quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Charles Brownson

Em Esmolfe um pedreiro trocava emblemas do Sporting e do Benfica esculpidos em granito pela promessa de favores sexuais de uma jovem. Esta jovem que fizera promessas da mesma índole a um pastor que tinha um certo atraso intelectual, o qual lhe ía adiantando dúzias de ovos na esperança de um isntante de carinho mais intimo.
A jovem lá ía manobrando estas duas almas carentes que pelo vislumbre da carne quente e a pele macia deste diabo tudo dariam. E sabe-se lá quem mais contribuia para este saco sem fundo, para este perpetuar da economia de troca directa.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Não há volta. É para Diante

A volta é sempre para trás
Soltai-me quero ir adiante
Também nasci com dois pés
Mas o passo é sempre errante

Cresço a arrribar caminho
A estrada é o meu alimento
Do azar eu cuido sozinho
Uma casa é um tormento


Sinto longe a sorte
Nada muda se não me mexer
Sei dos sonhos
que o mundo
tem
recantos
Ando morto para os ver


Não me prendam com histórias
Que eu não fico por cá
Estou farto de ouvir dizer
Só com cunhas se vai lá

Arrepia-me o Grande Umbigo
Enerva-me a "Velha Senhora"
Vou levar o País comigo
Que agora a "Velha" é "Doutora"


Sinto longe a sorte
Nada muda se não me mexer
Sei dos sonhos
que o mundo
tem
recantos
Ando morto para os ver

domingo, fevereiro 13, 2005

Chen

Certa vez conheci um homem de 60 anos. Aparentava ser um homem como qualquer outro de 60 anos com aquela estatura baixinha de Português, este da Beira Interior. Mas há sempre algo de peculiar ao indivíduo. Chamava-lhe Chen porque parecia ter saído do circo, aquele palco a que era levado em criança pela quadra natalícia, subornado pelos chocolates-prenda dos T.L.P.
Chen, apesar da sua idade, havia se "amantizado" com uma mulher de 26 anos, gorda e alcoólica, como manda a mais invulgar tradição. Dizia que ainda era homem capaz e lhe "dava" pelo menos três por dia: uma de manhã, uma depois do almoço, e outra à noite, por vezes quando ela lavava a roupa na banheira, cenário que evitei imaginar apesar da descrição pormenorizada. Era de fecto obsceno ouvi-lo falar, apesar das gargalhadas que causava entre o pessoal. Mas o ridiculo estava para chegar na carruagem do insólito. Fiquei a saber que este Chen, antes de se juntar à tal moça, tinha se desfeito de um antigo casamento duradouro através de um negócio. Pode parecer difícl de aceitar, mas ele troucou a antiga mulher por um vitelo. Ao que parece o negócio tinha o valor de 70 contos. Actualmente, perto de 350 euros.
Enfim

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

espirais

espirais de fumo
fumo deste cigarro
artérias
ossos quebradiços
matéria mortal
a carne
os meus braços
estendem-se pelas espirais
seguram sem unhas estrelas
respiram substância impura
estendem-se como raízes
alongando-se
prendem-se à vida para além da vida
esta vida
fumo deste cigarro
imagino sempre algo mais
angustiante é-o sempre o fim
compreendem

segura-me as mãos
peço-te que o faças sem piedade
como todos os que não entendem
todas aquelas personagens
todas cinzentas
cinzas
porque tu ao menos tens lágrimas
sempre as tiveste
assim como eles
dos quais não quero ter mais pena
tu, Tu ao menos lavas-te em beleza
em lágrimas sobre as espirais

terça-feira, janeiro 25, 2005

Momento critico

Parece uma revolta de esferas de vidro
a água a rugir na fervura da panela
parece que me puxa que me quer queimar
e nem mesmo escondendo os ossos em silêncio seco
porque nada me resta para além de ossos
por mais que esconda as unhas entre um fechar de gavetas
encerradas com a violência de um pontapé
não creio que uma pestana caia no chão e abra a terra
erguendo-se dessa falha abismal as culpas de outras falhas,
-Aladas. Não!
Há falhas que são pesadas
Lançam-nos os ombros não os rostos de encontro à merda
e ali ficamos pensativos de membros distendidos
Quais as vantagens de viver num frasco de formol?
Bem...os ossos não se partem e não perdem a brancura
Não chegam sequer a ganhar a pátine do abandono
Acima de tudo não se queimam se nada tocam

sexta-feira, dezembro 24, 2004

TErra da arrogÂncia

deixa passar estas palavras que se vestem de farrapos com buracos nos sapatos
e sorrisos escondidos arrastando pelo chão elas são pobres impossiveis e de sangue vão pintando os lábios mortos em tons de revolução

estas palavras inquietas tem bichos carpinteiros que constroem mealheiros onde guardam a miséria as sobras da humildade porque em terra de arrogantes tudo se faz como era dantes e não Há nada que tenha mais força do que o Não

terça-feira, dezembro 21, 2004

0

"no meu tempo não era assim, no meu tempo não era assim"
Ahhh, que se fodam eles e mais o tempo. Tanta saudade de um tempo que nunca lhes pertenceu

NO FUNDO

Um cogumelo de espuma branca e o ruido do corpo a perfurar o mar
De movimentos congelados pela visão prolongada de um paraíso onde todos os gestos são delicados, sem pricipitações apressadas, sem palavras que possam ferir o casco de navio, ao que os cabelos respondem com uma dança meiga, suave.
Mergulho no azul interior onde a calma se respira por oxigénio, onde lentamente deslizo sem atrito até suster os pés na areia cintilante de um outro tecto. Deixo para trás a condião de ser animal, de ser homem, mutante, sou apenas pensamento. As palavras de antes são bolhas de ar que se soltam por um processo de purificação. Se a carne já não me doi, a mente muito menos arde do roçar das superficies agrestes. Estou livre!
Onde estou?
Aqui não há lugares! Neste sitio não há sitios. Trata-se apenas de um estado: O líquido
Aqui apenas se propagam os murmúrios
Aqui, a propriedade mais doce é o movimento
Aqui tudo se esquece para se aprender de novo, porque no fundo, nada se repete...

domingo, dezembro 05, 2004

O eremita sentado

Parto
Se não parto
Se não parto, porque fico? Talvez porque tenho na permanência a mesma certeza que tinha na partida. Antes sabia que era mesmo assim, agora sei que sou mesmo assim. Dúvidas? Surgem sempre creio, sobretudo aos que gostam de questionar. Sou eremita e pouco mendigo, contudo questiono-me também se o serei efectivamente. Sei que sou o que um determinado, ou indeterminado, espaço de tempo, conjuntura, realidade, desenlace ao qual emprego apaixonadamente as minhas forças, me captura, por cedência e entrega desprovida de arrependimentos, na qual me deixo partir.
Sendo assim, mesmo quando fico, parto. Deixo-me ir como sempre fiz. Não é um ímpeto, é antes uma vontade própria. Propriamente uma vontade minha, que permanece desde que a mesma, a vontade, permaneça. Afirmo-me vagabundo, viajante, mas se me perguntarem se voltarei a partir, digo que não, sabendo bem que já o fiz desde o momento em que o rosto de quem pergunta esboçou o mais leve traço de dúvida, e eu me apaixonei pela ideia de adivinhar o movimento sonoro dos seus pensamentos

sábado, dezembro 04, 2004

A Mais Suave miragem dantesca



Rostos
que desmoem na calçada
a loucura dos telhados
mesmo à porta do céu
Marcham
contra paredes empilhadas
e visões amuralhadas
pouco ou muito
se a raça se perdeu

Tenham cuidado
se andam de pé
que os costumes
andam armados
à procura de cabeças
de rostos maltratados
de ideais cansados
afogados na conversa

Queimam
o que lhes arde dentro
bem no centro da cidade
salvando as facas e denúncias
Julgam
que os Impérios se apagam
e as cortes se atrasam
pouco ou muito
a reclamar o que é seu


sábado, novembro 27, 2004

Lá vão dois dedos



Dois dedos carregados de fogo
Percorrem as ruas do corpo
A tropeçar em silabas miudinhas
Bêbados de ausência e poemas violadores



Dizem escrever o desejo dos milagres
Com madressilvas e recados a arder
E beijam apaziguados com bocas invisiveis
Dormentes de afecto e passos desmoronados



Batem mais tarde á porta das convulsões
A devorar as nesgas do Tormento
A atear com choro os sulcos do crepúsculo
Pressentindo violetas e gritos de chuva




Até que a noite bata em retirada



até que finalmente a noite bateu sem dizer nada

Pode Gis

Imagina-te com os dedos a cheirar a pó de giz
Por certo escreveste no quadro
e se escreveste tinhas uma ideia
se tinhas uma ideia e a escreveste ela ficou presa
agora imagina o quão fascinante é prender uma ideia
como é fabuloso a poder suster com a ponta dos dedos num pau de giz
e no espanto da ideia que aparece
olhando introspectivamente que forma tem a ideia
pergunto-me porque imagino a forma da ideia como uma chávena de chá
para onde olhamos e vemos reflectido no liquido quente a solução
a ideia por assim dizer, é uma imagem aquosa de outra imagem, é a linha ténue
o limes entre a matéria quente e algo real, ou não, fora da chávena
Uma ideia pressupõe a ideia anteriormente gerada para saber, tal como num inventário,
a que grupo de ideias a devemos associar, tal como o chá, ou as infusões,
os estimulantes e os relaxantes, e por aí adiante
até onde a colher entra e se mexe tudo, se bebe e se escreve e resulta em algo mais
do que um biscoitinho de canela ou uma conversa de velhas tricotadas num sábado à tarde


segunda-feira, novembro 22, 2004

sacanice

Sr.º Marquês, o que vês no fundo do teu chinelo?
Que Portos percorreste sob o estalar dos teus passos ignominiosos?
A sacudir a sombra do amanhecer de semblante seguro
Que guardas na pequena caixinha escondida no bolso interior do longo casacão?
Ergues do teu desprezo o mundo convertido a uma gafaria imensa.
Que escondes sob a tua arrogância farsante de pluma?
Diz-se que deitaste a alma ao Egeu. Dizem que repousa com Poseídon e as suas ninfas,
sem submissão ao evangelho da palavra e da velha moral, entre as coxas de Nereide,
a beber néctar, de bico leve.
Deste modo guardas o hábito de libertário, de prostibulo em prostibulo, lupanar em lupanar,
vagabundeando,
remoendo de vilancico em vilancico , a nitescência do inimaginável, da vida que preservas no escaninho insignificante dentro do teu bolso de tecido grosso.
E, misteriosamente vagueias, sacudindo o azar e as sombras da aurora à procura da urna hermética, sacralizando o momento da tua morte dedicando-te a esta em vida. Porquê Sr.º Marquês? Porquê? Porque te ris do eco da tua solidão? Será este o motivo. O Medo insano da propagação? Seja assim e eu me manifesto desta galimatia em sonante casquinada, pois leva Sr.º Marquês um guizo de prata a tilintar por entre o lodo.



domingo, novembro 21, 2004

O carnal é em mim sangue, o teu sangue

Rodeias-me com esse jeito de quem quer trepar sem receios e trilhos de cobra, a empurrar-me com silêncios insolentes de encontra a superfície talhada pelas minhas mãos em fuga. A noite de carne alonga-se em membros intermináveis, sulcados de cetim e saliva quente, com chamas a arder nos olhos, e línguas agitadas nos rituais sincopados pelos estalidos do desejo. O torpe é envolvido nas paredes do vórtice que dança na melodia de campainhas e gemidos metálicos. As sete escravas apertam o laço enquanto espalham incenso e pétalas, cantando a silvos as unhas a cravar o veneno, paixão, no mais liquido interior, onde incessantemente, se erguem veias, veias e sangue. O meu sangue.
O teu sangue.

sexta-feira, novembro 19, 2004

7 migalhas discutiam numa gritaria enrijecida e estaladiça a condição de qual seria a maior
saltitante chegou um pardal que as engoliu entre dois pios
lobos maus já não metem medo
tudo faz parte da natureza
Não há novidades neste dia

quarta-feira, novembro 17, 2004

ao que se chama História

Subitamente, pela assombro, e derradameiramente, pelo indeterminado, a única recompensa da palavra é a imortalidade. Esta nunca é imediata.

segunda-feira, novembro 01, 2004

O meu regresso

Fiz-me ao caminho e de subito me vi pedra. Fez-se o tempo de construir uma casa nova e necessáriamente me vi casa. Veio o frio e convenientemente vieram muitos a abrigar-se nas minhas paredes. Caminhou o esquecimento, eu caí e caminhei também. Cheguei ao mar de me vi onda. Carreguei em mim um barco de pescador com uma faixa azul pintada. Embati contra um rochedo para acordar o faroleiro, ele correu emitir sinal, eu parti, luz, de encontro aos olhos do marinheiro à espera da costa. Ao desembarcar fiz-me terra. Cresceu em mim uma ideia, e fiz-me árvore, pendurei-me de ramos na nascente e esperei que viessem beber aquela água. Dei fruto para o fazer caminhar novamente. Apanhado pela mão pequena de um puto fiz-me bicicleta e parti para lá da procura. Voltei ao lar como campainha a festejar e a avisar o retorno.

Tudo me parece possivel quando estou onde mais desejo estar

Pureza

Saem-me da boca pedaços férreos de indisposição que cuspo, repugnado, a querer expulsá-los, a desejar que não haja mais nada a sair. São pedaços de fel, extremamente amargos. Rompem das entranhas a queimar as paredes, a morder lentamente tudo o que encontram pela frente. E só quando olhamos em volta, cuspimos, e os vemos cá fora, só aí se nota que voltaram à origem.

escrito em Portel

Abraço a lâmina romba como quem te abraça, saboreando este meu sangue com a mesma surpresa retida nos teus lábios. Caio da mesma forma inerte com que lanço o vazio no abismo. Caio eu de seguida. Em vertigem . Em viagem vertical.
No fundo, és o Fim.
Em verdade percorri o abismo sem lhe saber fundo, sem nunca ter sido a primeira vez. Perante os anos fomos os dois o mesmo, ou simplesmente, o vazio e o abismo, um a comportar o outro. Um a percorrer o outro.
Ambos estavam dentro de mim
(Ou estavamos)


Já não os oiço
Descobri o Eco
Pouco interessa a distância quando se descobre o Eco,
foi o que descobri.
Nada importa mais do que esta descoberta. Nem mesmo a cada corte que acicuta o drenar da matéria
encarnada, fluída, na superficie romba da ausência.
Nem mesmo assim
Conduzido ao esgotamento, por inveja, por acto criminoso, nem mesmo assim, jamais espero regressar.
Deixei de conhecer o familiar caminho do Abismo, perdi-me dele. Recrudesci o impeto do abraço, construindo-o ainda mais muscular, agora sim, de sentidos abertos


A falta de realidade alterou-se, ao que eu pensava anteriormente saber o que seria a realidade
Flébeis conceptualizações de tal enfermidade cessaram
A angústia provocou-me desde sempre o sonho
Ao te encontrar, Fim, julguei reencontrar-te. FIM

Esta minha negação

EU:
Não! Não quero, recuso-me a aceitar que tenho de o fazer.
Não me podem forçar a acreditar. Recuso-me! Determinantemente!
Prefiro negar tudo, manter uma aparente realidade, que sim, que é a que mais me convém.
Reclamo para mim o direito de viver nem que seja um sonho, mas viver, ao invés
de murchar entre sujeições, obrigações, e as demais desesperantes imposições, forçadas
por algo que nunca escolhi, que me foi arremessado para cima como se um pesado pano
preto se tratasse, e tratasse, de me tapar os olhos, os sentidos, a mão que se inquieta em
tocar aspirando o que realmente escolheu para si. Mas não, não a deixam repousar o tempo
suficiente para lhe guardar o calor e resistir a mais um inverno. Sempre que se afasta
sujeita-se a novo padecimento, um daqueles a que não nos podemos habituar ou morre-se
enregelado no esquecimento do próprio sangue convertido em Frio. Recuso-me a sujeições,
prefiro idealizar. Dizem que é perigoso fazê-lo, mas aprendi a reinventar e abusarei deste
deste exercicio até que me perca da realidade, se a realidade, porventura ou razão,
continua a ser esta que não quero. Esta que não quero de facto não me agrada.
Não não, esta não quero! Finco pés. Bato as solas. Chamem-me o que quiserem, mas esta
Eu não quero!