando as alegrias e resistindo aos momentos de provação humildemente.
Mas hoje, abateu-se a catástrofe. Acometido na sua dor, tem por debaixo dos aros brilhantes dos seus óculos, olhos que vermelhos de culpa, que tentam esconder o orgulho partido. Vive agora refugiado por detrás do monitor do seu terminal.
O Homem foi apanhado! Ele sabe-o mas admiti-lo é dilacerante. Só em pensar como enfrentará o seu lar já o põe frenético.
Levantando-se sucessivamente para ir mexer nos manipulos da máquina de café, como se pudesse rodar nelas o tempo, e fazer com que tudo tivesse assim solução. O desespero desenrola-se como numa enorme comichão.
Foi apanhado e o pior de tudo não ter é caído nela, mas sim não ter previsto tudo o que sucedeu. É algo que não se admite. Se não se tivesse dado desleixo ele podería ter evitado o erro. O erro, a falha.
Como poderá enfrentar os colegas de trabalho?
Já consegue antever na sala de tecto baixo, os olhares comprimidos que o irão apertar. Olhos que rebentarão de vingança esmagando contra o soalho flutuante.
Chegou atrasado...foi a primeira vez na sua vida. Tantos anos a calcular o trânsito, a calcular um furo no pneu do carro, um esquecimento da mulher, o ter que ir comprar o pão"frequinho" á padaria, o elevador ocupado, a demora do café, os peões que se atravessam com sinal já verde para os automobilistas, a pastilha que se colou ao sapato e se tornou indesejável, as chaves que caíram ao chão, tantos anos e por causa da amante que arranjou, hoje pela primeira vez na sua vida, chegou atrasado ao escritório.
Uma amante...
Como poderá encarar os seus colegas e os seus filhos. O homem estava a tornar-se num falhado igual a qualquer outro.
Ele sempre o soube, uma loucura é o bastante para nos levar para outra loucura e por aí em diante. No final surgirá o caos onde antes reinava a ordem.
Chegará o apocalipse, afinal a Biblia dizia a verdade.
Publicada por Artur à(s) 1:32 p.m. 0 comentários
Nas asas da boa disposição
...Disseram-me que sou muito racional
Pelo que fiquei seríamente pensativo...
Publicada por Artur à(s) 1:29 p.m. 0 comentários
quinta-feira, fevereiro 05, 2004
Mais uma bola
Eis que surge uma bola vermelha.
Foi tão inesperada como um mil folhas com creme de Tangos de Piazzola.
Ficou ali especada a olhar para mim. Por momentos hesitei em entrar, mas, como parecia mostrar cansaço parei com a brincadeira, não se resolvesse a desaparecer. Fiz-me ao caminho.
Trepando pela enorme escadaria de coral vermelho, não podia deixar de ficar curioso com os peixes que nadavam á sua volta. Desde barbatanas gigantescas em peixes diminutos, a pequenas barbatanas coloridas nas lulas fluorescentes, o certo é que os cavalos marinhos estavam bem treinados e os jokeis pareciam ansiosos para a corrida. Quanto mais subia, degrau a degrau, mais vida coloria os complexos corais.
Era tudo tão bonito que me apeteceu partilhar o que via com mais alguém. Uma dor instalou-se no meu peito, resultando da minha solidão. A dor foi crescendo a medida que tudo se tornava ainda mais precioso e nunca visto. As algas estavam decoradas com as mais delicadas teias de aranhas, extremosas na sua fina arte, que tecida com fios de prata segregada por sereias aos ouvidos dos marinheiros apaixonados, guardavam raios de luar de noites já esquecidas. Estas algas compunham o caminho de arcos sucessivamente verdes, que se movendo suavemente ao sabor do vento expiravam sons perfumados, á semelhança das jovens freiras ainda virgens, esquecidas das suas matinas por amor ao corpo de Cristo.
Do meu peito rebentou então um botão que abriu em flôr de Lotus. Deste botão uma forma foi crescendo até reconhecer nele o filho que hei-de ter. Ele veio acompanhar seu pai neste momento, e terá nesta escada de coral a primeira recordação paterna. Prosseguimos de mão dada.
Já não estavamos muito longe da porta. Ele olhou para mim como se fosse a hora de nos despedirmos. Não proferiu uma palavra da sua boca, que vermelha não se assemelhava á minha. Devia ter herdado aqueles contornos da mãe, e por isso decidi não me esquecer mais dos seus lábios. Um dia saberei quem será a minha mulher graças ao meu fillho. Ele sorriu para mim, abraçou-me e deitou-se de novo no Lotus. A flor desfez-se em fragmentos que eu inspirei instintivamente, tal como meu pai havia feito um dia.
Entrei na bola vermelha mas não me recordo muito bem da porta. De facto, voltei-me para trás e não encontrei qualquer porta. O vermelho era infinito.
Todos corríam em grande azafama. Parecíam todos extremamente ocupados, como que a preparar um festejo. Dirigi-me a um posto turistico e perguntei o que se passava para tanta correria. A rapariga que estava dentro do posto fechou-me o vidro no nariz e por pouco não entalou ali o meu orgulho. Salvou-o um ancião, que curioso pelos meus modos se aproximou e inclinando a barriga na minha direcção, a constatável prova da sua sabedoria, exclamou com voz pomposa, quais trompetas soprando no casamento do Rei:...
continua
Publicada por Artur à(s) 3:08 p.m. 0 comentários
Consequências de um roubo
Guardei três ou quatro sorrisos,
O brilho dos teus olhos castanhos,
Que nos meus azuis se fizeram tamanhos,
Guardei-os como se me tivessem sido dados.
Quando de dia caem como cortinados,
De noite como lençois se estendem.
São lençois cada vez mais pesados
Dos sonhos que nas dobras se prendem.
Se eu soubesse traduzir sonhos
Ou mesmo aquelas dobras de lençol
Não me custaria acordar sem sorrisos
E sem esse brilho que me esconde o sol.
Publicada por Artur à(s) 11:41 a.m. 0 comentários
quarta-feira, fevereiro 04, 2004
Dias de Sol em tempos invernosos não são meros acasos !
Os musculos retesados em esforço, comprimem-se sob o condençar do céu em tons de cinzento espesso. Segurando-se ás nuvens que larga depois amorratadas para descansar os braços. Adamastor têm ainda os pés e um braço agrilhoado nas profundezas que se perdem para lá do fundo dos oceanos. Foram os homens arrogantes e incautos que o fizeram cativo. Atraiçoram-no com promessas e esperaram que adormecesse para lhe porem aqueles tormentos cingindo-lhe os membros. Mas ontem uma das algemas rompeu-se, e Adamastor reergueu-se, rugindo à procura das suas forças.
Rodou a cabeça. Rodopiou os olhos que iluminaram a madrugada e fez o dia em cinzas só com o ranger dos seus dentes. Ele vai puxando força com mais força que faz com a carne a suar. Assim aquece a terra e as nuvens amarrotadas deixam passar o sol. O Adamastor voltará a caminhar, e preconizo que seja num dia de azul intenso, com o sol flamejando, e o mar cheio de nuvens amarrotadas a boiar. Caminhará sobre as correntes vencidas!
Caminharás Adamastor! Voltaremos a ouvir o canto do Poeta num dia de acaso!
Publicada por Artur à(s) 1:36 p.m. 0 comentários
VANITAS VANITATUM , OMNIA VANITAS
QUAM
VITIIS NEMO SINE NASCITUR
Publicada por Artur à(s) 12:48 p.m. 0 comentários
terça-feira, fevereiro 03, 2004
Em Coimbra
Elementos pouco abonatórios
Estou a tentar convencer-me de que não deveria pensar em voltar para aquela cidade onde já vivi
As ruas da baixa cheiram a mofo
O trânsito é tão caótico como o de Lisboa
O domingo é um deserto
Proliferam betos e pseudo intelectuais
O Mondego é lindo mas poluído
Há inúmeras pessoas a viver do dinheiro dos estudantes
As pedras das calçadas estão tão boleadas que quando chove anda tudo a escorregar
A tradição já não é o que era
É uma cidade quando deveria ser um país
Os cursos só duram no máximo 5 anos
Há poucos postos de trabalho
Devía ter o mar um pouquinho mais perto
Os Comboios para Coimbra estão cada vez mais caros
Os bares andam a fechar cada vez mais cedo
Cada vez conheço menos caras
Estou lá poucas vezes
As faculdades deveríam ter mais condições, sendo o local de eleição para criar um posto de investigação coordenador a nível nacional
Deveria ter mais instalações para a práctica de desportos
Devería ter mais salas de cinemas, que fossem menos comerciais
Deveríam celebrar o dia da poesia da mesma forma que promovem os encontros de fotografia
Devería ter mais paredes para escrever criticas politicas e etc
O novo recinto da queima das fitas está muito mal concebido
Devíam institucionalizar as tascas e fazer respeitar os seus donos, assim como o espaço de virtude em que se poderíam transformar
É demasiadamente democrática para a democracia em que vivemos
Há sempre muitos bebados pelas ruas
Os centros comerciais são muito pequenos
É só estudantalha com novas ideias, extravagantes
As noites demoram sempre mais tempo a passar
É uma cidade pequena
Deixa sempre muitas saudades
E por aí a fora...
Publicada por Artur à(s) 3:23 p.m. 0 comentários
Impulse
Já não me recordo há quanto tempo não recebia uma flor!
Pois em Coimbra, recebi uma, e logo um cravo que me avermelhou a alma.
Que bom poder relembrar este pequeno prazer sob a forma de uma grande surpresa!
Acho que se devia adoptar o habito dos catalães, que no dia de S. Jordi leva as mulheres a oferecerem flores aos homens, enquanto que estes lhes oferecem livros. O resultado poderia ser o de eventualmente, descobrir a nossa população feminina mais culta, e a falange masculina poderia, quem sabe, ganhar um pouco mais de sensibilidade (talvez deixassem de olhar para as flores como aquelas coisas que se oferecem com achaques de romantismo, no dia dos namorados, ou aquelas coisas onde lhes mijamos quando estamos com os copos. Aquelas coisas, seres vivos.)
Além disso, para os que gostam de pensar nestas coisas através das vertentes económicas, poder-se-ía verificar um crescimento das transações de flores, estimulando o pequeno negócio.Ao ponto de se tornar tão lucrativo que as floristas se espalharíam pelas ruas de Lisboa á semelhança do que acontece em Amsterdão, não deixando de ter um apelo turistico, e portanto, com entrada de divisas estrangeiras.
E, finalmente, gostaria de imaginar os grandes machões lusitanos, que na maioria dos casos se verifica serem adultos imaturos, a ficarem comovidos com uma delicada flor sem ter receio de mostrar o seu sentimentalismo. Seria uma boa melhoria.
Mas esses machões talvez tenham razão, eu sou um lamechas sentimentalista, e os livros de poesia só podem ser escritos por homosexuais...perdão!..Panascas...porque esses têm a mania de ser sensiveis, e toda a gente sabe que a comunidade gay em Barcelona é bastante extensa.
Enfim, traumas de infância para quem teve uma adolescência acelarada e desordenada, e explica a sua instabilidade por esta ordem cronológica.
Publicada por Artur à(s) 12:53 p.m. 0 comentários
segunda-feira, fevereiro 02, 2004
Passa Tempo
Para quem não gosta de ler aqui tem um divertimento viciante.
Gostaria porém de trocar o pinguim por outro animal. Um ditador ou um tipo da stand up comedy sem piada nenhuma.
http://amok.maxxmok.de/Pinguin.swf
Publicada por Artur à(s) 12:44 p.m. 0 comentários
sexta-feira, janeiro 30, 2004
Se...
Adoro o "se"!!!
O "se" é o elemento fundamental para o sonho, quando é tão bom sonhar.
Mais do que cumprir um "se", o momento de maior êxtase será o instante que o antecede com a certeza de que "se" se vai realizar. O cumprimento de um sonho não é uma satisfação completa e terminada, pelo que impele a novo sonho. Esta procura parece-me ser causada pelo vicio que ganhamos com aquele instante anterior á realização. É uma verdadeira delicia!
Publicada por Artur à(s) 4:52 p.m. 0 comentários
QUE FORÇA É ESSA
(Letra e Música de Sérgio Godinho)
"Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades para os outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
Que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
Que te põe de bem com os outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
Não me digas que não me compreendes
Quando os dias se tornam azedos
Não me digas que nunca sentiste
Uma força a crescer-te nos dedos
E uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compreendes
Que força é essa…
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades para os outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa…"
Publicada por Artur à(s) 12:28 p.m. 0 comentários
quinta-feira, janeiro 29, 2004
Meu avô Viriato
O sangue que me corre nas veias
Têm a herança contida de um Viriato
O mais bravo dos larápios.
Afunilando no pulso, o fluxo da resistência.
Sinto que tenho forças para arrancar o asfalto,
Que de mãos nuas, sigo dobrando em espirais
Cravando-lhe as unhas, como se carne fosse.
Do meu peito brota uma luz que cega o Sol.
E de braços abertos este pequeno Lusitano
Ergue a cabeça para sacudir a madrugada,
Com violência, domando o vento que se agiganta.
Sobram ainda forças para possuir a lua.
Ela fez-se ofegante debaixo do meu corpo!
Pois é assim que me sinto!
Tão forte, que na raiva de cerrar os dentes,
Estes acabam por se moldar uns nos outros
Como que a segurar o sabor da vida,
Ávidos do seu mais infimo pormenor.
Mas são os ollhos, os que mais sabem desejar.
São dois globos gigantescos que não têm fundo
Esgotando-se de movimentos sobre o mundo.
Acreditam que tudo podem conquistar.
Estes são os meus olhos!
E como me fazem contorcer de dores,
Dores de cores diferentes, delirios plangentes,
De quem quer tudo para si. Estes olhos,
Olhos de larápio, na argúcia da escuridão
Vêm mais do que creêm, os brutos incrédulos.
Vêm demais, demasiado, e nada deveriam ver.
E, no final, há sempre uma fábula moralista
Que nos dá o humilhante conselho de quem sabia
Que até o mais forte tem um dia de fechar a vista.
Pela traição. Foi assim que morreu Viriato.
E se pensar bem, só assim pode morrer um larápio.
Quase que sinto o metal a entrar-me nas costas,
A lâmina que abre uma fenda no granito cinzento.
Em volta tudo grita e se eleva, é o ultimo tormento.
Respeito! Trompetas gemem. Já a foice brilha na aurora,
Tingiu-se o céu de vazio, arauto do tenebroso.
O Adamastor caíu, o mar gelou, e Viriato vê agora:
Das montanhas lançou seus olhos a mergulhar
Nas paisagens verdes e douradas. Beijou as rochas
Que ficaram petrificadas ao verem um céu tão azul.
Voou pelos vales, com as amarguradas preces das popas,
Inspirou o cheio castanho das moças,tinham tranças enfeitadas.
E morreu…
Mas foi ele e não eu, eu não sou Viriato.
Meu avô eu não sou nada!
Hoje os Romanos estão fortes e os Viriatos mais fracos
É verdade, deixámo-nos romanizar…
E eu então deixo a madrugada livre e solta outra vez
Termino este meu sonho, em que fui Viriato,
Agora, vou voltar a vestir o disfarce da minha fraqueza.
Agora, volto para onde descerro os dentes
Agora, a vida foje-me perante os olhos fechados.
Mas não deixarei de ser larápio
E os romanos que se ponham em guarda...
Publicada por Artur à(s) 6:50 p.m. 0 comentários
Bolas
Ao percorrer o blogue de um amigo meu, deparo-me com linhas de bolinhas vermelhas suspensas no ar. De repente estou rodeado por bolinhas vermelhas que cobrem todos os ângulos da minha visão. Não me parece assim nada tão anormal porque se me vejo o tempo todo rodeado de ovelhas, isto é quase a mesma coisa.
Ambas são redondas e mamiferas, diferindo apenas na cor.
Como seria de esperar entro numa das bolas. Descubro um mundo novo, mas nada tem de admirável, tal como diria o Aldous H.
Era apenas uma longa planicie vermelha que se estendía de árvores desfolhadas, uma paisagem de total abandono e solidão. O meu espirito não se coadunava à paisagem e fui-me embora antes que aquela brisa quente e suave me envolvesse no silvado da erva vermelha.
Bola seguinte.
Aqui os tons de vermelhos eram mais coloridos e a paisagem apresentava-se movimentada, num ritmo acelarado, como se tratasse de um formigueiro atacado por um gigantesco papa formigas.
Os prédios erguíam-se vermelhos até ás nuvens. Sim, estas eram azuis, rasgadas pelo brilho vermelho do sol. O que causava nos imensos edificios, reflexos em tons de roxo.
As pessoas,na sua maioria ruivas, usavam roupas que imaginamos pelos filmes decorridos no futuro. Não existíam cães nem gatos, e moral, era palavra proibida.
No centro, vía-se um grande varão cromado onde um papa formigas amestrado dançava exóticamente. Foi uma obra do presidente da bola para gaudeo e distracção dos seus laboriosos habitantes.
Na bola seguinte fui encontrar uma população dividida em dois continentes. Para demarcar bem a divisão exisitia uma cópia do mar vermelho, tendo em ambas as margens, várias colunas de metralhadoras enfeitadas com arame farpado. Uma das terras chamava-se Cães Unidos, enquanto que a outra se denominava de Terra da Liberdade. Obvio! Havia chegado à bola dos habitantes gatos e habitantes cães expulsos da bola anterior. Ambos se tinham dividido porque a moral e bons costumes lhes tinham ensinado que um gato que se preze não se daria com um cãozarrão, e vice-versa.
Esta confusão não me agradou nada!
Outra bola.
Entrei num imenso oceano. Sem continentes, sem rios, sem céu. Apenas oceanos com peixes deliciosos, e estrelas do mar feitas de chocolate. A areia era feita de açucar, e as baleias eram gomas de vários sabores. As águas destes oceanos eram de groselha docinha, que dava vontade de beber.
Como a minha mãe é diabética e não me podería ir visitar, voltei a explorar outras bolas.
Bola 756.
Aqui, estava em casa! As ruínas espalhavam-se por todo o lado, com construções magnificas que o tempo se divertiu a converter em escombros. Sussuros em tons de vermelho prometíam falar de hábitos perdidos, de línguas estranhas e sobre formas diferentes de confeccionar o pão, alimento de todos os dias.
As populações, que deram lugar ao tempo tinham um gosto particular pelos motivos geométricos e por casas apontadas em direcção à brisa do mar. Usavam sobretudo recipientes feitos em vime, pelo que a cerâmica era rara. Dominavam técnicas de soberbos processos de fundição.
O vento aqui trazia sempre segredos aos nossos ouvidos. O sol tinha aquele vermelho do entardecer melancólico, apazíguando os corpos cansados de imaginar.
Mas, parece haver sempre um "mas", que raio, e esta bola estava ameaçada por outra bola próxima da sua orbita, bola onde vivíam e crescíam grandes senhores de poder vermelho sanguíneo, que em favor do progresso e das margens de lucro decidiram acabar com a inutilidade da bola das ruínas, existindo já um programa de restruturação de espaços e construção dos 10 maiores centros comerciais do universo, assim com de complexos industriais bem maiores que a Barragem do Alqueva.
Pensei logo em desenvolver uma acção para salvar esta bola. A melhor solução assombrou-se-me como em ir pedir emprestado o gigantesco papa-formigas á bola sem moral. Depois, utilizáva-o para acalmar os animos desta bola pró-evolucionista, e tudo ficaria resolvido.
Fiz-me então à partida.
Acontece que quando saí da bola, voltei a estar rodeado não por bolas mas de ovelhas...a tristeza caíu em mim perante a incapacidade de não poder fazer nada pelas ruínas. Estava separado do mundo das bolas e não sabia como voltar. Abri sucessivamente o blogue do meu amigo para ver se voltava ás bolas, mas nunca tive sucesso.
Agora as vidas passadas estarão entregues ás ruinas do futuro.
Eu falhei na sua salvação...
Publicada por Artur à(s) 12:43 p.m. 0 comentários
quarta-feira, janeiro 28, 2004
Convenções Internacionais
Bem, eu como leigo que sou nestes assuntos, entendo uma convenção internacional como um acordo estabelecido entre dois ou mais países, na qual se dispõe legislação tendo em vista uma determinada normalização.
Tendo em conta esta interpretação, ao deparar com um Decreto-Lei (n.º 24/2004, artigo 2.º, -b )referindo certas convenções, não pude deixar de encontrar alguma graça à seguinte terminologia:
"...a Convenção sobre o regulamento Internacional para Evitar Alborroamentos no Mar, de 1972...e a Convenção para Salvaguarda da Vida Human no Mar, de 1974..."
Leis para evitar os alborroamentos no mar???? Mas antes de exisitirem leis seríam, por acaso, considerados estes alborroamentos como prácticas desportivas de alto-mar entre navegadores? Assim como temos o jogo da malha, ou percorrer o maior número de km em sentido contrário na auto-estrada? Parece-me bizarro...
E esta Convenção para Salvaguarda da Vida Humana no Mar?Também não percebo. Ou então já estou a ver. Se uma potência mundial dominante e super poderosa invade o teu país, e te ameaça de morte, a melhor saída é atirares-te ao mar, onde estarás a salvo pela convenção. Ou até, se estiveres a passar fome num país vitimizado pela guerra, já sabes: "atira-te ao mar e diz que te empurrarem". Isto claro, se não te armares em esperto começando a falar castelhano assim que deres á costa Norte Americana. Poís se soltas um "olá gringos", eles mandam-te para Cuba. O que bem visto, não seria mal pensado...
Revendo estes pontos, nem sei bem porque achei graça ás convenções.
Publicada por Artur à(s) 4:23 p.m. 0 comentários
segunda-feira, janeiro 26, 2004
José Carlos Ary dos Santos
Convenientemente, decidi celebrar a vida do poeta neste pequenino espaço de letras.
Um homem na cidade
Agarro a madrugada
como se fosse uma criança
uma roseira entrelaçada
uma videira de esperança
tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem por força da vontade
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua
desta lua
que no meu Tejo acende o cio
vou por Lisboa maré nua
que se deságua no Rossio.
Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.
Sou a gaivota
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.
O malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem!
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis que me quer bem!
Publicada por Artur à(s) 1:31 p.m. 0 comentários
Como me aborrecem estas coisas
Sobre algumas saídas passadas na noite de Lisboa...
Porque prefiro gatos a cães! Um gato se estiver no cimo de um telhado, terá um cão desesperado a ladrar como um bruto. O gato diria para o cão: "porque não sobes?", o cão responderia:"se te apanho desfaço-te".
Agora vamos inverter as posições. Veríamos um cão desesperado em cima de um telhado, e um gato sentado cá em baixo, com o seu rabo a ondular no ar.
O gato diria num tom calmo e sedutor:"Porque não saltas?Salta, miauuuuu?"
O cão dira:"se te apanho, desfaço-te!!!".
Prefiro os gatos! Definitivamente!
Mas os cães são mais fiéis. Adaptam-se melhor à nossa personalidade, que é o mesmo que dizer à nossa vontade. E se eu lhe dou de comer e beber, se lhe dou carinho e amor, não é pedir muito que ele me obedeça quando eu mando, e que trema quando elevo voz. Porque eu sou bom a mandar berros, e sei mostrar a minha autoridade. Enfim...
Por isso admiro os cães que obedecem sem berros, porque os "donos" não precisa de berros para se fazer entender.
Os gatos não obedecem, mas nós obedecemos a estes pequenos montes de pelos sem ouvir um só berro da sua parte. Basta um miau meiguinho e um olhar irresistivel.
Tudo o resto me aborrece..."se te apanho desfaço-te"...por favor, os brutos que se atirem do telhado. Por favor, não tentem cercear a minha liberdade com gritos. Eu sou gato muito senhor dos seus bigodes.
Publicada por Artur à(s) 11:50 a.m. 0 comentários
LE PETIT BOURJEOIS
Venham ver, venham ver,
Como tenho este bandulho cheio,
E muito me custou, vos digo,
A abastá-lo de recheio!
Venham ver, venham ver,
que quase explodo em pedações,
dai-me penico que cago prata
Mijarei oiro dos meus colhões!
Venham ver, Venham ver,
Como arroto diamantes,
Coço o escroto de platina
Em seios perturberantes!
E, é apenas para quem pode,
Quem é pobre, importuna
As aparas do meu bigode.
A festa é sempre assim,
Ao ritmo da fortuna
Tocam trompas de marfim.
Mas tenham pena senhores,
São tristes meus dissabores,
Tenham pena de mim.
Publicada por Artur à(s) 10:16 a.m. 0 comentários
sexta-feira, janeiro 23, 2004
Citando V
As I was leaving this morning, I said to myself 'the last thing you must do is forget your speech.' And sure enough, as I left the house this morning, the last thing I did was to forget my speech.
Rowan Atkinson, Live in Belfast
Publicada por Artur à(s) 6:37 p.m. 0 comentários
As Aventuras do Homem de Fato Cinzento
Episódio II
Mais um dia!O Homem tinha acabado de estacionar o seu carro. Ía já caminhando alegremente em direcção ao escritório, depois de ter voltado ao carro para confirmar se as quatro portas estavam fechadas, pois nunca se sabe se o fecho centralizado pode falhar.
É óbvio que não está em causa a possibilidade de ele se esquecer de trancar o carro. Ele Nunca se esquece!
Mas neste pequeno passeio encontra uma mulher na rua a pedir esmola, daquelas que hoje vemos, ou não vemos, pelas ruas da nervosa cidade de Lisboa. Ela está completamente estirada no chão. De barriga contra o solo, e face voltada para a terra, como quem tem vergonha de olhar para o rosto dos ilustres que passam. Estende uma mão aberta para os céus.
A figura causa o irritante sentimento de piedade no Homem. As suas roupas são escuras, desde a saia comprida, ao casaco de malha extremamente coçado, terminando na miserável negritude do lenço que lhe esconde a cabeça. Até a mão que se abre é escura. Escurecida pelo sol, pelos ventos, e pela sujidade espesinhada sob as solas de sapato.
Julgo que todo o corpo desta mulher, amortalhada em vida, terá o tom mais alvo que os dentes de marfim expostos em anûncios a dentífricos, com excepção da sua mão de tez escura, por estar constantemente nua para o sol.
Então o Homem, que até estava bem disposto por ter encerrado um negócio bem representativo para a "casa", lança da sua mão ao bolso e saca uma moeda de 1 euro, poís também não é assim tão forreta, e deposita-a com um sorriso, na mão da velha estendida, esfregona abandonada na calçada.
Chegou ao escritório sorrindo para si mesmo, afinal tinha dado o seu contributo para saciar uma percentagem da fome mundial.
Por vezes, um pequeno grão de areia faz de nós uma montanha.
Publicada por Artur à(s) 11:39 a.m. 0 comentários
quarta-feira, janeiro 21, 2004
Citando IV
"Au plus élevé trône du monde, si ne sommes nous assis que sur notre cul."
Michel de Montaigne
Esta frase é simplesmente deliciosa!
De facto, por mais presunção que tenhamos, por mais egocêntricos que consigamos ser, mesmo quando achamos ser donos da razão ou da moral, fazendo destes predicados o nosso trono, o facto é que estamos apenas acima do nosso rabo! Encontramo-nos somente em superioridade quando em relação ao nosso cu.
Tenho o hábito de dizer que tudo não passa de uma questão circunstancial limitada pelas conjunturas. Nem sempre uma pedra caída no chão provoca eco, nem sempre a água reflete a imagem. Raramente somos o que pensamos ser nos momentos, em que vendados pela presunção, dificilmente perceptuamos serem os menos oportunos.
Atesto a minha afirmação com mais uma citação, agora deste senhor, Thomas Arnold, que disse: "What we must look for here is, first, religious and moral principles; secondly, gentlemanly conduct; thirdly, intellectual ability.". Dirigia-se aos seus pupilos da escola de Rugby.
Talvez se confirme ser realmente mais produtivo dizer sempre o contrário do que tencionamos dizer com verdade, do que encriptarmos a verdade com a autoridade auto-adquirida das frases sem erro, em geral feitas lei pelo intelecto superior, não ultrapassando a doce realidade de tudo não ser mais que uma frase vinda do cu.
VOCES INANEM
Publicada por Artur à(s) 11:55 a.m. 0 comentários
Citando III
"Encontramos uma estranha pegada nas areias do desconhecido. Formulamos teorias profundas, uma após a outra, para mostrar sua origem. Finalmente, conseguimos reconstituir a criatura que deixou a pegada. E vejam ! A pegada é nossa !"
Sir Arthur Stanley Eddington
Publicada por Artur à(s) 11:44 a.m. 0 comentários
terça-feira, janeiro 20, 2004
O talho de La Fontaine
Ontem á noite senti-me carente! Pelo menos, mais carente do que habitualmente.
Tinha os sentidos despertos. O meu olfacto parecia estar mais activo, sempre á procura do cheiro de fêmea, à procura do odor adocicado da pele que a minha boca desejava saborear.
Tudo dentro de mim estava em acelaração. Era como se as reacções quimicas fizessem vomitar os átomos de desejo intenso e inquietante.
O certo é que não conseguía estar quieto.
Fiz-me á rua. Inconscientemente, dei por mim junto a um daqueles talhos para maiores de 18 anos. Eu já conhecia bem a casa e o porteiro sorriu para mim, de esgar cúmplice, assim que passei pela entrada.
Sempre tive uma atracção por aquele Neon luminiscente: "Haute Viande".
Ao entrar constatei que o ambiente estava apinhado. Haviam fêmeas a dançar em frente a mesas de tipos bem vestidos, sentindo-se o perfume caro de ocasião dos clientes, e também o perfume reles das bailarinas que acenavam exoticamene com as suas carnes.
Em palco estava uma das principais atrações da casa. Era uma vaca Tabapuã, conhecida pela proeminência dos seus fabulosos úberos, que de encontro ao varão arrancavam os olhos da assistência. Havia quem dissesse que eram de silicone. Mas se eram, porra,estavam muito bem feitos!
Pedi um copo de wiskey. Veio de volta o copo e uma Vaca Charolesa que parecia ainda uma vitelita. Tinhas os cascos bem limados, envernizados, e já apresentava uns quadris bem definidos, tentadores. Afinal o rosto é que enganava, pois parecia ter as feições de um anjinho. Sentou-se ao meu lado e veio tentar provocar-me a sede. Falava com um hálito quente e os seus úberos, de mamilos arrebitados, tesos, provocavam-me a vontade de a agarrar. Cobrir! Cobrir,Cobrir, Cobrir, era tudo o que me vinha à mente. As suas palavras doces e as suas caricias despertavam em mim a sofreguidão das noites solitárias, a tesão narcotizava-me os sentidos. Fiquei cego!
Mas não podia tocar-lhe e vinguei-me no Wiskey!
Um novo espéctaculo foi apresentado entretanto.
Todas as mesas ficaram embasbacadas com a nova apresentação. Enquanto as vacas que se insinuávam junto ás mesas, ríam com pequenos risinhos trocistas. Iríamos assistir a um grupo de Ovelhas transformistas a simular um show de carneiros transexuais. Não estão bem a ver! Foi uma situação e tanto.
As ovelhas até eram engraçadas, e tentavam disfarçar as tetas com um pano apertado. Por cima desse pano tinham um cinto com tetas postiças polvilhadas com rouge foleiro. Traziam umas pestanas postiças ainda mais exageradas, muito escuras, e no cimo da cabeça usavam uma coroa de cornos retorcidos. Através das suas roupas cheias de lantejoulas e echarpes estravagantes, dançavam com movimentos sensuais tentando não deixar de ser um pouco masculinas, levemente rigidas e musculares. Mas o mais hilariante, foi a tentativa de engrossar a voz de forma a parecer um carneiro, cantando uma melodia de cabaré. Algo de sublime!
No final deste número inesperado, o dono do talho conseguiu arrancar uma manada de palmas ao anúnciar, que da próxima vez ele próprio entraria no número. Claro que provocou a gargalhada geral, sabendo á partida que ele nunca o faria. Saíu-me um grande carneiro este tipo. Eh eh eh...
O certo é que o humor conseguiu estimular-me a imaginação e decidi que ali não faria nada de imaginativo. Se permanecesse no "Haute Viande", limitar-me-ía a ser provocado por aquelas vacas profissionais ás quais nem uma lambidela me seria permitido dar. Assim não! Foi o que disse, e fui-me embora.
Para trás ficaram aqueles fulanos bem vestidinhos, rodeados de vacas lânguidas e ávidas de dinheiro, profissionais da exaltação sexual dos sem imaginação, que não conseguindo imaginar tudo na sua cabeça necessitam estar naquele talho horas a fio para depois ir para casa bater uma, ou para esvaziar a fraca capacidade de fantasia com as próprias mulheres. Mais tarde, quando se juntam, falam destas vacas como se fossem putas, mas o certo é que nenhum deles cobriu qualquer das vacas que ali estão. Nem mesmo uma ovelha cobriram. Falam das suas carnes com avidez, esquecendo-se que elas também pensam, e talvez pensem mais que os próprios, sobretudo quando os têm debaixo de controlo e lhes fazem subir as calças, procurando tirar deles não amor mas dinheiro, fazendo-os esquecer que não são nenhum exemplar de raça, tendo sim uma capacidade exemplar de esbanjar dinheiro.
Já fui assim, mas desde que vi aquelas ovelhas transformistas a luz entrou-me nos olhos e descobri que nunca mais necessitaria de recorrer áqueles locais, contando que promovesse a minha imaginação.
Afinal de contas não viemos a este mundo somente para andar a pastar, e mesmo quando pastamos, até pode ser a vaca boa, que não passamos de burros sem saber saborear. Há que abrir os olhos, há que valorizar os sentidos e ter o devido respeito por eles! Ou tudo não passará de um talho de ganchos, espetos, e lâminas afiadas, onde se corta carne crua que outros comem com têmpero.
Publicada por Artur à(s) 11:28 a.m. 0 comentários
segunda-feira, janeiro 19, 2004
Homenzinhos de escritório do País das Maravilhas passam Férias em bosques encantados
Vem a correr pela Avenida uma senhora vestida num casaco verde. Está aparentemente apressada como quem leva as asas de Hermes nos pés. A sua ansia é tanta que se atira para cima dos sinais vermelhos, descurando a pele couraçada das viaturas que ameaçam com roncos e gases nocivos contra a sua integridade fisica.
Ao passar por mim, quase que me alborroa o ombro. Desvio-me um pouco perante a frenetismo daquele cavalo de Ferro imparável.
Agora, noto que á minha frente está um homem com um curioso chapéu de côco. Na verdade, ele não tem nenhum chapéu, mas pensei que lhe ficaria muito bem, sobretudo um que fosse de côco.
Nesta longa Avenida, de estradas espaçosas pintadas com um infernal vai e vem de carros nervosos, estende-se uma língua de pessoas da raça das ovelhas, que caminham por estes pastos de pedra calcária onde o verde se limita a um casaco ou a um chapéu de côco. Os seus pastores modernizaram-se e ficam agora separados das suas ovelhas através de uma secretária luxuosa da qual controlam os seus rebanhos. Servem-se de maquinetas que registam a regularidade dos seus movimentos, usam poderosas máquinas de telecomunicação á distância no caso de terem de os chamar á razão, e em casos extremos de descontrolo, mandam intervir os seus cães pastores, já profissionalizados e uniformizados em azul. Mas a modernização dos pastores não ficou por aqui! Deram um puco de autonomia ás suas ovelhas, visto serem tão modernos, permitindo que estas tenham o seu próprio curral. Claro que advêm daqui uma série de vantagens, como o não ter que tomar conta delas durante a noite, ou não ter sequer que as alimentar pessoalmente. E no caso da alimentação, é a própria ovelha que tem de comprar o pasto! Bem, na hora de almoço têm um subsídio para ervita, que não é assim tão fresca, mas engorda. Isto porque alguns pastores se especializaram em alimentação rápida para ovelhas, trocando comida que não é muito saudável ( mas engorda, e a ovelha também não tem que viver muito tempo, pois as ovelhas velhas aumentam os custos e diminuem a rentabilidade ), por uma percentagem da sua lã. No final de contas a ovelha dá a sua lã para ter pasto para ter lã. O pastor fica-lhe com a lã e dessa lã dá-lhe um pequena percentagem. Mais tarde vêm os pastores de todos os pastores, senhores da grande quinta, e ficam com parte da lã que as ovelhas recebem dos seus pastores. Bééééééééééééé...
A massificação e necessidade de produção fez com que nestas Avenidas se plantassem edificios gigantescos que regados com cimento e vigas de ferro cresceram em direcção ao céu, limitando a visão de novos pastos, condensando toneladas de lã que aumentam de peso ascendendo conforme a altura, resultando em torres de lã que se abrem no céu como as abas de um cogumelo, bem lá no topo dos prédios, e filtram a luz para os melhores pastos.
Os prédios destas Avenidas nunca poderíam ter um chapéu de côco em cima porque seria algo de anormal, e o facto é que se está a falar de uma situação notóriamente normal. Já agora poderíamos imaginar três chapéus de côco gigantes numa feira de diversões, onde um mágico de ocasião, em circulos desanhalinhados, deslizaria sobre uma mesinha aqueles chapéus escondendo um edificio, desafiando as ovelhas confusas a descobrir o prédio do seu pastor.
A parafernália de movimento confunde-se com as ruas da Avenida onde não passamos de chapéus de côco nas mãos de um charlatão de feira, sempre a correr concêntricamente. E não interessa se temos pressa, ou se somos os únicos a usar um casaco verde, o que é certo é que este não é feito de lã mas sim de um poliester barato.
Publicada por Artur à(s) 1:01 p.m. 0 comentários
sexta-feira, janeiro 16, 2004
Novamente no Confessionário...A VIA SACRA
Entrou no confessionário com as suas vestes negras enviuvadas, Judite Raimundes de Sousa.
Tinha acabado de cerrar a cortina castanha de veludo com a mão direita, enquanto que na mão esquerda com a sua pele de mármore segurava um crucífixo que trouxe de Fátima. Foi em dias mais morenita, mas desde que o esposo faleceu, recusa-se a andar por aí, sair de casa. Então o sol que apanha é sempre filtrado pelos cortinados da sua discrição. Não é mulher que goste de ouvir palavras sobre a sua conduta.
O Padre está na sua frente, sentado de pernas semi-abertas com a túnica caíndo em forma de quarto minguante, como uma lua, sobre a cadeira de madeira enegrecida de um castanho quente. Voltando-se, este ergue a sua cabeça para com uma voz calma e estrondosa, de arrepiar a coluna toda, soltar um "boas noites" silvado naquele sotaque já instituído dos padres do nosso país.
Ela mal ergueu os olhos. Sentou-se na sua cadeirinha almofadada com a cabeça em penitência para o chão, como quem havia chegado de carregar pelo menos metade dos pecados do mundo.
Ele soltou as palavras cerimoniais, num rangue rangue baixinho e morno. Perguntou-lhe o que a levava a vir confessar-se.
Ela, frágil, começou quase com um soluço para lhe dizer que tem cumprido a vida religiosa com o maior afinco, dedicando-se a todo o momento á sua fé. Que em casa tem sido zelosa, e que na rua, sempre que pode, é generosa com os mais pobrezinhos.
O Padre sorriu como em sinal de aprovação através de um erguer ligeiro dos seus lábios, mas mostrava agora esperar pelo pecado.
Judite, continuou então, a sua mão apertava ainda mais o crucifixo, enquanto que a mão direita segurava agora o seu peito, não lhe fosse rebentar.
Ali dentro, no confessionário ouvia-se a respiração bem próxima. O calor parecia ser ainda mais intenso. Era o fogo do inferno.
-"...Sr.Padre, sinto-me só, apesar de me encher da presença do Senhor, de me bastar pensar nele para ser feliz, a verdade é que me sinto só pelas noites e esquinas da minha casa... este pecado roi-me por dentro"-, tinha agora a mão no pescoço que apertava como a esquerda apertava o crucifixo.
Então a direita segurou o crucifixo. O calor que dele emanava parecia ser a redenção de todo o mal.
Intensificou-se o ardor, e a mão esquerda desceu para o colo tapado de negro. O padre pede-lhe para rezar o Pai Nosso.
Ela começa a rezar tão baixinho, tão baixinho, que parece um gemido sofrido e apaixonado.
A mão esquerda, sente o crucifixo a cravar-se-lhe entre os dedos, e a mão direita está agora no seu pescoço, com a mão esquerda descobre o alvor que parece de um anjo, a luz brilha alva no confessionário, a salvação está no arrependimento.
Das vestes negras enviuvadas, sobressai aquele branco carnal onde o paraíso parece feito de seda e uma roupa amarela, torneada de bordados imensos, parece estar a ferver de perfume, que como uma rosa pede para não ser arrancada pelo jardineiro que tão bem a soube fazer viçosa.
A mão direita agarra frenética a beira da mesinha. A mão direita segura o peito não lhe vá explodir...a mão esquerda toca em carnudas pétalas da rosa...o rosa quente da absolvição...da mão esquerda cai o crucifixo.
...Jesus cai pela quarta vez...desta vez, Simão, o Cirineu, não surgiu para o ajudar a levantar-se. Mas, também já não necessita de consolar as "filhas de Jerusalém". O padre tomou esse fardo por ele.
"Quia per sanctam Crucem tuam redemísti mundum"
Publicada por Artur à(s) 6:28 p.m. 0 comentários
quinta-feira, janeiro 15, 2004
HÁ COISAS DO DIABO
Felizmente criámos, nós seres humanos, alguém em quem pôr as culpas assim que algo que corre mal.
Todos lhe cospem em cima, e todos precisam dele de vez em quando.
Assim que perdemos as forças para dirimir por algo que não conseguimos atingir, mandamos "tudo para o Diabo". Preferimos as situações fáceis.
Se alguém não tem um papel social do nosso agrado, porque nós seríamos assim e não assado, exemplos de perfeição, lá soltamos "o diabo do homem". Porque ele é ruim!
Então, quando se tem medo do Diabo, será realmente a ele que tememos em "pessoa", ou será que tememos receber a conta da despesa de tudo o que lhe despejámos em cima dos ombros?
Tenho a impressão que a nossa espécie foi criada por Deus com o objectivo de castigar o seu anjo desobediente. Nós somos, porventura, a grande cruz do Diabo.
E por isso pergunto-me, o que fez ele para sofrer tamanho castigo?
Publicada por Artur à(s) 1:01 p.m. 0 comentários
Não resisiti...poesia...
Fairy
"Pour Hélène se conjurèrent les sèves ornementales dans les ombres vierges et les clartés impossibles dans le silence astral. L'ardeur de l'été fut confiée à des oiseaux muets et l'indolence requise à une marque de deuils sans prix par des anses d'amours morts et de parfums affaissés.
- Après le moment de l'air des bûcheronnes à la rumeur du torrent sous la ruine des bois, de la sonnerie des bestiaux à l'écho des vals, et des cris des steppes. -
Pour l'enfance d'Hélène frissonnèrent les fourrés et les ombres, -et le sein des pauvres, et les légendes du ciel.
Et ses yeux et sa danse supérieurs encore aux éclats précieux, aux influences froides, au plaisir du décor et de l'heure uniques."
Arthur Rimbaud
Publicada por Artur à(s) 12:39 p.m. 0 comentários
Barish
Saí de casa apressado. Trazía ainda o Sono comigo. Partilhei com ele o pãozinho que comi ao pequeno almoço.
Demos os primeiros passos juntos e reparámos que estava um céu acinzentado.
Estava a chover. O Sono recusou-se a andar mais e voltou para a nossa cama que ainda deveria estar quentinha. Eu tinha de continuar!
Sinto então os pingos de chuva na cabeça. Aquela água fresquinha, na minha pele quente, soube tão bem.
Parece que todas aquelas gotas foram enviadas do céu para me lembrar de que estou vivo. Haviam de ver a festa que fazíam. O barulho seco da sua queda desdobrava-se em "bons dias", ouviam-se os risos minusculos da sua cristalinidade, e outras deixavam-se escorregar de entre os meus cabelos para me acariciar as linhas dos rosto, acabando por se evaporarem no calor do meu peito.
Vivo, estou Vivo! O céu parecia cair sob a forma de gotas.
Olhando bem para cima, um véu prateado precipitava-se como numa sinfonia alinhada desde o infinito até ao desenho das calçadas, ás fachadas dos prédios, aos caixotes e ás paragens de autocarro. A pureza da sua forma deixa um novo brilho por todos os cantos. É como se os elementos mortos ganhassem também eles vida. Somente quando chove!
Brincalhonas, as gotas de chuva, fazem dos passeios passagens escorregadias pelas quais se vêm pessoas, que em passos curtinhos e desajeitados, fazem os possíveis para não se estatelarem no chão molhado pelas gotas que se rasgam de gargalhadas, troçando das estranhas danças dos trauseuntes aflitos.
Eu divirto-me com tudo isto! Continuei a minha passagem com um sorriso de alegria pela festa que se dispunha em sons e brilhos de reflexos. Tinha a testa levemente inclinada, pois as endiabradas gotas tentavam entrar-me nos olhos para as suas brincadeiras. Agarrava o cigarro de forma a que este não se molhasse, e lá ía eu espalhando uma nuvem de fumo com que as inúmeras goticulas se divertíam a furar, fazendo desenhos.
Foi assim porque choveu, é sempre assim quando chove. Tal como no dia em que estava num circulo de Indianos, debaixo de uma árvore, rodeando uma lata com madeira a arder, e, aprendi a dizer "Barish" com senhor Singh. Quer dizer sonoramente: Chuva. Barish...Barishhhhhhhh
Publicada por Artur à(s) 10:56 a.m. 0 comentários
quarta-feira, janeiro 14, 2004
Todos os dias olho para mim sentado nesta cadeira e pergunto-me: "O que estou eu a fazer AQUI?"
Quero tocar em granito! Quero sentir a sua pele áspera na ponta dos meus dedos que tacteiam á procura da superficie agora lisa de uma gravura rupestre!
Quero estar perdido no meio de uma mata de pinheiros, ouvindo os estalidos da caruma sob os meus pés, pontapeando aqui e ali uma pinha caída sobre aquela turfa repleta de vida minuscula.
Quero trepar a paredes íngremes, quero enfiar-me num buraco apertado á procura de um caco. Quem sabe não dou por mim num pequeno abrigo pré-histórico.
Quero descer uma vertente de uma serra acentuadamente inclinada, descer para sentir os musculos tensos e doridos só de descer, e no final encontrar um rio de água gelada em que entro sentindo a pele a queimar, a subir.
Depois quero trepar por uma serra, saltitando por afloramentos graniticos cobertos de pátine e de densa vegetação, onde os meus braços me valem mais do que as pernas, soerguendo-me através de ramos e giestas, e no cume dessa elevação fumo um cigarro enquanto os meus olhos extasiados se perdem na linha da perfeição que o horizonte animado de verde me oferece.
Quero sentir o cheiro de lenha a queimar, que sugado pelo pescoço de cavalo das chaminés das lareiras de pedra enegrecida, faz da seiva o incenso que se espalha pelas pequenas localidades, tornando ainda mais lúgubres as suas tonalidades.
Quero encontrar os velhos de rugas simpáticas e roupas grossas a atravessar uma estrada vagarosamente, como quem lembra que a vida deve ter a sua calma e que tantos anos depois eles sabem reconhecer que a pressa nunca lhes trouxe nada.
Quero chegar ao final da aurora já de corpo rebentado! Dorido e feliz, penso no medronho que vou beber na tasca do Ti António ao ritmo do descascar de bolotas. O alcool liberta o seu calor, assim como a fatiga, e um imenso regozijo enche-me os lábios ao pensar: "que bem que eu vou dormir"
Quero sentir o aroma doce e mineral da terra nas minhas mãos! Quero sentir-lhe a humidade, procurar-lhe o calor, e encontrar nela o que de mais bonito os meus olhos sabem ver!
Publicada por Artur à(s) 10:30 a.m. 0 comentários
As Aventuras do Homem de Fato Cinzento
Episódio I
O Homem de fato cinzento tem um pequeno bigode que lhe acenta sobre os lábios, afastando-se ligeiramente dos extremos dos mesmos, num alinhamento rigoramente simétrico de linhas rectas convexas a partir do seu pequeno nariz abrindo para a sua pequena boca. É um bigode com personalidade, mais até do que a postura dos seus lábios demonstra.
Ontem, o Homem deixou a familia para se deslocar a um Domingo de futebol. Um Homem de fato cinzento e de familia só poderia ser benfiquista, e portanto, este Homem é benfiquista. O clube com mais adeptos no país.
Apesar de ter nacido no Norte de Portugal, veio cedo para Lisboa, a proximidade com o Porto nunca o atraíu. Inclusive, não olha para as suas raízes com bons olhos. As memórias que tem são dolorosas, de tempos de privação, podendo agora ir a um bom restarante onde come um bom naco de carne, tendo dinheiro suficiente para repetir as doses que quiser, e jamais deseja voltar a passar pelos velhos tempos. Nega então a origem, onde não era ninguém e não usava fato.
Foi ao futebol e divertiu-se muito. Levantou-se até da cadeira para gritar golo, chegando mesmo a insultar o árbitro: "incompetente". Epá, nós homens percebemos bem a adrenalina destas coisas.
Mais tarde os amigos insistiram com ele e acabou por ceder a umas cervejinhas no café do bairro. Eles souberam ser muito convincentes, e o Homem pôs-se a pensar que dias não são sempre iguais, por isso cedeu. Assim sempre se pôde rir e opinar sobre os comentários que os amigos tinham para a partida que acabou empatada. É pena é não ir correr como todos os dias faz exactamente por aquela hora.
Já se fazia tarde quando bebeu a segunda cerveja. Limpou o bigode da espuma da cerveja, despediu-se dos seus amigos que agora falavam cada vez mais alto e espiavam o rabo da empregada do café, distribuindo ameaças do que faríam com aquele traseiro caso o apanhassem humilde e submisso na sua frente. "Epá, nós homens percebemos bem a adrenalina destas coisas".
O Homem cinzento chegou a casa, deu um beijo na sua "querida", pediu-lhe, "amor, fazes-me um chá, doi-me um pouca a cabeça". Ligou o portátil e lá foi adiantar umas coisitas para o dia seguinte.
Já com seu precioso pijaminha vestido, programou a televisão para se desligar dali a meia hora.
Os seus pensamentos estavam embrenhados no meio dos diálogos do filme. Foi um dia divertido para ele, os seus amigos são uns tipos porreiraços, um pouco inconsequentes, mas foi realmente divertido. "Também, se não se abusa um pouco não se leva nada desta vida!"- pensou ele.
O homem de fato cinzento dorme agora cansado. Tem o bigode bem alinhado.
Publicada por Artur à(s) 10:28 a.m. 0 comentários
sexta-feira, janeiro 09, 2004
TAKE THE RED PILL
Noites de insónia...
Os segundos arrastam-se morosamente, pesadamente, sobem os cobertores e voltam a arrastar-se assim que o ponteiro do relógio retorna ao ponto inicial. O quarto faz-se enorme, capaz de caber nele um deserto, com as paredes a gemer em cadênciados tic taques. Não tenho relógios de corda, o que me deixa preocupado...
Segundos de insónia...
A solidão avança galopante de armas em punho. Brilham-lhe os olhos enquanto grita: " vais sentir a minha lâmina meu grande sacana ".
O deserto acaba por estar mais perdido do que um Oásis...
A janela abre-se, num gesto já repetido, e a ponta de um cigarro encadescente desfaz-se em fumo ali, do outro lado do mundo. A noite fria aconchega-me a pele nua e o tronco arrepia-se com o toque da lua, essa mulher fatalmente silênciosa.
Um sopro de "já chega!" sai-me dos pulmões.
Oásis na insónia...
Finalmente parece chegar o cansaço!
Os olhos estão mais pesados que os segundos, e o corpo parece sofrer de um vermelho febril que se espalha por toda a superficie em picadas irrequietas. Sente-se a nuca quente mas a testa está fria como se as células da minha pele nesse preciso local houvessem recebido uma notificação de óbito.
O corpo desmenbra-se! Mas os musculos continuam tensos, bem acordados. E nada resulta! A derrota assume-se pelo descerrar da janela, gesto já repetido.
O tic tac do meu cerebro continua a contar os segundos.
Os pulmões tão cheios de "já chega!" levam o meu torax ás dimensões de um verdadeiro Ulisses, capaz de explodir como uma enorme bomba que vetaria o mundo inteiro a um sono de 100 anos.
Insónia...
O sibilo do seu silêncio deixa-me assim, incapaz de dormir, irrequieto, arqueante de energia desperdiçada que me faz contorcer e cerrar os punhos para deles não deixar sair a vontade, o desejo de me evadir pela mesma janela por onde o fumo do cigarro se eleva no ar, ávido em se aproximar dela, e faz do meu quarto um invólucro de noz onde o meu grito se engelha como o miolo.
Pergunto-lhe: O que devo eu fazer?
Publicada por Artur à(s) 4:35 p.m. 0 comentários
quinta-feira, janeiro 08, 2004
FRANGO COM AMENDOIM
Ingredientes:
- 1 frango
- 2 dentes de alho
- sal q.b.
- piri pir
- 1 dl de óleo
- 1 cebola grande
- 500 g de amendoim sem sal
- + ou - 1 litro de água quente
Ora bem,
passa-se o amendoím em almofariz até se transformar numa pasta. Junta-se a água a ferver, mexe-se e passa-se pelo passador de rede fina.
Iniciar o refogado.
Corta-se o frango em pedaços e leva-se a alourar.
Adiciona-se a água de amendoim, mais o sal, malagueta, e pimenta.
Tapa-se o tacho cozinhando durante meia hora.
Serve-se com arroz branco.
Deliciei-me pela primeira vez com este prato num restaurante Africano que exisitia em Coimbra ( a saudosa "Boca do Lobo" ). Custava 600 escudos. Sim, 3 euros, mas na altura o Euro não existia.
Disseram-me que é um prato da Guiné-Bissau ( caldo mancarra ).
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quarta-feira, janeiro 07, 2004
Feliz Ano Novo
Hoje, ao passar por uma banca de jornais e revistas da nossa praça, dirigi a minha atenção para o Jornal " o Público". No cabeçalho estava escrito qualquer coisa como "Valor real dos ordenados dos Portugueses diminui em 2003/2004". Penso que não estou a citar correctamente, mas tinha este sentido.
O valor real...sim, eu aprendi o que quer dizer dizer valor real através da diferença entre este e o valor nominal. O segundo é a camuflagem do primeiro. Um artificio inventado pelos primeiros economicistas para sossegar as classes "menos" assalariadas. Pelo menos, só entre estes resultava verdadeiramente, visto que os outros, entendíam o sentido de valor real na sua genese filosófica, ficando as referidas classes entregues á sabedoria impirica das suas bolsas.
Na verdade, eu já sinto o vortice destas filosofias do real e nominal há mais de dois anos. Julgo que me posso situar sem grandes exageros no ano 2000. Mas está de facto agravar-se a diferença entre os dois valores, e num sentido que não me agrada nada. Nas minhas cadeiras de história também me recordo dos efeitos a longo prazo destas tendências! Como é que vamos sair daqui, o que fazem os outros para melhorar tudo isto. Em boa verdade, se aplicar dinheiro da minha pessoa através de um investidor, vou esperar que ele ganhe dinheiro daí, isso é inerente, mas que me faça ganhar algum a mim também. Se ele me diminui os rendimentos em vez de os aumentar então eu não vou ficar muito satisfeito com o assunto, e mudo de investidor. Esta seria apenas a solução para mim, não para o País. E se o investidor me roubou então vai ter que pagar com justiça. Bem, o estado deveria ser privatizado parece-me.
Este cabeçalho fez-me lembrar uma forma de arte, pois os nossos ordenados em Portugal há muito que ganharam um sentido para além das filosofias economicistas. Podendo acrescentar na minha visão um outro valor, ao valor nominal e real, denominando-o como surreal. É o meu empirismo que me diz estas coisas absurdas e sem nexo.
Publicada por Artur à(s) 5:58 p.m. 0 comentários
Erro Crasso
Wittegenstein dizia que o mundo nunca poderia ser feito de coisas, apenas e exclusivamente de factos.
Mas facto é que muitos fazem das coisas factos.
E é também um facto que não se pode definir "coisa", este é um termo tão abrangente que não abrange realmente nada.
Quando nos encontramos a falar de certas coisas a verdade é que não falamos certamente de nada. Nunca se atingirá a totalidade do mundo. Dificilmente se alcança o objecto prentendido.
Houve em tempos um individuo que estando numa batalha na Siria cometeu um erro que lhe custou a vida. O problema não está no erro mas na sua negação. Deveria ter usado o erro como ponto de partida, assumindo-o, dominando-o, usando-se dele como a um utensilio. Acabou por ter de contar com o erro em determinado momento da batalha, e verificou-se ser o seu fim. Foi tarde demais!
São coisas da vida que acabam com a morte. Saíndo do sentido figurativo, refiro-me portanto á constatação do facto.
É com esse sentido que ando a tentar desenvolver uma disciplina Espartana. Devo estar sempre atento aos erros, assumir que são meus, e fazer deles pontos de partida mal os tenha reconhecido.
Tudo isto porque quero uma vida mais factual e menos coisal.
Publicada por Artur à(s) 5:05 p.m. 0 comentários
terça-feira, janeiro 06, 2004
ET LUNA
Declaro publicamente a minha paixão por ela.
Não tenho o menor dos receios em fazê-lo.
Se todas as noites penso que sou capaz
Ao dedicar-lhe a minha vida,
Porque não sería eu capaz de declarar
O mais simples dos sentimentos,
Um dos que me torna mais humano.
Estou apaixonado por ela
De um modo que me transcende
Na forma de lidar com esta realidade.
Desejo ama-la para o resto da minha vida,
Seja ela breve, longa, ou mesmo eterna.
Para mim, não há sossego na morte.
Amo-a! Procuro-lhe os lábios.
São eles a porta dos meus sonhos.
E se um dia os encontrar finalmente,
A felicidade será derradeira,
A minha boca não temo que esqueça
A necessidade de respirar.
Ah, minha Circe argentifera...
quantas vezes calei a minha voz!
Sei que nunca te terei só para mim,
Mas que interessa isso desde que sejas só minha?
Amo-te sem inveja, sem egoísmo,
Sem a menor perversão, sem a menor moral.
E este amor, esta paixão,
Se a sinto assim por todo o meu ser,
Alma e corpo, corpo e alma,
Que imoralidade pode ter?
Duvidas? Queimei-as todas na tua luz.
(continua)
Publicada por Artur à(s) 1:02 p.m. 0 comentários
Citando II
"Toda a musica que nao pinta nada é apenas um ruido"
Jean Alembert
Ontem, fui ao C.C.B., o mamarracho arquitectónico que veio destruir a imponência do mosteiro dos Jerónimos. E note-se que a arquitectura do centro cultural não me desagrada de todo, mas a proximidade com o monumento histórico classificado, que é considerado um dos exlibris da arquitectura portuguesa, não me parece de facto a mais própria para nenhuma das edificações. É sobretudo uma questão de contextualização, ou melhor, de descontextualização.
Prosseguindo, desloquei-me a este centro para assistir a um momento delicioso.
Numa sala recheada de amigos, estava outro amigo sentado sobre um pequeno palco de madeira, segurando entre os braços as curvas bem delineadas da sua guitarra, acariciando as cordas sonoras de beleza.
Este Luis Martins, de seu nome, já me tem proporcionado, insconsciente disso, alguns dos momentos mais bonitos da minha vida. Todos eles associados á musica. Posso até descrever um deles, o que me fará reportar para o Verão passado em que entrando na Gabizé ( o restaurante do seu pai ) encontro o Luis de guitarra nas mãos. Sento-me numa das cadeirinhas.
A casa por volta das 16 horas está vazia. Apesar do calor intenso que se fez sentir naquele Verão, uma brisa extremamente agradável entrava pela porta entreaberta. Talvez tenha vindo também para ouvir, e acreditaria bem nisso.
A figura elegante de cabelo habitualmente desgrenhado tocava então na minha alma que, pela brisa, pelo calor, pela luz lugubre da sala, e pelas vibrações que o meu cerebro interpretava como algo mais, eis que atingia uma enorme paz. O meu espirito sempre irrequieto raramente tem esta paz.
Ainda bem que este rapaz decidiu entregar-se á musica, e é um verdadeiro prazer ter um amigo que tem uma Virtus destas. Uma delicia é o que vos digo!
Desloquei-me pois ao C.C.B, querendo ver este meu amigo, mas acima de tudo, fui para o ouvir tocar. Sabia que na noite anterior se tinha debatido com um ataque de uns microbios que íam fazendo estragos. Estaria portanto debilitado. O azar teimou em bater-lhe á porta e partiu uma unha pouco antes do concerto. Ou seja, técnicamente, e são palavras do próprio Luis Martins, técnicamente nem tudo estaria tão bem.
Pois bem, pese embora todas as adversidades, tudo acabou por correr bem. O que já era certo, em verdade nunca o vi fazer nada realmente mal. E se uma falha ou outra lhe sucede, elas são todas sobejamente compensadas pela forma como interpreta, pelo seu jeito de ser uma pessoa especial. Observação que não provém de quem o conhece mas de quem o ouve e vê tocar.
Se quisesse ouvir algo sem falhas comprava um Cd, onde tudo foi trabalhado ao pormenor, sistemáticamene...maquinalmente.
Poderia encerrar este texto com a frase que acabou de me surgir em mente. Ontem, tive o prazer de ver um pintor genial a pintar um quadro bem á minha frente.
Apesar de parecer bonita e de ter uma base mais erudita, prefiro esta segunda: Sempre que o oiço, asseguro-vos, tenho um pouco do prazer que ele tem ao tocar!
É isso que ele me transmite! Adoro musica, adoro a sua forma, e ao ver tamanha alegria, tão grande alma a sentir, bebo da sua sede, partilho da sua dor, da satisfação deste musico.
Tenho a impressão que saí do C.C.B. todo sarapintado de pingos de multiplas cores.
Apetece-me acabar com um pouco de humor. Dedico-o ao Luis, pois meu caro, não sabes a sorte que tens de ter um amigo como eu..eh eh eh.
Publicada por Artur à(s) 11:44 a.m. 0 comentários
segunda-feira, janeiro 05, 2004
O Homem de fato cinzento
...são seis e meia da manhã. O homem saíu do quarto vestido no seu pijama.
Já se dirigiu para a sala e ligou o televisor. Procura as primeiras noticias.
Faz-se sentir o cheiro das habituais torradas e do odor intenso do after-shave.
São sete horas e 13 minutos. O homem está a lavar os dentes em frente ao espelho, ainda embaciado, da casa de banho.
O azul com riscas brancas da sua camisa serve de fundo a uma gravata azul escura, gravada com pequenas imagens dispersas de cornucópias.
O puto nunca mais acaba de comer os cereais..
Já no carro, põe o sinto de segurança, e lembra-se, que tem de telefonar á Saidosol Lda, que tem de falar com o Sr. Ramalho a fim de saber o Cost Carry do empréstimo utlizado para atingir a pretendida Margin Call, e que o miudo sai ás 18 da escola. A mãe não vai poder esperá-lo mais logo.
O transito está terrível, e andar em Lisboa de carro a esta hora é mesmo de doidos. Aparece cada abécula pensa ele para si. Como é uma pessoa de personalidade vai resmungando pontualmente, mas não é do seu feitio perder a calma. Coça o couro cabeludo, irritado pelo gel que lhe empertiga o cabelo.
Não está enervado, nem mesmo stressado, mas a colarinho já lhe aperta o pescoço, apesar de continuar a pensar que o fato e gravata é a roupa mais confortável que conhece, depois do seu pijama. Já usa fato e gravata há mais de 20 anos. Sente-se nu quando não o usa.
Está sentado na secretária de madeira. Ouvem-se os zumbidos das fotocopiadoras, dos Faxes, dos monitores, ouvem-se o martelar dos teclados, e os estalidos dos ratos.
...são 8.30, chegou um pouco mais tarde do que o habitual. Tem 38 mails para ler.
...9 horas o pessoal começa a entrar ao serviço. Tem o casaco pendurado nas costas da cadeira e já telefonou a 5 clientes, ao mesmo tempo que vai abrindo os mails.
...11 horas...um café e um cigarro. Ventil, que é para perder menos tempo a fumar.
Ontem houve derby. A conversa com os clientes torna-se mais fácil. Parece que todos os homens de negócios são fãs incondicionais de "desporto rei".
Felicitações, o homem conseguiu fechar um negócio com uma excelente margem. Como pareceu crescer em minutos. É um homem de facto!
...12.30, vai-se dissipando o cheiro do after-shave.
...1315...de pé, a almoçar encostado ao balcão, vai lutando com os cotovelos, impondo o seu território em disputa com o vizinho do lado. Havíam de o ver. O restaurante chama-se "DuChaise", e já o frequenta desde que entrou para o escritório, há 17 anos.
...20 horas. A mulher ficou a fazer o jantar. Ele está a fazer o seu jogging.
Passou por duas loiras muito atraentes, o Sr. Ramalho ainda não lhe soube dizer o valor do Cost Carry. Nota-se que está irritado.
...Está sentado em frente á televisão a ver o telejornal. E o anúncio do DVD lembrou-o que agora toda a gente fala sobre o DVD. Ele não assiste a muitos filmes mas está inclinado para comprar um também. Se amanhã conseguisse concluir o negócio com a Demba de Mozambique..isso é que era não é meu bom homem?
...24...chegou a altura de dormir. Falou um pouco com a mulher. Riu-se com ela pois quando foi buscar o miudo, viu-o muito juntinho a uma loirinha, que devia ser colega de turma. Beijou a mulher, e adormeceu com o nome do Sr.Ramalho gravado na almofada.
......são seis e meia da manhã. O homem saíu do quarto vestido no seu pijama.
Já se dirigiu para a sala e ligou o televisor. Procura as primeiras noticias.
Faz-se sentir o cheiro das habituais torradas e do odor intenso do after-shave...
São sete horas e 13 minutos. O homem está a lavar os dentes em frente ao espelho, ainda embaciado, da casa de banho.
O amarelo com riscas brancas da sua camisa serve de fundo a uma gravata castanha escura, gravada com pequenas imagens dispersas de cornucópias.
O puto nunca mais acaba de comer os cereais..
Publicada por Artur à(s) 12:44 p.m. 0 comentários
sexta-feira, janeiro 02, 2004
Vie Étrange
Certo dia, um amigo meu, decidiu escrever um livro. Só por curiosidade, o seu autor favorito é o Henri Miller.
Pois bem, imagino-o a escrever como um louco, acrescentando linhas, rasurando linhas, em momentos de inesperada inspiração. Imagino os seus olhos castanhos arredondados, arregalados, vivos, cheios de letras e pensamentos, esquecendo as horas convencionais da sua alimentação, saciando gulosamente a sua fome de criação.
Penso que seria o primeiro livro que escreveu na vida, e pelo que li, fiquei com a impressão de que o primeiro livro que se escreve é sempre um trabalho autobiográfico.
Este meu amigo estava mesmo embrenhado no livro,e por uns tempos tempos deixei de o ver. Estranhei o facto, pois a sua presença no meu meio de convivio era frequente. Só tinha uma desculpa: Fez da sua caneta escrava, amante e confidente.
O seu livro chegou enfim ao fim.
Chegou também ás minhas mãos, e não vou comentar o livro mas o que sucedeu em seguida. Pois este meu amigo cometeu-se de tal forma ao seu livro que despejou a sua vida naquelas páginas, de tal forma, que quando surgiu o fim decidiu escrever um livro novo.
Mas para tal precisava de viver uma outra vida.
Terminou assim a sua vida anterior.
Hoje já não tenho esse amigo como amigo. Também já não temos amigos comuns. Já não lhe olho nos olhos castanhos, nem lhe oiço aquele falar meio sopinha de massas.
Espero que o livro, a que não soube o titulo,tenha ao menos algum valor para ele.
Um abraço para ti
Publicada por Artur à(s) 12:18 p.m. 0 comentários
Coimbra
Chegou a nostalgia. Já não é a primeira vez, confesso.
De quando em quando a memória prega-me destas partidas.
Tenho saudades daqueles tempos.
As preocupações eram poucas naquela altura. TInha de frequentar as aulas, tarefa árdua, e de ir arranjando bibliografia. Ler a maioria dos artigos não era um esforço, tirava-se prazer.
As cantinas das amarelas sempre cheias de gente com os seus azulejos de cantina. "Hoje é hamburguer!"-"epá, vamos ao snack das Ás". E lá vinham as piadas sobre a comida, comentando a coincidência da ementa com o facto de não ver os habituais vira-latas pelas ruas da Universidade.
Fim de tarde no Pinto. Juntava-se a conversa á conversa. Por vezes começavamos com uns copos de traçadinho(que hoje já não conseguimos beber) e a noite ganhava mais horas. Cantava-se. Jogava-se dominó(raramente). Falava-se acerca de tudo.
Ruas estreitinhas, calçadas de pedra negra, onde o nevoeiro tinha de se apertar para passar. O perigo de dar um belo tralho estava sempre presente na série de ruas ingremes. Tenho-as no meu mapa mental e vão todas dar á Sé Velha.
Capas negras parecem-me completamente vulgares. Ninguém estranha uma capa em Coimbra. É uma terra de super herois, mas de capa, á moda antiga.
Estou a ver as caras conhecidas do Académico e do Tropical. Ainda venho com o corpo quente da sessão de matrecos que desmoeu o jantar.
Alguém começou a falar acerca do castrejo no norte de Portugal. "quais foram os artigos que leste?"
Está na hora do ensaio. Esta tertúlia, esta in vino, com estes cromos menos popularuchos que as outras tunas...
As escadas da associação...ouve-se um eco de musica perdida entre os corredores e a algazarra do café.
Combinei com a malta no piano. Que saudades do Dixie. Porque fecham bares como o Califa ou uma disco como o States (hoje mais um estabelecimento da Passerelle..enfim)?
Depois de sair do Couraça, já passa das duas, lá vamos para o Dixie, entre o nevoeiro, extasiado com a visão do Mondego. Vou a ouvir o João Nuno a falar, o tipo não se cala mas é bom assim, gosto de o ouvir, este fervoroso comunista de Alcoentre. Meu caro amigo.
"O Mondego é lindo" diz o seca-adegas a mijar a sua bebedeira contra um muro da couraça. E de facto é mesmo, sóbrio ou embriagado. O Mondego claro.
Saudades das mulheres que beijei. Saudades dos olhares que me prenderam e me arrastaram pela cidade. Saudades das duas maiores mulheres da minha vida. Como é bom amar em Coimbra!
Saudades da estudantalha bêbada e ruidosa.
Os meus sapatos faziam sempre aquele "squick squick" pelos corredores da faculdade de letras.
"Dona Milu, onde estão as actas do II Congresso Peninsular...?"
Tive colegas fabulosos. Pessoas lindissimas e interessantes.
Parávamos a meio do Quebra Costas para ler o jornal "Insólito".
Fumou-se uns charritos entre as escadarias escuras das quimicas. Cantou-se fado na escadas da Sé Nova. Correu-se para as aulas nas escadas guardadas pelas bolas do D.Dinis, as "Monumentais", onde ecoavam esvoaçando palavras de ordem contra os diversos ministros da educação. "depois do Coito vem o Leite"
Festas de Erasmus
Encontros de Fotografia
Queima das fitas
Latada
Cinemita no Avenida
Um livro numa esplanada
Um concerto na cave das quimicas
Um fado para a Lua
Os velhos numa tasca
3 minutos para o exame
Caras bonitas enchem-me o olhar
Café no Santa Cruz
Jantarada lá em casa
Jantar de curso
Já estou atrasado para entregar este trabalho
Monsieur George e a Maria
Dona Adelina e o Sr. Pinto
O meu velho Caco
Um encontro na Prakistão
Castanhas assadas no Cartola
Teatro no Gil, quando por fim abriu
Trajado num jogo da Briosa
Uma ressaca naquele quarto velho da Guilherme Moreira
Feijoada num camping gáz na Sá da Bandeira
O raio do Antunes fez-me a vida negra
O Brázio com a sua voz maravilhosa bêbado como um cacho, vomitava o chão das amarelas. Pobre caloiro...
Tenho saudades tuas meu amigo, que bom era ver-te cheio de vida sempre a tentar resolver os teus problemas com as mulheres. "Artur, eu não tenho culpa, desde que tive o acidente e fiz fisioterapia as minhas mãos não conseguem ficar quietas", agora as tuas mãos ganharam sossego forçado. Puta de vida
Saudades dos pasteis de carne quentes, ás 5 da manhã na rua da moeda.
Saudades de tanta gente, de tantos amigos!
Ri-me tanto!
Também chorei!
Por ti gritei, tornado louco nas ruas quase vazias de Coimbra.
Coimbra, Coimbra, Coimbra.
Nunca haveria espaço em lado algum para falar sobre tudo o que vivi em Coimbra! E tenho muitas saudades disso!
Publicada por Artur à(s) 10:54 a.m. 0 comentários