sábado, outubro 30, 2004

Super Nova

Explosões
O Nada, negro, engole as centelhas
Do lado de lá germina outro mundo. É o principio de Tudo. Trata-se de um Tudo pequenino, com pressa de ser grande, desmultiplicando-se em minúsculas relações, que à primeira vista tendem em ser consideradas como ocasionais. Verifica-se que nada é ocasional. Verifica-se, contudo, que nada é premeditado. É como se o fortuito fosse suposto acontecer. Não por mecanismos, isso não, antes por vontade. É o desejo. Prossegue a construção. Os pequenos elos agigantam-se em prolongadas correntes, como dedos que se cruzam e terminam, alongando-se, em corpos adultos que se abraçam sucessivamente. Constroi-se pela multiplicidade a união. De Tudo se faz um Todo. O Nada é o ventre que acolhe a gestação. Um dia nasce o fruto. Separa-se da raiz e ganha vida própria, não premeditada, ocasional, guiada pelo desejo. Novas explosões se avizinham no espaço deste lado, para se converteram do outro lado, para lá do Nada negro.

domingo, outubro 24, 2004

...

Nada mais do que um toque.
Nada é mais Simples

A pele sente!...Não! A pele não sente!Acolhe apenas.
A pele das minhas mãos brancas, nuas
sustêm reflexos presos em teias delicadas
Toma posse o prazer dos pormenores!
O corpo desenha expressões
Que se desejam tocar num momento bem longe do mundo
A alma quer conhecer mais e mais, quer ir mais profundo.
A pele surge nua, à espreita de beijos nocturnos
Arrepia-se
Embriaga-se com aquele sabor.
Não, Não sente! Trespassa
Propaga o estado febril, o Torpor dos sentidos
À chuva de chamas a beijar como quem desespera
É a armadilha sem pudor, sem dúvidas,
sem melhores razões do que uma vontade a sós,
Una.

É feroz
O abandono da piedade!




sábado, outubro 23, 2004

...

Por sorte ou por ventura entrei na Igreja sobre o ermo mais extremo da Vila, e encontrei lá um Javali. Era muy grande, o bicho até metia medo. Parecia que os meus pés se enterravam no lajeado para se esconderem de tamanha besta, e como fedia a Diabo.Vi que tinha uma pata Ferida, e o medo foi-se embora quando se me deparou a ideia de que o peludo havia vindo rezar à Santa pelo mal de que padecia.Era muy grande e tinha os olhos vidrados. Parecia o primo Tempena. Tempena Leão, filho de minha tia Isoméria, que de cada vez que volta de Espanha traz os olhos assim. Vidrados pois sim. Casado com a Cegonha Velha, que anda sempre com o rabo de arrojo. Chamam-lhe assim por não poder trazer filhos ao mundo, e pelo que dizem atrás dos balcões, o primo casou-se com ela por pena. Tempena é amigo. Não pode ver bicho aflito ou pessoa com fome. Dá-lhe a camisa do corpo caso seja preciso. Foi alimentado pela tia Isoméria com cerveja preta batida com ovo e açucar, e largou a escola antes da quarta classe porque já conhecia os nomes dos rios, das terras e de todas as coisas. Tempena chegou-se a mim de olhos vidrados e entregou-me o nome do porco hirsuto da capelinha. Explicou-me que Joaquim Esteves Tó, assim se chamava o Javali, foi rezar para que acabassem as reservas de caça, que hoje são mais que as terras e não deixam o povo delas caçar para enganar a pobreza. O desgraçado suíno fartara-se de fugir pelos montados e de cavar buracos junto ás azinheiras. Não havia inferno onde se pudesse tapar que os caçadores encontravam até o Diabo, com os seus cães e os seus jipes. Eram estas gentes muy frias e muy más. A piedade tinha lhes caído da nuca logo à nascença.Pareceu-me ímpossivel de acreditar, esta história. Como é que pode um javardo rezar à Santa, na mesma Igreja dos caçadores que disparam até sobre o capim que mexe.

sábado, outubro 16, 2004

A lamber sussurros

Por aí não escaves!

Repousam enterradas sete palmos debaixo dos pés
No cemitério esquecido,
Tristonho Baldio fértil,
As mágoas

Espalhadas de entremeio sem cruzes sem lápides
Ou dedicatórias gravadas
As penas de não ter cometido os piores vicios
Purgam pelos defeitos veniais
Em silêncioso anonimato

Não estão mortas, estão enterradas

Por aí não escaves

De um quarto minúsculo

Depositado no meio da escuridão
O quarto avança sobre mim de paredes distorcidas, contorcidas.
De Joelhos abraçados em posição Fetal
Choro em prece para que tudo despareça escondendo os olhos.
Do lado de fora sente-se somente o Frio.
Não é dor que se compare
À raiz que é arrancada da sua vida.
Estou onde não quero estar,
Sou o que é necessário ser,
Bela Meretriz que se faz à estrada.
Maquio a minha cara com satisfação
Guardo o pagamento como se fosse fundamental
Prossigo apenas com o que mais se espera de mim.
Neste quarto cada vez mais minúsculo, dispo-me para ti.
Amo, entre as lágrimas vertidas da minha Alegria
Danço, com membros de linho a repousar em pele
Engano-me com a tua despresença.
O quarto que me oprime é o próprio esconderijo
Carcere onde me entrego
O dia seguinte
A continuação do que se espera de mim
Sou o que sou
Meretriz
Dou o meu corpo a quem me paga
Sou profissional
Ando pelo mundo como outros tantos,
Acredito ser possível guardar-me sem mácula
E restituir-me, EU, eu mesmo, sem espectativas
Dar-me sem medos das minhas dores
À tua doçura, ao carinho com que me lês.

sexta-feira, outubro 08, 2004

Estórias de Desenhos Inanimados

Chegou o Vento feroz,
traz com ele as danças das folhas caídas e do lixo.
Árvores curvam-se em gemidos sibilados com os seus longos cabelos a tocar o chão, violentamente empurradas de encontro ao chão, perfis sublinhados. A coluna vertebral a quebrar. Dores agonizantes a que se habituaram desde há muito. Lá se vão safando, agitando os braços, inquietas, em desespero mudo de voz.

O lixo vem de todas as partes e vicios,
dividido em partes incertas, sem pertencer a alguém por certo.
Chega brincalhão a varrer a poeira da estrada, dos passeios, os pés dos homens e das árvores. É a pequena multidão de saltimbancos que vai de porta em porta furtivamente, ganhando vida ao som do teclar de um cravo numa melodia repetitiva, enlouquecedora. Carrocel de cores e desperdicios.

Os objectos inanimados querem voar,
A mão segura o chapéu seguro na cabeça, a senhora resguarda o vestido para se resguardar, as bandeiras querem fugir de país em país, um Cristo petrificado em frente da Igreja quer voltar a ressuscitar, bicicletas põem-se nervosas porque na China os Chineses lhes dão com os pés. Insurge-se um descontentamento inanimado. Por todo o lado. Onde o vento chega. Pelo ar.

O Joaquim cigano já tirou as meias da venda,
Queríam andar sem nada lá dentro, queríam voar sem ninguém pagar 1.50€ por elas.
Lá voava o dinheiro.
Lá voa a tenda do Joaquim cigano e da sua familia se não espeta uma estaca mesmo no coração da terra. Tem que ser mesmo no centro, a tapar o buraco por onde sai o vento. Acorrem todos os ciganos de mãos a segurar nos chapéus.
Algazarra tremenda. O que o vento desfaz o homem remenda.

As pregas das calças sacodem-se a querer caminhar mais do que as pernas.
Aves atrasadas nos seus voos dão camabalhotas no espaço, esticando as asas como podem para evitar um qualquer acidente de grandes dimensões. Se chocam contra grandes engenhos fazem do azar um incidente. O boletim informativo não soube ser mais claro, despenham-se estátuas e pirâmides no Cairo.
Estado de sitio. Agitam-se os militares nas suas casernas.

Na Madeira um grupo de Turistas Belgas sofreu um atentado por um grupo de bananas,
Dizem que os frutos se revoltaram, e que o fruto da paixão já não tem o mesmo sabor.
Mais, dizem que as bananeiras se curvaram todas na mesma direcção e empurram agora a ilha para outras águas. Sindicalizaram-se e há quem suspeite que se dirijam para Cuba, onde o Vento sucumbe aos longos discursos de Castro.

A família Simões está revoltada,
Foi obrigada a desmarcar as suas férias ao arquipélago do tio Imperador João.
A culpa é dos sindicatos e do Comunismo. A culpa é toda do Comunismo. Espalha-se o terror na praça. Espalha-se por quem passa. E agora quem devolve o dinheiro das reservas? Ouvem-se marchas de botas rudes com pensos higiénicos a forrar a sola dos pés. Querem tornar a guerra mais suave com pensos higiénicos.
O pai, Antunes, não gosta cá de comunismos. A terra tem de ser bem lavrada.

Onde é que isto vai parar?
O Lixo voa em gargalhadas mobilizando a sublevação. Levanta-se a guerra, voa sobre a revolução. Armas rodopiam ferozes disparando sobre Bananas, cortando rasantes as bananeiras empurradas pelo sindicato. As aves já se mudam para o Oceano Pacífico. Dispara-se sobre tudo o que o vento sacode. Caem as primeiras chuvas em forma de lágrimas.
Finalmente, felizmente, tudo pára quando Joaquim Cigano espeta a estaca no coração da Terra, e o vento deixa de soprar Feroz.
Sussura-se pelos escombros uma paz incerta.
Se não fosse a mão do cigano...

quarta-feira, outubro 06, 2004

Festa

Rosto maquilhado de cores sensoriais que brilham sob efeitos relativos à intensidade dos sons circundantes da sala. Um animal empunhando um punhal estriado, rasga o ventre de um jovem sacrificado para aguçar os prazeres dos Deuses. Recolhem-se as tripas que se queimam nos jarrões de votos aos Homenageados, e espalha-se vinho novo pelas paredes, assim como pelo soalho coberto de mosaicos indiscretos, erguem-se cânticos repetidos como ladaínhas e o quadro apocaliptico e profano da Humanidade mistura-se a pinceladas no quadro do pintor de mangas sujas de tinta, o que quer retratar as epocas das Odes e dos frágeis trapos Dionisianos. O artista de sapatos rotos esfrega o nariz avermelhado pelo frio, feroz invasor que entra pelas frechas do estuque apodrecido das paredes da casa velha, mais se diria as entranhas de um verme morto a secar ao tempo. Sobre a mesa estão pinceis gastos, aparas, e um depósito de beatas que tem como futuro o reaproveitamento, renascerão das cinzas como um novo cigarro, phoenix cancerigena que voltará uma vez mais a arder. Duas maças engelhadas, uma naco de pão endurecido como a vida, e um sibinho de carne seca. É tudo quanto lhe resta. Já perdeu a conta ao que vendeu. Vendeu o que não sabia que tinha venda possivel. Por dois tostôes. Pode ser que os troquem por euros- Foi o que pensou. E agora ali está ele a tentar pintar. Decidiu mudar de profissão assim que viu o conjunto de tintas e pinceis espalhados junto a um caixote de lixo. Pareceu-lhe, no momento da descoberta, que pela forma como incidia a luz, o brilho matizado dos objectos, jurou tratar-se de um milagre. A fome tem destas coisas. Torna-nos crentes, fieis absolutos, devotos inabaláveis. O poeta decidiu então pintar. Sempre era melhor do que ir para a estiva ou para a veda. Sabia que as suas mãos não iriam aguentar. Não nasceu forte e gordo como o irmão. Esse é capaz de levantar um carro com as próprias mãos, e capaz de levar comida para casa. Mas também- pensa logo de seguida- apenas isso: comida.
A longa mesa repleta de iguarias decoradas por penas brilhantes de aves raras, tem sobre si carne humana desnudada, contorcendo-se estes corpos como que dilacerados por uma vontade de unhas e saliva lançada por gestos desenfreados, como que contidos desde o nascimento da volupia. Derramando vinho e comida por todos os lados. Vinho e comida. Vinho e comida.
E assim morreu o poeta numa cave esquecida, construída num livro urbano, vetado à fome e à sede, morreu o poeta pintor, com os pinceis espetados nos dedos, as mangas sujas de tinta, a casa vazia, e duas maças apodrecidas sobre um manuscrito
INACABADO


bar

O Triunfo da Morte
H.Bosh

domingo, setembro 26, 2004

A grande manada de mamiferos bipedes

O mundo dos homens é uma animalada incapaz de assumir os seus hábitos predatórios. Estende-se ao canibalismo social, uma nova formula de comer o outro sem parecer muito mal. Reveste-se da mais sedutora estética, oficiosa cura para os olhos. "Olhos que vêem, coração que não sente", presuma-se pois o inverso. Desta forma se ornamenta a besta. Disfarça o seu cheiro. Vai comprando a abosolvição da sua conquista com simbolos que se tornam de poder, adereços de composição da condição de caçador.
Chega-se ao ponto de disfarçar a bestialidade e de acusar outras espécies de serem mais animalescas do que nós, reclamando para a humanidade um estado de pureza e elevação entre a natureza. Sobressaindo a inteligência politica inerente, e o instinto da sobrevalorização da imagem.
Subterfúgios rácicos estes, que apontam a criminalidade natural para outros companheiros de espécie. Envergonho-me por cair em automatismos assimilados por excesso e recorrer a criticas tão formalizadas como as que já fiz. Faz-se de uma raça uma opinião, um "gosto" divergente.
Somos animais em busca de sobrevivência assumida num meio social, na caverna artificial construída ao som dos tambores do recambolesco, elaborada por nós próprios. Resta-nos a elegia de sermos inventivos, mas vejam bem que bestas somos. Pensem bem se não tomaram uma iniciativa que esmagasse outro individuo. Claro, é tudo uma questão de sobrevivência. E referia-me apenas aos canibalismos. Pois quantos de nós não tiveram um cão ou um gato?!
E viva à supremacia sobre os fracos. Leiam Nietzche para aprofundar algumas possibilidades.

Não poeta

Nunca serei poeta enquanto fôr feliz
E eu sempre soube ser feliz
Ou pelo menos sei onde me reencontrar

Adivinha

Dormem sobre linhas de pautas os meus sonhos, espero encontrar-me neles comigo, comigo, e contigo.
Espreito segredos por entre as casas dos botões, arregalando os olhos incrédulo ao ver o peixe de luz a descansar nas águas de vidro transparente, vidro inofensivo, dimensão onde as palavras não doem, as ausências não cortam, e o silêncio se propaga docemente acalmando as linguas de espirito irrequieto e quebradiço.
Escondo pensamentos insurreitos nas concavidades das árvores. Afasto-me para que sosseguem apesar de pedirem a minha voz. Aguardo o fim do calor, o calor do fim do Verão, que abrasa o pasto rasteiro das dúvidas para que por fim possa recolher com a concha das mãos a frescura dos melhores momentos.E bebo-te! Somente para ganhar forças, unicamente porque quero resistir a Tudo o que me quer debaixo da terra. Quero merecer as dores que corroem, elaboradas por estratégias cognitivas, empiricas caminhadas no meio do lodo!
Quero afagar-te em mim, em mim, contigo. Entrego-te a minha árvore dos segredos, deixo a tinta das palavras que ficam sempre por dizer á sombra de considerações maturadas para que nunca seque, e parto de punho fechado como se nele pudesse esconder do mundo as minhas recordações, as vergonhosas imperfeições, contraído, com toda a força, feito só, morto sem vida. Do que é feito Só, morto, sem vida?

domingo, setembro 12, 2004

Uma pequena Ideia

A luz do final de tarde é tão doce! Parece subir-me aos ouvidos, oferecendo silêncio, indo deslizar liquidamente, sem qualquer urgência, pelo meu âmago. Se anjos houver, eu sou um desses seres alados ao fundir-me dentro do meu corpo com o horizonte de cores macias. Inspiro calmamente a brisa, dou ordem de comando, os membros voltam a mobilizar-se, e continuo a caminhada, retorno à humana condição de quem vai tentar apanhar a nova Noite emergente. Contudo, quer me parecer que este momento de lusco-fusco se revela na realidade a instância de movimento. Está presente na imagem de um quadro com duas imagens alternadas, uma escondida, outra delas exposta. Um quadro de crianças, que ao rodar do botão faz do dia, noite, e da noite, dia. As transições essas sim são movimento. A rodar portanto. Mesmo quando fecho os olhos e paro. Desta forma em movimento. Ao rodar do botão.

Para ti criança

Sobre a condição que é ser adulto
Arrisco a dizer que se trata somente da liberdade de poder desobedecer.
Liberta a criança que há em ti, abraça-a, e quando quiseres ser grande:
DESOBEDECE

Testemunho de um momento de espera

Passavam na rua por mim, as horas. Estava cansado da espera.
Imaginei que me sentava num banco de jardim, imagem construída mentalmente como ideal mais generoso ao meu desejado sossego, fosse este o local apropriado para poder esperar o tempo que me esperasse, esperar.
Sentei os cotovelos sobre os joelhos dobrados a sobressair do banco de ripas de madeira encarnadas. O corpo, não vendo o momento desta sinuosa demora terminar, pois nem mesmo de olhos escancarados a alcançava , pôs-se a fugir entre as fendas do assento. Devagar, num movimento lento, como dor a escorrer em derrames elásticos, matigados, a rebentar até à extensão máxima da sua própria explosão, lá se escapulia. Esta matéria, como que às fatias, ameaçava escoar-se pelo banco procurando tocar o chão, arriscando o contagio de uma qualquer doença. Cedo aprendemos que não devemos lamber o solo por onde caminhamos: "o chão é imundo". Em verdade, não conheço ninguém que tenha lambido tal superficie. Logo, ninguém me poderá dizer que sabor tem.
Com esta dúvida fiquei ali pendurado a cogitar qual seria o eventual sabor a chão. Não me poderia ter ocorrido algo mais conveniente a mascarar o desespero daquela espera.

sexta-feira, setembro 10, 2004

Purismo

O estado de frenesim sempre presente nas veias dos olhos a gemer como madeira seca , apertada por cordas estranguladoras, constrictoras, de um moinho ermo
com os pulsos a gemer, atados, amarrados em peso, violentados pela força que deixa marcas profundas, as do tem de ser, criminosa realidade. Caio, desfeito num estertor, ausentando-me da vida para ganhar dureza de esteio na morte, precedendo em fúria recrudescente o inchar asfixiante dos pulmões até o ar se tornar dor, e solto-me na raiva muda de não saber dizer, de não saber dar o incomensurável existente em mim. Este trono enfraquece-me, a coroa dobra-me o corpo de mendigo, rendilhado de feridas, pustulas da alma, envergonho-me da minha condição. Modelo de mãos frementes esboçando do nada, materializações palpáveis permeabilzantes, portões giganstescos sem fechadura, para que não percas tempo à procura de chaves, expectante, a arrepiar o momento rompante de entradas rebentadas impulsivamente e cordas rasgadas sem cuidados, onde me encontrarás postrado de manto de doçura tua a agasalhar-me a pele nua, engelhado na minha pequenez da felicidade pela comoção de te rever, e te oferecerei as paredes do meu reino indiscrítivel, o mesmo que erigi no ardor das razões impronunciáveis

sexta-feira, setembro 03, 2004

As respostas de Dona Dor

(balada ao jeito de Coimbra)

Pergunto à flor
Se viu na terra outras mãos desastradas
Ter tudo dá-lhes guerra só sabem ter nada
Responde a dor: Pobre de mim

Pergunto à flor
Se viu no chão outra voz triste caída
Que ri ao ouvir Não e esconde o rosto à vida
Responde a dor: Pobre de mim

Grito-te ó Rosa: Vê bem!
Nunca se viu ninguém que soubesse dar
O amor que nos rebenta
Desespera quem o tenta
Responde a Dor: Pobre de ti


terça-feira, agosto 31, 2004

Pequeno Aviso

Deixei-me de palavras construídas e frases escolhidas no fiel da balança.
Eu vivo! Agora tudo me faz sentido, tudo tem outro sentido, e é sempre mais.
Estou-me a borrifar para quem pensa! Em boa verdade, estou-me a cagar para quem pensa
quando quer pensar por mim. Tenho dito! Estou-me a cagar para quem quer pensar!
Tudo de repente tem sabor e côr, tudo. Os meus ouvidos, revelo-vos que ouvem hoje muito mais do que ouviam antes. Digo-vos que há mais sons. Digo-vos que há menos palavras mas mais "coisas" para retratar. O mundo redobrou de tamanho, cresceu, levedou, estravasou a forma com que me untaram.
Digo-vos que anda por aí muito mais, digo-vos que tudo tem pernas.
Venham passar a noite comigo
Venham ver

segunda-feira, agosto 30, 2004

Por debaixo de Hoje

Sob as estrelas


Hoje deito-me com as estrelas.
Vou dormir no espaço, enrolado nos panos de poeira astral
Serei filho do cosmos sem gravidade, sem peso, a abraçar a Terra
Vou brilhar entre as constelações, de olhos fechados
Vou prender os meus dedos nas rugas dos brilhos de prata

Hoje deito-me num quebrar de ossos.
Da metamorfose da minha pele, restará apenas, nada mais que pó
Do casulo sairá um Homem Espacial, o que conhece o Mistério
Certo no seu sorriso, com um grito a correr os céus
Um conjunto de feixes luminosos, de cores variadas, longos, infinitos.

Hoje deito-me sem sangue.
Nas minhas veias correrá o ego que engolirei, sem ruído
O que era braço levantar-se-á, o que era mão fará um desenho
Suavemente, Misteriosamente, no meio do turbilhão do Caos
Estrelas, Planetas, serão recriados no centro do Universo.

Hoje deito-me onde sou.
A boca que era, o que dizia, o corpo que fui, o que fazia nunca foi especial
O que dedo que era dedo apontará para cima, para o que era sem limites
Tocando, a deslizar, as caudas dos cometas
Incontroláveis, perderão o seu sentido
Ficarei a vê-los rebentar em palcos Cósmicos
De onde nascerão estrelas Vulcânicas
A brilhar sobre cenários de lava encandescente, de veludo.

Quando Hoje é apenas um instante em que me deito,
Amo o que está por debaixo das estrelas! Os pequenos diamantes
As memórias cinematográficas, matinées das horas tardias
Os pequenos assuntos, a partida da porta de casa para a escola primária
O espectáculo, as luzes, os sons, as pipocas feitas na panela da cozinha
Os bilhetes guardados, rasgados, rasurados
Um piano
Os pianos debaixo das estrelas. A martelar notas.
Os eléctricos debaixo das estrelas.
As cidades debaixo das estrelas.
As cidades debaixo das cidades, debaixo das estrelas.

Quando Hoje me deito entre os homens,
Visto o meu fato de terra, homem espacial
Frágil, vulnerável debaixo delas.
Tenho luvas para apertos de mãos, cabelos para quando não sei respostas
Estou equipado com dois pulmões que me permitem respirar na atmosfera,
Sou novo demais para escolher e entrego-me ao suicidio da sorte
Não estou só! Caminho reconhecidamente num estilo próprio
E ardem-me os olhos se olho de frente o Sol

Sei sentir a falta de Sal, e denuncio o que é agoniantemente Doce
Sei amar e sofrer, simultaneamente
Sei acreditar no que não vejo, no que não consigo descrever
Sei seguir entre pedras, árvores, perder-me nas estradas

DasestrelasDasestrelasDasestrelas
Aprendi a linguagem antes incompreensivel
No meu fato terrestre, tão longe de casa,
Aprendi a querer ficar onde Sou
Mais uma vez, sob as estrelas

sexta-feira, agosto 27, 2004

A génese de um blogue

Sem procurar universalizar, definir, deixo uma pequena achega sobre a curioso motivação que nos leva a escrever um blogue.
Passo a citar Thomas Moore (" A emoção de viver a cada dia"). No que ele denomina de "Linguagem líquida": " Algumas receitas mágicas pedem que se comam as palavras. Arnaldo Villanova, no início do século XIV, descreve uma práctica exorcista na qual as palavras iniciais do Evangelho de São João são mergulhadas num líquido, por vezes água benta, e depois bebidas. A linguagem pode ser utilizada sem que passe pelos portais da mente e pelo intelecto interpretativo. Podemos ingerir palavras, torná-las parte de nós, sem necessáriamente compreendê-las...As nossas palavras precisam muitas vezes de liquefazer-se, pois tendem a tornar-se rígidas e quebradiças...Também a nossa linguagem diária poderia ser menos seca e mais líquida. A línguagem dos negócios, do governo e da lei está repleta de palavras rígidas, quebradiças, indigeríveis, cujo valor advém apenas de um dicionário ou das intenções manipulativas dos seus utilizadores...". Então Thomas Moore sugere a razão porque devemos Liquefazer as nossas palavras, que pela anterior descrição me parece capaz de ser representativa do que fazemos nos blogues, reforçando ainda mais esta opinião com o seguinte: "...O propósito deste estádio não é chegar a um lugar em que particular, alcansar um entendimento ou obter uma conclusão, mas simplesmente liquefazer as nossas perguntas, suposições e intenções. Discutir, conversar, fazer um diário, rascunhar, caminhar meditando (e tudo isto me parece decorrer num blogue)- estas são apenas algumas das prácticas que qualquer pessoa pode incorporar no quotidiano e que oferecem uma solução aquosa, na qual os nossos problemas podem diluir-se e dissolver-se em pedaços manejáveis. A mgai deste método não está nas conclusões lógicas a que podemos chegar, mas no desenvolvimentos menos conscientes que surgem do falar, do caminhar e do sentar. Alguns minutos encantados de conversa sincera podem ter mais efeito do que muitas horas de análise."

"O silêncio é de ouro"

Estou preocupado!
Não sei se a oposição anda a dormir ou se é reflexo das férias de verão, mas os media não têm levantado grandes polémicas ao tão temido mandato Santanista, ou Satãnista. Pouco se te ouvido pelas ruas. O burburinho acalmou à beira mar. Nem a subida do petróleo trouxe de novo o semblante apreensivo aos rostos dos Portugueses e todos seguem o seu caminho de chinelos e bermudas.
O desemprego continua a aumentar, mesmo para os licenciados, num país que diz necessitar de mão de obra especializada. E contudo, parece que a crise também se muniu de uma toalha colorida para se ir espraiar na areia.
Talvez as decisões de Satã não tenham sido de cariz profundo, possivelmente a sua acção não terá sido tão activa que mereça oposição, podendo inclusive chegar-se à conclusão que o homem desta vez acertou, a julgar pela suavidade das criticas. Ou então, os media estão todos de férias, nas mesmas estâncias que a oposição, a jogar à bola e a atirar areia para cima da tolha da Crise. Já vão longe os tempos das batalhas campais na Assembleia da República, o que me agrada, mas é de desconfiar. Por isso me interrogo. Desconfio sempre destes nossos politicos, independentemente da cor. Socorrem-se de ideais com os quais não são coerentes, usando-os como bandeiras propagandisticas, sobre os quais tenderam a especializar-se na sua deturpação. Uma mera diferença entre a vida real e o que deveria ser, o que é suposto ser, a Utopia das leis, no país da leis que todos sabem como não as cumprir, devotado ao esquecimento do humanismo para o enaltecimento da raça através da retórica. Ainda há muitas diferenças no País que não foram de férias.

quarta-feira, agosto 25, 2004

Marcha Lenta

Vai de Roda
Que esta Dança
Os braços não cansa
E não vai parar

Entrem nelas
Barrigudos
Homens narigudos
Feios de chorar

Entra
Pelo o mundo a fora
Que a dança demora
Ainda está a crescer

Rodopiam
Sobre desventuras
Amarguras
Que já ninguém quer


Marcha Lenta Quem Aguenta
Olhem que a sorte rebenta
Que esta marcha já cansa
Façam da Marcha uma dança


Vai de roda
Que esta moda
Não tem nome
É de gosto popular

Entrem nelas
Os bigodes
Das mulheres dos pobres
E as fadas do lar

Entra
Pelo o mundo a fora
Que a dança demora
Ainda está a crescer

Não
Há calos que resistam
Mesmo que insistam
Eles não vão vencer


Marcha Lenta Quem Aguenta
Olhem que a sorte rebenta
Que esta marcha já cansa
Façam da Marcha uma dança