
Há poucos meses nasceu este projecto chamado Respigarte
Têm-se dados os primeiros passos timidamente, em processo de aprendizagem.
Prentende-se melhorar um pouco mais a cena cultural da nossa autarquia, da nossa região, do nosso país, e porque não do nosso mundo. Respigar arte, fazer da espiga miúda o pão, colher o que se deixa esquecido por não ser comercializável. Ainda existem pessoas irrequietas e pessoas de bons principios a querer mudar qualquer coisa que os deixa insatisfeitos. Foi curioso verificar a rapidez com muitos se identificaram a este ideal de respigador.
A quem ainda ler este blogue, faz-se o convite para se juntar a nós. Ou pelo menos, se o desejarem podem auxiliar-nos, com livros que tenham a mais, com pessoas que conheçam e queiram mostrar um pouco da sua arte, com dinheiro também mas não é de facto essêncial, a forma perfeita de ajuda é mesmo a de respigar procurando novas espigas esquecidas.
Quem queira conhecer um pouco mais dos objectivos desta associação que me envie um email para artmiserra@hotmail.com ou para respigarte@gmail.com
terça-feira, junho 27, 2006
ASSOCIAÇÃO RESPIGARTE
Publicada por Artur à(s) 2:36 a.m. 0 comentários
passagem
Existe em mim outra pessoa. Tem o hábito da fuga, a pressa dos instantes, detém a paixão pelos movimentos eternos. Encontrou um caderninho antigo no outro dia. Parecia estar esquecido. Ambos estavam esquecidos. Folheou o caderno avidamente como se o passado fosse o instante a viver de seguida, folheou-o sem se encontrar nesse futuro. Compreendeu então a teimosia com que persistia em mim, fez as malas e pirou-se. Estava sentado numa destas estações de caminho de ferro dos arredores de Lisboa e a brisa erguia-se tão doce que tinha sabor. Sei apenas que chegou um comboio à linha número 4, a mesma em que eu estava à espera e tive apenas a vontade de ficar ali sem pressas, deixando partir o comboio, a acompanhar esse movimento de partida. Mais tarde ou mais cedo estará de volta.
Publicada por Artur à(s) 12:00 a.m. 0 comentários
sábado, abril 08, 2006
...
NÃO PERCEBO NADA DE MÚSICA
NÃO PERCEBO NADA DE CERÂMICAS COM COZEDURA OXIDANTE OU NÃO OXIDANTE
NÃO PERCEBO NADA DE CULINÁRIA
NÃO PERCEBO NADA DE AMOR
NÃO PERCEBO O QUE DIGO PERCEBER
NÃO PERCEBO O QUE ME DIZEM
NÃO PERCEBO PORQUE TÊM OS OUTROS DE TER RAZÃO
NÃO PERCEBO QUEM TEM MAIS RAZÃO
NÃO PERCEBO A RAZÃO
NÃO PERCEBO NADA DE SER UM HOMEM ADULTO NO MEIO DOS HOMENS E MULHERES ADULTOS
NÃO PERCEBO NADA DO QUE SE PASSA À MINHA VOLTA
NÃO PERCEBO PORQUE SE FALA E NÃO SE FAZ
NÃO PERCEBO PORQUE SE IMAGINA E NÃO SE TÊM
NÃO PERCEBO
NÃO PERCEBO
SOU SOMENTE UM IDIOTA QUE FINGE COMO QUALQUER OUTRO IDIOTA
A MINHA ESPÉCIE
Publicada por Artur à(s) 3:19 p.m. 3 comentários
quarta-feira, março 22, 2006
Ad Eternum
loucura loucura loucura
loucura loucura
loucura...
louCURA...loucura
...
há neste estado clínico uma palavra que me teima
Publicada por Artur à(s) 1:14 a.m. 1 comentários
sexta-feira, março 10, 2006
Oração
Ao sobre vento que sobre a minha cabeça sussurra
À loucura e ao imediato ao pensamento soergo e relevo
Os sulcos marcados na pedra diste da minha lembrança
Na cidade triste menina de uma criança
Enrola-se a lágrima de choro perfumado a pinho
Pungente pinta de animal pardo mamífero achincalhado
Na sujidade dos passeios incólumes onde não quero ficar
Esta resignação que me avassala doma e flagela
É o sorriso parado na beira do lago
Se às águas límpidas não se vêem
Não se tocam
Lavram-se lençóis com promessas nocturnas Impossíveis
Acerca da pureza dos líquidos e hiatos de risos
Hienas Camaleões de sentidos Senhores dEUSES
Cirroses programadas em vómitos sazonais
De azul e verde musgo Lápis sob a afia
Torcendo a língua quando adoça
O discurso não se afina agasta-se
O que devo ao que não percebo?
Quantos pregos são urgentes para purificar as mãos
Quantos coroas terei de experimentar até ao parto
Até parir outra sugestão impressionante ás vezes
Indiferente obtusa drageia de micro partículas de giz
No quadro dos meus olhos Razão
O que espero quando me aparto e me engulo
Nem a mim me é dito pelos ditadores segredos
Só mesmo ao postigo dos degredos noivados
De cálices de álcool e morte Abrem portas
Arcanjos Poços e Demónios in festa
Ando porque aprendi a andar Mas
Sem compreender porque ando
Sabe-me tudo a regras e regras a fel
Vendo-me à bondade e ao bem
Sem qualquer motivo fiel a mim mesmo
Ao lobo que em nós quer uivar
Às urtigas e aos miseráveis
Á inconsistência e liquidez
À execução dos indulgentes
Ao fogo que nos queima
E ao corroer do nosso sagrado corpo
Peço benção
Publicada por Artur à(s) 7:30 p.m. 0 comentários
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
abertos envolvendo tudo
o que está para lá dela
mesma no sentido
de vir absorver
infinito
.
1, 2, 3,
1, 2, 3, 4,
1, 2,
1, 2,
Avoluma-se de horizonte a luz
Estreiam os pássaros a entoar
os olhos desafogam esperanças
Um compasso sedutor esconde as tristezas
quais amarguras ou quais certezas sabem
porventura chamar filho ao seu dejecto
Entregas-te homem que te fazes dia a dia
Porque afinal tudo é uma fábrica
que tem por limite o infinito
Emprega-te! Joga-te ao arrepio metálico de um grito
operário e mostra os dentes
Escolhe os teus melhores sapatos, os de boa sola
Para que façam pesado ruído ao marchar
quando a voz já não chega. Ouve-se melhor o couro
porque couro...procura couro
porque a solução é a loucura
e Deus é apenas mais um patrão,
um padre, um gestor, um sacristão, um encarregado,
Saladino um conquistador aclamado pelos seus mortos
É o balanço de uma interminável linha de sucessões
Sociais sofríveis, como um copo vazio e alguém a morrer afogado
O que procuras está em ti
Tem ritmo
Está onde os pássaros entoam sem perspectiva de soldo
A luz não fere
Onde os olhos não vomitam
E se esconde a simplicidade
Nada te parecerá menos belo
Publicada por Artur à(s) 2:27 p.m. 0 comentários
sexta-feira, janeiro 20, 2006
Quando sou outro
aprendi nas entrelinhas do asfalto a libertar o que nunca a mim me pertenceu
fiz cadernos copiosos de letrinhas certas sem nunca usar a borracha
aprendi a somar e a subtrair, a dividir e a tirar resultados
mas nunca me disseram que operava a minha vida
ensinaram-me sem qualquer aviso
hoje aprendi a não ter lágrimas e a não ter sequer pena de nada
não sou gelo mas também não me comove o recomeço
sem ter nada a ver com o assunto, lembro-me de um velho
ouvi-o já não sei onde neste país de velhos
dizia: "enquanto houver língua e dedo, não há mulher que meta medo"
Que assim seja a vida
Simples
Publicada por Artur à(s) 5:26 p.m. 0 comentários
....
Quantas vezes se ergueu o sol sobre os meus ombros, que o mundo se assombrou por mim?
Poucas vezes sou eu, o filho vetusto, mordedura de cabra me moldou.
Falo de mim mesmo, se de outro poderia dizer pior. E não pensem que fico sem resposta. Cravarei os dentes nos meus dentes caso me desagrade, por tudo juro que rebentarei por dentro, por tudo e porventura, por um dia de chuva no ventre de uma tempestade.
Nas dobras de um pano velho instala-se uma nova comunidade.
Vêm das terras raras.
Trazem consigo um ente sagrado, como um bispo ou um cardeal. Uma espécie privilegiada, capaz de adivinhar o futuro e respeitar o passado. Tais entes, sentem profundamente a frescura de uma Gota caída de uma folha matinal, sem nunca se esquecerem dos prazeres do queijo. Apesar da sua grandeza gigantesca, não se coíbem a prostrarem-se ao chão de olhos arregalados com alguma singela beleza que passa. Pequena, como que a tentar passar despercebida.
Seja facto, quem a percebe!? Como entender algo tão pequeno? Toda a grandeza que encerrar será fraca medida! Todos os filhos que tiver serão mais pequenos, inúteis, do que ela, como aves sem asas e bico para comer. Reparem, é como estar por cima, de olhos pendurados como um céu, e descuidadamente escorrer pelos mesmos batoques, caindo em algo menor. Ali, no reboliço das folhas com tons outonais, um sopro quase quente, quase gélido, arrepia qualquer bispo, qualquer Papa, fazendo-os acreditar. Constrói-se! No meio do estrume diário regista-se o milagre da fé, cada vez mais raro. É esse nosso lado humano que ressalta nas fendas das mãos que se abraçam. Afinal de contas, são irmãos, têm a mesma carne, e o mesmo sangue. Juntas, são como o cálice, elas são o Graal. Destrói-se! Qual será a sensação de uma pele arrancada ao seu corpo, que dores exultaram daí? Mas não procuro o lado da vítima. Procuro o alfaiate, o alforgeiro, albardeiro, alarve, alarvado, acuso a fábrica, o ventre, a placenta mal formada, e o atilho que trazia tal veneno.
Ah, dia mal tecido nos teares de Clotó!
O facilitismo preponderante da acção nunca se acometeu a ser remediado pelo pragmatismo. Nem por sonhos, nem por ideais se completou de continuidade o desejo, terminando sossegadamente ao destapar de uma nova descoberta. E, sempre quando tão perto da resposta!
A 8 de Outubro de 1926, eu ainda não era nascido. Cem anos antes não acontecia em Portugal nada de extraordinário pelos registos, sucediam-se apenas as Eleições para a Câmara dos Deputados. O certo é que a23/25 de Outubro, estalava a guerra civil que desaguaria na Independência do Brasil. O certo é que nesse século, Cézanne pintava o “Homem com Chapéu de Palha”; Korsakov compunha, “Ivan, o terrível”; e Rimbaud Escrevia “Uma Época no Inferno”. Rimbaud tinha 17 anos. A única semelhança comigo...o nome “Artur”. Garanto-vos!
É enigmático o tempo, sobretudo aquele que nos percorre.
Pode um Dia ser tão importante para nós, com outros tantos a surgir como insignificantes, e se os anos também podem ser assim, já oiço perigosamente dizer o mesmo das vidas. Nada a ver com grandeza ou pequenez! Não se prende esta coisa, este processo, este andar pelo mundo, somente de quem se fala na história, nos media, nos acervos e epígrafes. Há algo mais democrático, há algo mais de eterno no transitório. Uma pegada. Um montículo sob o húmus. O nome que se deixa para alguém. Tanta história esquecida. Tantas lutas. A estranheza das nossas veias. O Nariz que não tem igual. Tantas lutas, tantas que é para isso que nos servem os dias! Para lutar contra nós próprios e contra a história. Contra o tempo.
Publicada por Artur à(s) 11:52 a.m. 0 comentários
sexta-feira, janeiro 06, 2006
Cantiga do Monco
O puto de dedo na boca
Com ranho a sair do nariz
Chorava por sua mãe
Maria Quero um Pai
Para ser feliz
Sua mãe nascera solteira
E pouco podia fazer
Tinha a cara tão feia
Maria não
Não olhes para mim
O puto de berro armado
Gritava que se enchia
Chorava a sua mãe
Maria é noite e eu
Quero o dia
Lá vai a desengraçada
Ninguém a vai tender
Tinha o rosto tão feio
Maria não
Não me olhes assim
O puto cresceu pequeno
Era Criança de arnilha
Chorava por rebelão i ó ai
Maria mãe, minha ilha
Lá vão os dois a cavalo
Numa dura salmoura
Vinham de cara lavada
Maria não
Não venhas para aqui
Publicada por Artur à(s) 4:10 p.m. 2 comentários
quarta-feira, janeiro 04, 2006
Mão
Mão branda nos afaga
A fronte onde nos beijam
Ai gesto que nos queima
Acende qualquer coisa
A ânsia que nos leva, ao
Absurdo do carinho
Soubesse dar ao cais
Como gota da rua
Fizesse moradia
Em bairro de punhais
E a minha voz partia
A minha voz partia
Jamais se ouviria
Já mais alguém rezava
A bordo da balada
Ter vento nos beirais
Angústias sepultadas, ai
Enfado que nos traz
Vazios à chegada
Por ter sangue por pedra, por
Defeito, e por pecado
Quisesse sem querer
Como alma só
Fizesse sem porquê
Em força de amar
E a minha voz partia
A minha voz quebrava
E talvez um dia
A tua mão sentisse
Sem ter medo do Nada!
Publicada por Artur à(s) 11:26 p.m. 0 comentários
terça-feira, janeiro 03, 2006
[Pouca Terra]

No balanço do comboio
Vai um circo de casacos, de cores,
De personagens, e nevoeiro; adormecidos
Ao sorver tantas cidades
Vou parando nas saudades
Do que ficou para trás
Vem o cansaço do palhaço
Vista de malabarista
E sapatos de água-rás
O anão que é contratado
A mim que canto o fado
De que serve a pequenez
Sou a anca bailarina
O chinês de loiça fina
Recomeço outra vez...
(Onde
Vai bem
Mergulhar
Mas baixinho)
Alguma forma há-de haver
Para acordar e manter este balanço
Passo quieto e [(só) por] dentro danço
No balanço do comboio
Faço espelhos e bonecos de papel
Onde me vejo, a chegar, entorpecido
Onde
Sabe bem
Mergulhar
Devagarinho
Alguma forma há-de haver
Para acordar e manter este balanço
Passo quieto e [(só) por] dentro danço
Ao chinês que canta o fado
Ao pequeno contratado
Ao porteiro revisor
Ao tambor apalhaçado
À mulher da loiça fina
Vou sustendo este balanço
De que serve ter sentido
Mesmo à velha concertina
Se ficou tudo para trás
Vou dançando este caminho
Recomeço outra vez
Com sapatos de água-rás
Publicada por Artur à(s) 9:18 p.m. 0 comentários
segunda-feira, dezembro 26, 2005
Espelhado

Criando uma ruptura em qualquer ponto da pele surge consequente inundação de sangue como se a abundância fosse o caso. Não se omitirá a vontade com que se cresce desde que à partida se veja o fundo do prato da sopa. Pelo menos uma vez por dia. Pelo menos sim, desde que sobejamente têm sido apreciados os ovos dos Dinossauros como se se pudesse comprar o tempo. Rio-me só a pensar em tamanhos de galinheiro, pois é melhor perder-me em pensamentos idiotas do que me perder como outro qualquer idiota por pensamentos ordinários. É tudo uma questão de quem chega primeiro. Estão a ver? Como num espelho. Quem chega primeiro? Nós ou o reflexo? E se por acaso surgir primeiro o reflexo, Bem, gosto de pensar que os ponteiros do relógio Se surgem depois do tempo é porque estão atrasados. E, se em frente ao espelho não vemos ainda o nosso reflexo é porque estamos adiantados. Parece assim possível que nos espelhemos no tempo ao que a nossa percepção se reflecte de um reflexo, ora atrasado ora adiantado, ora em ruptura ora em abundância. E, finalmente, o formato da imagem dependerá apenas da particularidade do espelho que usamos. O Presente, é o nosso melhor amigo, e percebe-se espelhado! O passado, precisa de Luz e um vidro transparente onde se possa sobrepor, quando o Futuro se adivinha de costas e olhos fechados. Punhos cerrados.
Feliz Natal, E, Bom Ano Novo
Publicada por Artur à(s) 12:58 a.m. 1 comentários
quinta-feira, novembro 03, 2005
De vagar nesta canoa
Urge de novo
o aperto
Que tudo fosse diferente,
Hoje não sou eu, hoje sou outro,
Ontem fui ardente
Morreu em mim
a vontade,
vi quebrar a paixão,
razão pungente não se gasta
numa só desilusão.
Estende-se o nojo
À entrega,
Sombra crua que atraiçoa.
Como raiva, como ordens
No balanço da Canoa.
O silêncio destas águas
Não serena nem se apaga
Consiste na fobia
Sempre em riste, coisa rara
O dia que não me doa,
Vagueando por mim mesmo
Na corja do boto esmo,
De vagar nesta canoa.
Publicada por Artur à(s) 10:43 p.m. 0 comentários
quinta-feira, outubro 27, 2005
superficial
Continuamente
Este vazio dói-me mais do que qualquer outra dor
Vazio que tem nome e é quase sepulcral
Triste realidade, amarga como o sonho.
Tento por tudo permanecer acordado
Incessantemente
Tento, sabendo-me cansado de tentar
Tento-me,
Vou viver a mentira porque é mais fácil,
Porque nunca soube significar
Algo maior do que o meu consciente
Em toda a metafísica da minha razão.
Como o amor que nunca foi mais que palavra,
Jamais passou de intenção e se questiona.
O mundo é feito de cenários inventados...
A verdade não existe. É verdade que não existe!
É somente uma expressão, um desejo, uma flor
Sem a qual não faz sentido um jardim
após ter aberto a mãos um buraco à medida
E o jardineiro sem acepção
continua a regar aquele vazio
Incessantemente
sempre
sem que seja uma escolha
talvez, por mera rotina do seu ser.
É um zelo de profissão
é para isso que é pago
é a insanidade da repetição
é o que supostamente não se deve fazer
é o que supostamente não se deve fazer
é a comédia aos olhos dos outros e a loucura
nos comentários dos outros
e não se nota que a ele não lhe interessam
os outros
...
Ninguém o ouve a respirar
Atentamente se nota que não respira
...
ele canta ao invés, o seu encantamento...
ele não respira
De que matéria somos feitos?
Aparentemente, seríamos apenas números
E as dores são números?
Não são de facto tragédias, porque essas são formulas,
tendem a obedecer!
e O que é a liberdade?
Da liberdade sei apenas que acaba com um Não
reconheço-a apenas em lágrimas secas
que não se atrevem a sair e nos secam
para que se toque o resto de forma superficial
representando a melhor e mais conformada das mentiras
a falsa continuidade dos dias.
Publicada por Artur à(s) 1:51 p.m. 1 comentários
sábado, outubro 01, 2005
Memória
Que mundos nos vão na memória? Há algo distorcido na lembrança, talvez pela vontade. Se pudesse recontar a minha história...talvez fizesse melhor, mas esse melhor depende apenas do agora. E agora? o que será melhor? Melhor Melhor Melhor Melhor, toda a vida temos de ir mais além superando e crescendo. Ah, quero é pedras, frias no Verão, quentes no Inverno. Quero espinhos na pele em vez de poros. Impermeável.
E continuo à espera, à cadência do relógio, talvez à espera de um fim, como que um começo. Haverá veneno que me preencha as veias e sature o monstro produto da vida educada por transmontanos, da alimentação cheia de fermento das carcaças, da televisão dos anos 80, dos óculos do Ramalho Eanes, os desfiles militares, o Mário Soares com aquele penteado às ondinhas, a figura mítica de um Sá Carneiro que recordo levemente, vestido com aqueles fatos que se vestiam em França, as saias por cima do joelho com collants castanhos, e as feijoadas com ovo da minha tia, a arma fanada dos tempos de recruta dos meus primos mais velhos, e das revistas porno percorridas às escondidas, dos caramelos espanhóis do natal, do camião da coca cola a pilhas que desmontei por prazer e curiosidade, das couves e batatas da horta, e dos baldes de água que me aleijavam os dedos, água da mina cheia de libelinhas, onde brincava sozinho, no meio das árvores, e com camisolas de lã feitas pela minha mãe que me picavam pele fina de criança, a pedrada que levei na cabeça e trespassou o lenço de sangue da contínua que me levou aos bombeiros, os putos do horário da manhã a recuar perante um ciganito armado de uma navalha, uma escola inteira, os trocos que gamei aos meus pais para comer gelados e comprar cromos da pantera cor de rosa naquela papelaria junto à escola, onde encontrei quinhentos escudos, e o dono já deve ter morrido, as viagens no auto carro para a escola de Mira Sintra com a miudagem a fazer "surf" naquela descida enorme, os suspiros do quiosque, a primeira coça que levei de outros putos, os dedos cortados no x-acto, as férias em Trás-os-Montes, a praia das maças ou a parede, com a minha mãe sempre aflita, porque eu pensava ser um peixe, as rochas com curiosos e fugidios caranguejos, sozinho no mar, a bicicleta que ganhei ao vir para a Damaia, e com a qual esburaquei um joelho, a vida da preparatória onde decidi vir a ser arqueólogo, as baldas às aulas para ir explorar os esgotos de Alfragide, onde a criançada curtia uma saída de água no final do túnel escuro, os tubos com que se disparavam as bagas, os intervalos a correr para o atelier de pintura, paixão dos 11/12 anos, com as barbas do Rui Pedro Chorão que eu adorava como um pai, a exposição das pinturas, as que os meus pais mais tarde deitaram fora, a macaca, a ciranda com os meus vizinhos angolanos, o soco que dei no Chano por ele me chamar gordo, ficou por chão e eu senti que o poder sabe demasiado bem, os jogos de computador em casa do mais gordo e papa-açorda que tinha um irmão deficiente com que os putos gozavam na escola e eu não gostava, o irmão do João Paulo atirava-se para o chão por um rebuçado, e os putos da moda então, hoje, não dizem nada a ninguém, a secundária onde encontrei uns matulões convencidos que infernizavam a vida dos mais novos, o ano que chumbei por ter pressa de viver, por não gostar de dizer “não” há vida, as voltas à interminável secundária, as primeiras paixões, a Ana Clara (hoje não me apaixonaria por ninguém com este nome), o momento em que soube que seria sempre tímido e demasiado inibido, timorato, até ao dia em que alguém me engatou, todos aqueles anos de secundária em que era sobretudo barra a história, as noites que passava na biblioteca da escola a ler porque os meus pais nunca foram de comprar livros, o décimo segundo ano a ter aulas com a "maluca" de filosofia, imagem que adorei ter conhecido, que personagem, e eu delegado de turma, que imaginação dos meus colegas, a entrada para Coimbra, anunciada estava eu neste computador a jogar uma porcaria qualquer, e depois Coimbra.
Coimbra é outro capítulo, como o meu nascimento o é na memória dos meus pais.
Publicada por Artur à(s) 11:03 p.m. 1 comentários
quinta-feira, setembro 29, 2005
titintintin tam tam
Ergue-me um templo
A poeira que se prende naquelas sandálias conta histórias de outras terras, outras fronteiras que poucos souberam romper. Misterioso caminhante, tem os olhos indecifráveis. Dizem que não tem alma.
A um homem que não se conhece a voz e se sabe sempre a vontade parece o diabo ter-lhe aberto os braços como um pai. A estranheza de quem não o entende está para além do calor da humana compreensão, e assim, o homem é afastado dos homens.
Um dia, um belo dia porém, algo muda após o esquecimento. Certamente, convém que sejam belos os dias, ou então tenebrosos, desde que não sejam simplesmente dias como os outros. Os dias normais são para homens normais. Os dias belos são para homens belos. E há também dias tenebrosos. A mudança avizinha-se por um fenómeno extraordinário, e várias camadas de terras esquecidas abaixo do solo contemporâneo decompõe-se algo insólito, enquanto que alguém sentado numa mesa branca de metal recortada em forma flor de amendoeira bebe um café carregado de açúcar mascavado e os putos jogam à bola com bibes azuis até tocar a campainha do recreio. Os sapatos ortopédicos já estiveram no circo, entre tanta palhaçada colorida mas ainda hoje se espera que saibam corrigir o andar desviado e vadio, biltre que se formou nas ruas da droga entre amigos de ocasião e copos de cerveja entornados sobre a calçada. As fugas da polícia, onde mesmo ali ao lado da esquadra, há 50 anos atrás, havia apenas uma árvore e um homem que se mataram por paixão, cravado no nó da corda, o homem, e a árvore, deixando-se tombar. No local onde o homem se veio após a morte cresceu uma mandrágora que soube amar aquele nome gravado como se mais nenhum outro existisse.
BAMMMM
CRRRRRRYYYYYYYYYYYYYUNNNN
O carro bateu de encontro a um gato gigante atravessado na garganta do padre e a missa terminou por ali.
Mas que politica social é esta? Já não vejo tantos pobres na rua! Ainda se vê um ou outro esfomeado e esfarrapado. Lá surge um ou outro. De vez em quando.
Mas a roupa já não me serve, e sou como um balão à procura do tempo perdido. Quanto mais alto me faço mais me aterro. O que se vê é para lá do incrível surrealista! Quero pensar em flores! São bonitas as flores de tantas cores crescendo estupidamente sobre coisas estranhas. Enterradas. Também há flores tenebrosas, que não se esquecem e se assemelham como extraordinárias.
Ergue-me um templo onde não te seja estranho! Onde a minha língua te saiba a vermelho.
Publicada por Artur à(s) 8:50 p.m. 0 comentários
quarta-feira, setembro 14, 2005
6:17
Seria, então, como dizer-lhe somente
olá
e deixá-la entrar e sentar-se, delicada; oferecer-lhe um cigarro (o último!) e ficar a beber bom vinho para o resto da Eternidade.
Sem pensar.
6:17 AM
Cansado de esperar, João olhou para ela no Sofá em frente, terminou o seu café e decidiu matar a morte.
Pelos vistos não temos uma Eternidade para esperar pela morte! Não quero dizer com isto que João procurasse a morte, não, nada disso, mas esperar 6 horas e 17 minutos sem tabaco em frente a uma figura delicada, sentado num sofá confortável, com os lábios manchados de vinho tinto, sem qualquer conversação, isso sim é de desesperar. Ainda para mais, ela nunca chegou a retorquir ao seu olá. Não se pode admitir!
De facto a Eternidade só é doce na memória dos outros. E, sim, sem tabaco e sem vinho prefiro não esperar mais! Tal como o joão.
Sem pensar.
Publicada por Artur à(s) 1:16 a.m. 2 comentários
sábado, setembro 10, 2005
Um estranho Anjo
Pequena Tentativa de Conto/Versão Revivida na Formula Lírica Idealista
Encontrava-me algures entre a meia-noite e uns certos minutos e aquele reflexo nocturno artificial. As sombras da noite nas cidades são sempre humanas!
Estava à beira do carro de uns amigos, bons conhecidos, que há pouco tempo atrás, cerca de 6 meses, faziam parte das mesmas sombras humanas e distantes, colonos dos mesmos minutos, mas incertos. Haviam-me proposto uma saída telefonicamente. É verdade que raramente saio de casa. Mas não há melhor sítio para estar, provavelmente. Aí encontro sempre que fazer, há sempre algo para descobrir, é infinita a procura em que subsisto nas minhas posses. Rendido à simpatia da insistência concordei em alinhar sem saber concretamente para onde ia. Mas que importa!? Fora de mim nunca compreendo bem onde estou. E pois, ali estava a entrar para o banco traseiro do automóvel, onde me sentei confortavelmente, encostado à porta. Seis meses que passaram.Encontrei-me, depois de um sorriso-resposta a uma conversa que em nada me puxou à atenção. Seguia os reflectores cadenciados nos mamarrachos erguidos em cimento cru a separar ambos os sentidos da estrada. Fossem os sentidos da vida separados por monólitos sólidos como estes e seria mais fácil a escolha do caminho a seguir. Mas afinal, se assim fosse, o destino seria uma estrada, condenando-nos à ditadura. Fossem aquelas luzinhas cadenciadas como estrelas, e as faixas brancas, ou carris, interrompidas pela negritude das paredes que na realidade são chão, mas na minha, nem por isso. Foi o que pensei. Havia mergulhado na eternidade do inalcançável, o invisível, e tudo o que podia ver à minha volta tinha ganho um brilho incomparável. Latente. Sabia evitar ferir-me os olhos. Acordei novamente dos minutos incertos com umas pontadas frias nas costas e um torpor na nuca.
Como por vezes se acredita que num segundo podemos mudar a face da nossa existência, e nisso se tem fé,e, talvez por querer vomitar aqueles seis meses de agonia, mal o carro arrancou imaginei um acidente. É um estranho hábito que tenho, em que me vejo morrer sem dor, em que a morbidez do sinistro não passa de um sorriso infantil, divertido, por nunca nisso ver mal, ou novamente, por nesse momento não sentir dor. Não é algo de tão importante, algo que se esmaga, qualquer coisa irrecuperável,o medo terrível que nos sopra ao ouvido a probabilidade da morte.
Recordo-me apenas do coroar de luzes esvoaçantes, esquizofrénicas, daquele turbilhão de cores, do metal a entrar-me na carne coroado de gelo ensanguentado, sangue que não se prende e não arde, que não nos faz temer, porque existe sempre a contrapartida afortunada da mera possibilidade. O sinistro tem a mesma propabilidade do não-sinistro. Ao que os lábios saberão sorrir sempre.
Acordei desses instantes incertos com as marcas das mãos nos ombros, estigmatizadas na pele, até ao profundo da minha carne.
Nesses momentos,incertos,parto sem destino e vou vagueando por aí, no estranho sentido de uma estranha procura, a que me sobrou, para no regresso julgar abrir os olhos e continuar sem mágoas alcançando a beleza de todas as coisas. É para mim o mais importante da vida, a beleza, sobretudo a que se esconde. Regressei àquele banco de tecido perfumado com a vida dos outros afundando-me até me apetecer abraçar o infinito, ou melhor um anjo perdido que agora me é estranho.
Publicada por Artur à(s) 5:24 p.m. 0 comentários
segunda-feira, setembro 05, 2005
Canção de Crescimento Demográfico Relativo
O diabo deu três voltas o diabo do rapaz
Deu três voltas à partida dizia não ser capaz
Faz-te à guerra soldadinho, já és homem tem de ser
Se não és mais pequenino há um preço para crescer
Já não és mais pequenino tua mãe já não te aguarda
Faz-te à guerra, soldadinho, pede colo à espingarda
O diabo deu três voltas, o diabo General
Deu três voltas à maralha ainda assim via tudo igual
Pois por cada soldadinho já lhe dava o desgosto
Viu mais sangue do que vinho escorrendo como mosto
Toda a guerra só se finda se não houver mais para dar
Do que lágrimas nas flores sobre caixa de enterrar
Um país nunca se enterra, a sua boca sabe a lei
Arma-se de soldadinhos, diz-se para obrar o bem
A semente que ele queima, nunca espiga, ou há-de ser,
Alimento para os velhos, e os velhos lidam até morrer
Foi-se embora o menino, eis um homem que se faz
Ao matar um outro homem que afinal era rapaz
Ai diabo que não voltas...
Publicada por Artur à(s) 7:51 p.m. 1 comentários
sexta-feira, agosto 05, 2005
5 MINUTOS
Se a minha vida se tornasse num filme a sério, e subitamente me fossem diagnosticados somente mais 5 minutos de vida...
o que faria? O que poderia suceder de derradeiro em tão escasso tempo? Talvez o suficiente para terminar um cigarro.
Finalmente, vou deixar de fumar. Será o meu último cigarro. Adeus, Ó grande malefício.
Agora, mais do que o que devo fazer, Em que devo pensar? Em alguém ou em algo? Em alguém certamente, ou em muitos outros, ou apenas em mim. O mais certo e imediato é pensar na morte que está prestes a empurrar-me do baloiço. Consome-me a ideia de estar Quase, quase a morrer, e estarão passados desde já, um minuto e meio. Merda, isto corre rápido. A vida apressa-se. Chega-me ao juízo a interrogação, algo mais que uma dúvida: Vou gostar mais de estar morto, ou não? E a Morte, que tipo de sensação estará inerente?
Apesar de tantas especulações, o final, esse contudo até o consigo prever em segundos. Um triunfante sorriso, o último do meu masso de sorrisos, porque finalmente vou deixar de pensar. Será esta a minha última expressão!
Publicada por Artur à(s) 12:10 a.m. 1 comentários