quinta-feira, setembro 14, 2006

Cai-nos a morte em cima
sem carícias. Abrupta.
Meus senhores, Minhas senhoras:
Afinal não há bandeiras negras
nem farrapos sibilantes
nem frio ou odores agoniantes
Cai-nos em cima e ficamos ali
sem saber mais em que crer
com um nome seco na boca
a língua numa redoma de recusas
e sentimos os olhos a rebentar
quando não são lágrimas que saem
mas memórias
querer encher de vida um corpo inerte
desejar dar sangue à mão de buril
que um dia nos soube esculpir
queriamos tanto, outra vez, novamente!
a morte sem nos fazer cair cai em nós
Não revelando à sua luz
que também iremos tombar
e quando cai ela Zomba de todos
ensurdecedora
Como se nos vazios batesse o eco da dor

sábado, julho 15, 2006

Fora de mim

Fora de mim, longe do mundo!
corpo enfermo que repouso vazio numa esquina
revisitado pretexto de lamber dos lábios o sal
do esquecimento
o apodrecimento minucioso das pequenas células, todas sem excepção a arder,
e uma voz ulcerosa que calo
resguardando o eco sufocante
com um tiro nos miolos
abatem as cinzas de betume cultural adquirido desde a nascença
merda para tudo isto!
merda que moldo entre minhas mãos
percebes?
Cresce o insulto medra a conspiração
Sobra-me sobretudo um sorriso
E contudo, até de mim mesmo devo desconfiar
Está-me no sangue! Percebes?
É a podridão humana que em mim habita. Ou melhor, que no meu corpo se aloja.
Receptáculo pútrido
Carcassa de ranço
Carrasco asfixiante do qual não me posso romper a não ser por este desdém
Este Ter, este possuir corpo já não me serve de nada. Finalmente!

domingo, julho 02, 2006

Uma Pequena Homenagem Partilhada


Pessoa que não conheci, rosto da Utopia, rosto que reconheço. Voz penetrante e garras das entranhas brotavam por qualquer sentimento que exprimia. Homem simples e mortal, sofreu a realidade da carne e na alma o fervor dos ideais. Penso nisto do que lhe conheço, do que me transmitiu com as primeiras frases cantadas. José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos de seu nome, nascido 1929, soube, vivo, despir-se dos uniformes que lhe vestiram, e hoje, já morto, agarram-no para lhe vestirem outros uniformes propagandísticos, como a um santinho de procissão. Coitado do Zeca.
Não tenho ídolos ou exemplos a seguir do alto, sejam terrenos ou celestiais, sempre segui aprendendo com todos os que me trazem novidades apetecíveis. Tanto as virtudes com vícios são-me servidas pela vivência. Nunca tive heróis. Contudo, José Afonso dos Santos É possivelmente o único homem que admiro verdadeiramente. Admiro-o, podem crer! Pelo músico que foi, pelo papel de cronista que soube desempenhar com humor, por ter sido capaz de colocar tamanha humanidade, a sua, em todas canções que nos deixou. Por toda a sua simplicidade. Pela sua capacidade de entrega a um povo, a uma vontade cultural repleta de variantes em várias anotações.

Deixo-vos o poema da música "As Pombas" (Luís Andrade/José Afonso), do albúm "Os Vampiros".


Pombas brancas
Que voam altas
Riscando as sombras
Das nuvens largas
Lá vão
Pombas que não voltam
Trazem dentro
Das asas prendas
Nas bicos rosas
Nuvens desfeitas
No mar
Pombas do meu cantar
Canto apenas
Lembranças várias
Vindas das sendas
Que ninguém sabe
Onde vão
Pombas que não voltam

(dados biográficos e fotografia clandestinamente retirados do site http://www.azeitao.net/zeca/index.html)

terça-feira, junho 27, 2006

ASSOCIAÇÃO RESPIGARTE




Há poucos meses nasceu este projecto chamado Respigarte
Têm-se dados os primeiros passos timidamente, em processo de aprendizagem.
Prentende-se melhorar um pouco mais a cena cultural da nossa autarquia, da nossa região, do nosso país, e porque não do nosso mundo. Respigar arte, fazer da espiga miúda o pão, colher o que se deixa esquecido por não ser comercializável. Ainda existem pessoas irrequietas e pessoas de bons principios a querer mudar qualquer coisa que os deixa insatisfeitos. Foi curioso verificar a rapidez com muitos se identificaram a este ideal de respigador.
A quem ainda ler este blogue, faz-se o convite para se juntar a nós. Ou pelo menos, se o desejarem podem auxiliar-nos, com livros que tenham a mais, com pessoas que conheçam e queiram mostrar um pouco da sua arte, com dinheiro também mas não é de facto essêncial, a forma perfeita de ajuda é mesmo a de respigar procurando novas espigas esquecidas.
Quem queira conhecer um pouco mais dos objectivos desta associação que me envie um email para artmiserra@hotmail.com ou para respigarte@gmail.com

passagem

Existe em mim outra pessoa. Tem o hábito da fuga, a pressa dos instantes, detém a paixão pelos movimentos eternos. Encontrou um caderninho antigo no outro dia. Parecia estar esquecido. Ambos estavam esquecidos. Folheou o caderno avidamente como se o passado fosse o instante a viver de seguida, folheou-o sem se encontrar nesse futuro. Compreendeu então a teimosia com que persistia em mim, fez as malas e pirou-se. Estava sentado numa destas estações de caminho de ferro dos arredores de Lisboa e a brisa erguia-se tão doce que tinha sabor. Sei apenas que chegou um comboio à linha número 4, a mesma em que eu estava à espera e tive apenas a vontade de ficar ali sem pressas, deixando partir o comboio, a acompanhar esse movimento de partida. Mais tarde ou mais cedo estará de volta.

sábado, abril 08, 2006

...

NÃO PERCEBO NADA DE MÚSICA
NÃO PERCEBO NADA DE CERÂMICAS COM COZEDURA OXIDANTE OU NÃO OXIDANTE
NÃO PERCEBO NADA DE CULINÁRIA
NÃO PERCEBO NADA DE AMOR
NÃO PERCEBO O QUE DIGO PERCEBER
NÃO PERCEBO O QUE ME DIZEM
NÃO PERCEBO PORQUE TÊM OS OUTROS DE TER RAZÃO
NÃO PERCEBO QUEM TEM MAIS RAZÃO
NÃO PERCEBO A RAZÃO
NÃO PERCEBO NADA DE SER UM HOMEM ADULTO NO MEIO DOS HOMENS E MULHERES ADULTOS
NÃO PERCEBO NADA DO QUE SE PASSA À MINHA VOLTA
NÃO PERCEBO PORQUE SE FALA E NÃO SE FAZ
NÃO PERCEBO PORQUE SE IMAGINA E NÃO SE TÊM
NÃO PERCEBO
NÃO PERCEBO
SOU SOMENTE UM IDIOTA QUE FINGE COMO QUALQUER OUTRO IDIOTA
A MINHA ESPÉCIE

quarta-feira, março 22, 2006

Ad Eternum

loucura loucura loucura

loucura loucura

loucura...

louCURA...loucura
...
há neste estado clínico uma palavra que me teima

sexta-feira, março 10, 2006

Oração

Ao sobre vento que sobre a minha cabeça sussurra
À loucura e ao imediato ao pensamento soergo e relevo
Os sulcos marcados na pedra diste da minha lembrança
Na cidade triste menina de uma criança
Enrola-se a lágrima de choro perfumado a pinho
Pungente pinta de animal pardo mamífero achincalhado
Na sujidade dos passeios incólumes onde não quero ficar
Esta resignação que me avassala doma e flagela
É o sorriso parado na beira do lago
Se às águas límpidas não se vêem
Não se tocam
Lavram-se lençóis com promessas nocturnas Impossíveis
Acerca da pureza dos líquidos e hiatos de risos
Hienas Camaleões de sentidos Senhores dEUSES
Cirroses programadas em vómitos sazonais
De azul e verde musgo Lápis sob a afia
Torcendo a língua quando adoça
O discurso não se afina agasta-se
O que devo ao que não percebo?
Quantos pregos são urgentes para purificar as mãos
Quantos coroas terei de experimentar até ao parto
Até parir outra sugestão impressionante ás vezes
Indiferente obtusa drageia de micro partículas de giz
No quadro dos meus olhos Razão

O que espero quando me aparto e me engulo
Nem a mim me é dito pelos ditadores segredos
Só mesmo ao postigo dos degredos noivados
De cálices de álcool e morte Abrem portas
Arcanjos Poços e Demónios in festa
Ando porque aprendi a andar Mas
Sem compreender porque ando
Sabe-me tudo a regras e regras a fel
Vendo-me à bondade e ao bem
Sem qualquer motivo fiel a mim mesmo

Ao lobo que em nós quer uivar
Às urtigas e aos miseráveis
Á inconsistência e liquidez
À execução dos indulgentes
Ao fogo que nos queima
E ao corroer do nosso sagrado corpo
Peço benção

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Desliza a espiral de braços
abertos envolvendo tudo
o que está para lá dela
mesma no sentido
de vir absorver
sagaz todo o
infinito
.

1, 2, 3,
1, 2, 3, 4,
1, 2,
1, 2,


Avoluma-se de horizonte a luz
Estreiam os pássaros a entoar
os olhos desafogam esperanças
Um compasso sedutor esconde as tristezas
quais amarguras ou quais certezas sabem
porventura chamar filho ao seu dejecto
Entregas-te homem que te fazes dia a dia
Porque afinal tudo é uma fábrica
que tem por limite o infinito
Emprega-te! Joga-te ao arrepio metálico de um grito
operário e mostra os dentes
Escolhe os teus melhores sapatos, os de boa sola
Para que façam pesado ruído ao marchar
quando a voz já não chega. Ouve-se melhor o couro
porque couro...procura couro
porque a solução é a loucura
e Deus é apenas mais um patrão,
um padre, um gestor, um sacristão, um encarregado,
Saladino um conquistador aclamado pelos seus mortos
É o balanço de uma interminável linha de sucessões
Sociais sofríveis, como um copo vazio e alguém a morrer afogado

O que procuras está em ti
Tem ritmo
Está onde os pássaros entoam sem perspectiva de soldo
A luz não fere
Onde os olhos não vomitam
E se esconde a simplicidade

Nada te parecerá menos belo
.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Quando sou outro

aprendi nas entrelinhas do asfalto a libertar o que nunca a mim me pertenceu
fiz cadernos copiosos de letrinhas certas sem nunca usar a borracha
aprendi a somar e a subtrair, a dividir e a tirar resultados
mas nunca me disseram que operava a minha vida
ensinaram-me sem qualquer aviso
hoje aprendi a não ter lágrimas e a não ter sequer pena de nada
não sou gelo mas também não me comove o recomeço
sem ter nada a ver com o assunto, lembro-me de um velho
ouvi-o já não sei onde neste país de velhos
dizia: "enquanto houver língua e dedo, não há mulher que meta medo"
Que assim seja a vida
Simples

....

Quantas vezes se ergueu o sol sobre os meus ombros, que o mundo se assombrou por mim?
Poucas vezes sou eu, o filho vetusto, mordedura de cabra me moldou.
Falo de mim mesmo, se de outro poderia dizer pior. E não pensem que fico sem resposta. Cravarei os dentes nos meus dentes caso me desagrade, por tudo juro que rebentarei por dentro, por tudo e porventura, por um dia de chuva no ventre de uma tempestade.



Nas dobras de um pano velho instala-se uma nova comunidade.
Vêm das terras raras.
Trazem consigo um ente sagrado, como um bispo ou um cardeal. Uma espécie privilegiada, capaz de adivinhar o futuro e respeitar o passado. Tais entes, sentem profundamente a frescura de uma Gota caída de uma folha matinal, sem nunca se esquecerem dos prazeres do queijo. Apesar da sua grandeza gigantesca, não se coíbem a prostrarem-se ao chão de olhos arregalados com alguma singela beleza que passa. Pequena, como que a tentar passar despercebida.
Seja facto, quem a percebe!? Como entender algo tão pequeno? Toda a grandeza que encerrar será fraca medida! Todos os filhos que tiver serão mais pequenos, inúteis, do que ela, como aves sem asas e bico para comer. Reparem, é como estar por cima, de olhos pendurados como um céu, e descuidadamente escorrer pelos mesmos batoques, caindo em algo menor. Ali, no reboliço das folhas com tons outonais, um sopro quase quente, quase gélido, arrepia qualquer bispo, qualquer Papa, fazendo-os acreditar. Constrói-se! No meio do estrume diário regista-se o milagre da fé, cada vez mais raro. É esse nosso lado humano que ressalta nas fendas das mãos que se abraçam. Afinal de contas, são irmãos, têm a mesma carne, e o mesmo sangue. Juntas, são como o cálice, elas são o Graal. Destrói-se! Qual será a sensação de uma pele arrancada ao seu corpo, que dores exultaram daí? Mas não procuro o lado da vítima. Procuro o alfaiate, o alforgeiro, albardeiro, alarve, alarvado, acuso a fábrica, o ventre, a placenta mal formada, e o atilho que trazia tal veneno.
Ah, dia mal tecido nos teares de Clotó!
O facilitismo preponderante da acção nunca se acometeu a ser remediado pelo pragmatismo. Nem por sonhos, nem por ideais se completou de continuidade o desejo, terminando sossegadamente ao destapar de uma nova descoberta. E, sempre quando tão perto da resposta!
A 8 de Outubro de 1926, eu ainda não era nascido. Cem anos antes não acontecia em Portugal nada de extraordinário pelos registos, sucediam-se apenas as Eleições para a Câmara dos Deputados. O certo é que a23/25 de Outubro, estalava a guerra civil que desaguaria na Independência do Brasil. O certo é que nesse século, Cézanne pintava o “Homem com Chapéu de Palha”; Korsakov compunha, “Ivan, o terrível”; e Rimbaud Escrevia “Uma Época no Inferno”. Rimbaud tinha 17 anos. A única semelhança comigo...o nome “Artur”. Garanto-vos!
É enigmático o tempo, sobretudo aquele que nos percorre.
Pode um Dia ser tão importante para nós, com outros tantos a surgir como insignificantes, e se os anos também podem ser assim, já oiço perigosamente dizer o mesmo das vidas. Nada a ver com grandeza ou pequenez! Não se prende esta coisa, este processo, este andar pelo mundo, somente de quem se fala na história, nos media, nos acervos e epígrafes. Há algo mais democrático, há algo mais de eterno no transitório. Uma pegada. Um montículo sob o húmus. O nome que se deixa para alguém. Tanta história esquecida. Tantas lutas. A estranheza das nossas veias. O Nariz que não tem igual. Tantas lutas, tantas que é para isso que nos servem os dias! Para lutar contra nós próprios e contra a história. Contra o tempo.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Cantiga do Monco

O puto de dedo na boca
Com ranho a sair do nariz
Chorava por sua mãe
Maria Quero um Pai
Para ser feliz

Sua mãe nascera solteira
E pouco podia fazer
Tinha a cara tão feia
Maria não
Não olhes para mim

O puto de berro armado
Gritava que se enchia
Chorava a sua mãe
Maria é noite e eu
Quero o dia

Lá vai a desengraçada
Ninguém a vai tender
Tinha o rosto tão feio
Maria não
Não me olhes assim

O puto cresceu pequeno
Era Criança de arnilha
Chorava por rebelão i ó ai
Maria mãe, minha ilha

Lá vão os dois a cavalo
Numa dura salmoura
Vinham de cara lavada
Maria não
Não venhas para aqui

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Mão



Mão branda nos afaga
A fronte onde nos beijam
Ai gesto que nos queima
Acende qualquer coisa
A ânsia que nos leva, ao
Absurdo do carinho

Soubesse dar ao cais
Como gota da rua
Fizesse moradia
Em bairro de punhais
E a minha voz partia
A minha voz partia
Jamais se ouviria
Já mais alguém rezava
A bordo da balada

Ter vento nos beirais
Angústias sepultadas, ai
Enfado que nos traz
Vazios à chegada
Por ter sangue por pedra, por
Defeito, e por pecado

Quisesse sem querer
Como alma só
Fizesse sem porquê
Em força de amar
E a minha voz partia
A minha voz quebrava
E talvez um dia
A tua mão sentisse
Sem ter medo do Nada!

terça-feira, janeiro 03, 2006

[Pouca Terra]





No balanço do comboio
Vai um circo de casacos, de cores,
De personagens, e nevoeiro; adormecidos

Ao sorver tantas cidades
Vou parando nas saudades
Do que ficou para trás
Vem o cansaço do palhaço
Vista de malabarista
E sapatos de água-rás
O anão que é contratado
A mim que canto o fado
De que serve a pequenez
Sou a anca bailarina
O chinês de loiça fina
Recomeço outra vez...

(Onde
Vai bem
Mergulhar
Mas baixinho)

Alguma forma há-de haver
Para acordar e manter este balanço
Passo quieto e [(só) por] dentro danço

No balanço do comboio
Faço espelhos e bonecos de papel
Onde me vejo, a chegar, entorpecido
Onde
Sabe bem
Mergulhar
Devagarinho

Alguma forma há-de haver
Para acordar e manter este balanço
Passo quieto e [(só) por] dentro danço

Ao chinês que canta o fado
Ao pequeno contratado
Ao porteiro revisor
Ao tambor apalhaçado
À mulher da loiça fina
Vou sustendo este balanço
De que serve ter sentido
Mesmo à velha concertina
Se ficou tudo para trás
Vou dançando este caminho
Recomeço outra vez
Com sapatos de água-rás

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Espelhado


Criando uma ruptura em qualquer ponto da pele surge consequente inundação de sangue como se a abundância fosse o caso. Não se omitirá a vontade com que se cresce desde que à partida se veja o fundo do prato da sopa. Pelo menos uma vez por dia. Pelo menos sim, desde que sobejamente têm sido apreciados os ovos dos Dinossauros como se se pudesse comprar o tempo. Rio-me só a pensar em tamanhos de galinheiro, pois é melhor perder-me em pensamentos idiotas do que me perder como outro qualquer idiota por pensamentos ordinários. É tudo uma questão de quem chega primeiro. Estão a ver? Como num espelho. Quem chega primeiro? Nós ou o reflexo? E se por acaso surgir primeiro o reflexo, Bem, gosto de pensar que os ponteiros do relógio Se surgem depois do tempo é porque estão atrasados. E, se em frente ao espelho não vemos ainda o nosso reflexo é porque estamos adiantados. Parece assim possível que nos espelhemos no tempo ao que a nossa percepção se reflecte de um reflexo, ora atrasado ora adiantado, ora em ruptura ora em abundância. E, finalmente, o formato da imagem dependerá apenas da particularidade do espelho que usamos. O Presente, é o nosso melhor amigo, e percebe-se espelhado! O passado, precisa de Luz e um vidro transparente onde se possa sobrepor, quando o Futuro se adivinha de costas e olhos fechados. Punhos cerrados.

Feliz Natal, E, Bom Ano Novo

quinta-feira, novembro 03, 2005

De vagar nesta canoa

Urge de novo
o aperto
Que tudo fosse diferente,
Hoje não sou eu, hoje sou outro,
Ontem fui ardente

Morreu em mim
a vontade,
vi quebrar a paixão,
razão pungente não se gasta
numa só desilusão.

Estende-se o nojo
À entrega,
Sombra crua que atraiçoa.
Como raiva, como ordens
No balanço da Canoa.

O silêncio destas águas
Não serena nem se apaga
Consiste na fobia
Sempre em riste, coisa rara

O dia que não me doa,
Vagueando por mim mesmo
Na corja do boto esmo,
De vagar nesta canoa.

quinta-feira, outubro 27, 2005

superficial

Continuamente


Este vazio dói-me mais do que qualquer outra dor

Vazio que tem nome e é quase sepulcral

Triste realidade, amarga como o sonho.

Tento por tudo permanecer acordado

Incessantemente

Tento, sabendo-me cansado de tentar

Tento-me,

Vou viver a mentira porque é mais fácil,

Porque nunca soube significar


Algo maior do que o meu consciente

Em toda a metafísica da minha razão.

Como o amor que nunca foi mais que palavra,

Jamais passou de intenção e se questiona.

O mundo é feito de cenários inventados...

A verdade não existe. É verdade que não existe!

É somente uma expressão, um desejo, uma flor

Sem a qual não faz sentido um jardim

após ter aberto a mãos um buraco à medida



E o jardineiro sem acepção

continua a regar aquele vazio

Incessantemente

sempre

sem que seja uma escolha

talvez, por mera rotina do seu ser.

É um zelo de profissão

é para isso que é pago

é a insanidade da repetição

é o que supostamente não se deve fazer

é o que supostamente não se deve fazer

é a comédia aos olhos dos outros e a loucura

nos comentários dos outros

e não se nota que a ele não lhe interessam

os outros

...

Ninguém o ouve a respirar



Atentamente se nota que não respira



...



ele canta ao invés, o seu encantamento...



ele não respira



De que matéria somos feitos?

Aparentemente, seríamos apenas números

E as dores são números?

Não são de facto tragédias, porque essas são formulas,

tendem a obedecer!

e O que é a liberdade?



Da liberdade sei apenas que acaba com um Não

reconheço-a apenas em lágrimas secas

que não se atrevem a sair e nos secam

para que se toque o resto de forma superficial

representando a melhor e mais conformada das mentiras

a falsa continuidade dos dias.

sábado, outubro 01, 2005

Memória

Que mundos nos vão na memória? Há algo distorcido na lembrança, talvez pela vontade. Se pudesse recontar a minha história...talvez fizesse melhor, mas esse melhor depende apenas do agora. E agora? o que será melhor? Melhor Melhor Melhor Melhor, toda a vida temos de ir mais além superando e crescendo. Ah, quero é pedras, frias no Verão, quentes no Inverno. Quero espinhos na pele em vez de poros. Impermeável.
E continuo à espera, à cadência do relógio, talvez à espera de um fim, como que um começo. Haverá veneno que me preencha as veias e sature o monstro produto da vida educada por transmontanos, da alimentação cheia de fermento das carcaças, da televisão dos anos 80, dos óculos do Ramalho Eanes, os desfiles militares, o Mário Soares com aquele penteado às ondinhas, a figura mítica de um Sá Carneiro que recordo levemente, vestido com aqueles fatos que se vestiam em França, as saias por cima do joelho com collants castanhos, e as feijoadas com ovo da minha tia, a arma fanada dos tempos de recruta dos meus primos mais velhos, e das revistas porno percorridas às escondidas, dos caramelos espanhóis do natal, do camião da coca cola a pilhas que desmontei por prazer e curiosidade, das couves e batatas da horta, e dos baldes de água que me aleijavam os dedos, água da mina cheia de libelinhas, onde brincava sozinho, no meio das árvores, e com camisolas de lã feitas pela minha mãe que me picavam pele fina de criança, a pedrada que levei na cabeça e trespassou o lenço de sangue da contínua que me levou aos bombeiros, os putos do horário da manhã a recuar perante um ciganito armado de uma navalha, uma escola inteira, os trocos que gamei aos meus pais para comer gelados e comprar cromos da pantera cor de rosa naquela papelaria junto à escola, onde encontrei quinhentos escudos, e o dono já deve ter morrido, as viagens no auto carro para a escola de Mira Sintra com a miudagem a fazer "surf" naquela descida enorme, os suspiros do quiosque, a primeira coça que levei de outros putos, os dedos cortados no x-acto, as férias em Trás-os-Montes, a praia das maças ou a parede, com a minha mãe sempre aflita, porque eu pensava ser um peixe, as rochas com curiosos e fugidios caranguejos, sozinho no mar, a bicicleta que ganhei ao vir para a Damaia, e com a qual esburaquei um joelho, a vida da preparatória onde decidi vir a ser arqueólogo, as baldas às aulas para ir explorar os esgotos de Alfragide, onde a criançada curtia uma saída de água no final do túnel escuro, os tubos com que se disparavam as bagas, os intervalos a correr para o atelier de pintura, paixão dos 11/12 anos, com as barbas do Rui Pedro Chorão que eu adorava como um pai, a exposição das pinturas, as que os meus pais mais tarde deitaram fora, a macaca, a ciranda com os meus vizinhos angolanos, o soco que dei no Chano por ele me chamar gordo, ficou por chão e eu senti que o poder sabe demasiado bem, os jogos de computador em casa do mais gordo e papa-açorda que tinha um irmão deficiente com que os putos gozavam na escola e eu não gostava, o irmão do João Paulo atirava-se para o chão por um rebuçado, e os putos da moda então, hoje, não dizem nada a ninguém, a secundária onde encontrei uns matulões convencidos que infernizavam a vida dos mais novos, o ano que chumbei por ter pressa de viver, por não gostar de dizer “não” há vida, as voltas à interminável secundária, as primeiras paixões, a Ana Clara (hoje não me apaixonaria por ninguém com este nome), o momento em que soube que seria sempre tímido e demasiado inibido, timorato, até ao dia em que alguém me engatou, todos aqueles anos de secundária em que era sobretudo barra a história, as noites que passava na biblioteca da escola a ler porque os meus pais nunca foram de comprar livros, o décimo segundo ano a ter aulas com a "maluca" de filosofia, imagem que adorei ter conhecido, que personagem, e eu delegado de turma, que imaginação dos meus colegas, a entrada para Coimbra, anunciada estava eu neste computador a jogar uma porcaria qualquer, e depois Coimbra.
Coimbra é outro capítulo, como o meu nascimento o é na memória dos meus pais.