quinta-feira, novembro 03, 2005

De vagar nesta canoa

Urge de novo
o aperto
Que tudo fosse diferente,
Hoje não sou eu, hoje sou outro,
Ontem fui ardente

Morreu em mim
a vontade,
vi quebrar a paixão,
razão pungente não se gasta
numa só desilusão.

Estende-se o nojo
À entrega,
Sombra crua que atraiçoa.
Como raiva, como ordens
No balanço da Canoa.

O silêncio destas águas
Não serena nem se apaga
Consiste na fobia
Sempre em riste, coisa rara

O dia que não me doa,
Vagueando por mim mesmo
Na corja do boto esmo,
De vagar nesta canoa.

quinta-feira, outubro 27, 2005

superficial

Continuamente


Este vazio dói-me mais do que qualquer outra dor

Vazio que tem nome e é quase sepulcral

Triste realidade, amarga como o sonho.

Tento por tudo permanecer acordado

Incessantemente

Tento, sabendo-me cansado de tentar

Tento-me,

Vou viver a mentira porque é mais fácil,

Porque nunca soube significar


Algo maior do que o meu consciente

Em toda a metafísica da minha razão.

Como o amor que nunca foi mais que palavra,

Jamais passou de intenção e se questiona.

O mundo é feito de cenários inventados...

A verdade não existe. É verdade que não existe!

É somente uma expressão, um desejo, uma flor

Sem a qual não faz sentido um jardim

após ter aberto a mãos um buraco à medida



E o jardineiro sem acepção

continua a regar aquele vazio

Incessantemente

sempre

sem que seja uma escolha

talvez, por mera rotina do seu ser.

É um zelo de profissão

é para isso que é pago

é a insanidade da repetição

é o que supostamente não se deve fazer

é o que supostamente não se deve fazer

é a comédia aos olhos dos outros e a loucura

nos comentários dos outros

e não se nota que a ele não lhe interessam

os outros

...

Ninguém o ouve a respirar



Atentamente se nota que não respira



...



ele canta ao invés, o seu encantamento...



ele não respira



De que matéria somos feitos?

Aparentemente, seríamos apenas números

E as dores são números?

Não são de facto tragédias, porque essas são formulas,

tendem a obedecer!

e O que é a liberdade?



Da liberdade sei apenas que acaba com um Não

reconheço-a apenas em lágrimas secas

que não se atrevem a sair e nos secam

para que se toque o resto de forma superficial

representando a melhor e mais conformada das mentiras

a falsa continuidade dos dias.

sábado, outubro 01, 2005

Memória

Que mundos nos vão na memória? Há algo distorcido na lembrança, talvez pela vontade. Se pudesse recontar a minha história...talvez fizesse melhor, mas esse melhor depende apenas do agora. E agora? o que será melhor? Melhor Melhor Melhor Melhor, toda a vida temos de ir mais além superando e crescendo. Ah, quero é pedras, frias no Verão, quentes no Inverno. Quero espinhos na pele em vez de poros. Impermeável.
E continuo à espera, à cadência do relógio, talvez à espera de um fim, como que um começo. Haverá veneno que me preencha as veias e sature o monstro produto da vida educada por transmontanos, da alimentação cheia de fermento das carcaças, da televisão dos anos 80, dos óculos do Ramalho Eanes, os desfiles militares, o Mário Soares com aquele penteado às ondinhas, a figura mítica de um Sá Carneiro que recordo levemente, vestido com aqueles fatos que se vestiam em França, as saias por cima do joelho com collants castanhos, e as feijoadas com ovo da minha tia, a arma fanada dos tempos de recruta dos meus primos mais velhos, e das revistas porno percorridas às escondidas, dos caramelos espanhóis do natal, do camião da coca cola a pilhas que desmontei por prazer e curiosidade, das couves e batatas da horta, e dos baldes de água que me aleijavam os dedos, água da mina cheia de libelinhas, onde brincava sozinho, no meio das árvores, e com camisolas de lã feitas pela minha mãe que me picavam pele fina de criança, a pedrada que levei na cabeça e trespassou o lenço de sangue da contínua que me levou aos bombeiros, os putos do horário da manhã a recuar perante um ciganito armado de uma navalha, uma escola inteira, os trocos que gamei aos meus pais para comer gelados e comprar cromos da pantera cor de rosa naquela papelaria junto à escola, onde encontrei quinhentos escudos, e o dono já deve ter morrido, as viagens no auto carro para a escola de Mira Sintra com a miudagem a fazer "surf" naquela descida enorme, os suspiros do quiosque, a primeira coça que levei de outros putos, os dedos cortados no x-acto, as férias em Trás-os-Montes, a praia das maças ou a parede, com a minha mãe sempre aflita, porque eu pensava ser um peixe, as rochas com curiosos e fugidios caranguejos, sozinho no mar, a bicicleta que ganhei ao vir para a Damaia, e com a qual esburaquei um joelho, a vida da preparatória onde decidi vir a ser arqueólogo, as baldas às aulas para ir explorar os esgotos de Alfragide, onde a criançada curtia uma saída de água no final do túnel escuro, os tubos com que se disparavam as bagas, os intervalos a correr para o atelier de pintura, paixão dos 11/12 anos, com as barbas do Rui Pedro Chorão que eu adorava como um pai, a exposição das pinturas, as que os meus pais mais tarde deitaram fora, a macaca, a ciranda com os meus vizinhos angolanos, o soco que dei no Chano por ele me chamar gordo, ficou por chão e eu senti que o poder sabe demasiado bem, os jogos de computador em casa do mais gordo e papa-açorda que tinha um irmão deficiente com que os putos gozavam na escola e eu não gostava, o irmão do João Paulo atirava-se para o chão por um rebuçado, e os putos da moda então, hoje, não dizem nada a ninguém, a secundária onde encontrei uns matulões convencidos que infernizavam a vida dos mais novos, o ano que chumbei por ter pressa de viver, por não gostar de dizer “não” há vida, as voltas à interminável secundária, as primeiras paixões, a Ana Clara (hoje não me apaixonaria por ninguém com este nome), o momento em que soube que seria sempre tímido e demasiado inibido, timorato, até ao dia em que alguém me engatou, todos aqueles anos de secundária em que era sobretudo barra a história, as noites que passava na biblioteca da escola a ler porque os meus pais nunca foram de comprar livros, o décimo segundo ano a ter aulas com a "maluca" de filosofia, imagem que adorei ter conhecido, que personagem, e eu delegado de turma, que imaginação dos meus colegas, a entrada para Coimbra, anunciada estava eu neste computador a jogar uma porcaria qualquer, e depois Coimbra.
Coimbra é outro capítulo, como o meu nascimento o é na memória dos meus pais.

quinta-feira, setembro 29, 2005

titintintin tam tam

Ergue-me um templo
A poeira que se prende naquelas sandálias conta histórias de outras terras, outras fronteiras que poucos souberam romper. Misterioso caminhante, tem os olhos indecifráveis. Dizem que não tem alma.
A um homem que não se conhece a voz e se sabe sempre a vontade parece o diabo ter-lhe aberto os braços como um pai. A estranheza de quem não o entende está para além do calor da humana compreensão, e assim, o homem é afastado dos homens.
Um dia, um belo dia porém, algo muda após o esquecimento. Certamente, convém que sejam belos os dias, ou então tenebrosos, desde que não sejam simplesmente dias como os outros. Os dias normais são para homens normais. Os dias belos são para homens belos. E há também dias tenebrosos. A mudança avizinha-se por um fenómeno extraordinário, e várias camadas de terras esquecidas abaixo do solo contemporâneo decompõe-se algo insólito, enquanto que alguém sentado numa mesa branca de metal recortada em forma flor de amendoeira bebe um café carregado de açúcar mascavado e os putos jogam à bola com bibes azuis até tocar a campainha do recreio. Os sapatos ortopédicos já estiveram no circo, entre tanta palhaçada colorida mas ainda hoje se espera que saibam corrigir o andar desviado e vadio, biltre que se formou nas ruas da droga entre amigos de ocasião e copos de cerveja entornados sobre a calçada. As fugas da polícia, onde mesmo ali ao lado da esquadra, há 50 anos atrás, havia apenas uma árvore e um homem que se mataram por paixão, cravado no nó da corda, o homem, e a árvore, deixando-se tombar. No local onde o homem se veio após a morte cresceu uma mandrágora que soube amar aquele nome gravado como se mais nenhum outro existisse.
BAMMMM
CRRRRRRYYYYYYYYYYYYYUNNNN
O carro bateu de encontro a um gato gigante atravessado na garganta do padre e a missa terminou por ali.
Mas que politica social é esta? Já não vejo tantos pobres na rua! Ainda se vê um ou outro esfomeado e esfarrapado. Lá surge um ou outro. De vez em quando.
Mas a roupa já não me serve, e sou como um balão à procura do tempo perdido. Quanto mais alto me faço mais me aterro. O que se vê é para lá do incrível surrealista! Quero pensar em flores! São bonitas as flores de tantas cores crescendo estupidamente sobre coisas estranhas. Enterradas. Também há flores tenebrosas, que não se esquecem e se assemelham como extraordinárias.
Ergue-me um templo onde não te seja estranho! Onde a minha língua te saiba a vermelho.

quarta-feira, setembro 14, 2005

6:17

Seria, então, como dizer-lhe somente

olá

e deixá-la entrar e sentar-se, delicada; oferecer-lhe um cigarro (o último!) e ficar a beber bom vinho para o resto da Eternidade.
Sem pensar.

6:17 AM

Cansado de esperar, João olhou para ela no Sofá em frente, terminou o seu café e decidiu matar a morte.
Pelos vistos não temos uma Eternidade para esperar pela morte! Não quero dizer com isto que João procurasse a morte, não, nada disso, mas esperar 6 horas e 17 minutos sem tabaco em frente a uma figura delicada, sentado num sofá confortável, com os lábios manchados de vinho tinto, sem qualquer conversação, isso sim é de desesperar. Ainda para mais, ela nunca chegou a retorquir ao seu olá. Não se pode admitir!
De facto a Eternidade só é doce na memória dos outros. E, sim, sem tabaco e sem vinho prefiro não esperar mais! Tal como o joão.
Sem pensar.

sábado, setembro 10, 2005

Um estranho Anjo

Pequena Tentativa de Conto/Versão Revivida na Formula Lírica Idealista

Encontrava-me algures entre a meia-noite e uns certos minutos e aquele reflexo nocturno artificial. As sombras da noite nas cidades são sempre humanas!
Estava à beira do carro de uns amigos, bons conhecidos, que há pouco tempo atrás, cerca de 6 meses, faziam parte das mesmas sombras humanas e distantes, colonos dos mesmos minutos, mas incertos. Haviam-me proposto uma saída telefonicamente. É verdade que raramente saio de casa. Mas não há melhor sítio para estar, provavelmente. Aí encontro sempre que fazer, há sempre algo para descobrir, é infinita a procura em que subsisto nas minhas posses. Rendido à simpatia da insistência concordei em alinhar sem saber concretamente para onde ia. Mas que importa!? Fora de mim nunca compreendo bem onde estou. E pois, ali estava a entrar para o banco traseiro do automóvel, onde me sentei confortavelmente, encostado à porta. Seis meses que passaram.Encontrei-me, depois de um sorriso-resposta a uma conversa que em nada me puxou à atenção. Seguia os reflectores cadenciados nos mamarrachos erguidos em cimento cru a separar ambos os sentidos da estrada. Fossem os sentidos da vida separados por monólitos sólidos como estes e seria mais fácil a escolha do caminho a seguir. Mas afinal, se assim fosse, o destino seria uma estrada, condenando-nos à ditadura. Fossem aquelas luzinhas cadenciadas como estrelas, e as faixas brancas, ou carris, interrompidas pela negritude das paredes que na realidade são chão, mas na minha, nem por isso. Foi o que pensei. Havia mergulhado na eternidade do inalcançável, o invisível, e tudo o que podia ver à minha volta tinha ganho um brilho incomparável. Latente. Sabia evitar ferir-me os olhos. Acordei novamente dos minutos incertos com umas pontadas frias nas costas e um torpor na nuca.
Como por vezes se acredita que num segundo podemos mudar a face da nossa existência, e nisso se tem fé,e, talvez por querer vomitar aqueles seis meses de agonia, mal o carro arrancou imaginei um acidente. É um estranho hábito que tenho, em que me vejo morrer sem dor, em que a morbidez do sinistro não passa de um sorriso infantil, divertido, por nunca nisso ver mal, ou novamente, por nesse momento não sentir dor. Não é algo de tão importante, algo que se esmaga, qualquer coisa irrecuperável,o medo terrível que nos sopra ao ouvido a probabilidade da morte.
Recordo-me apenas do coroar de luzes esvoaçantes, esquizofrénicas, daquele turbilhão de cores, do metal a entrar-me na carne coroado de gelo ensanguentado, sangue que não se prende e não arde, que não nos faz temer, porque existe sempre a contrapartida afortunada da mera possibilidade. O sinistro tem a mesma propabilidade do não-sinistro. Ao que os lábios saberão sorrir sempre.
Acordei desses instantes incertos com as marcas das mãos nos ombros, estigmatizadas na pele, até ao profundo da minha carne.
Nesses momentos,incertos,parto sem destino e vou vagueando por aí, no estranho sentido de uma estranha procura, a que me sobrou, para no regresso julgar abrir os olhos e continuar sem mágoas alcançando a beleza de todas as coisas. É para mim o mais importante da vida, a beleza, sobretudo a que se esconde. Regressei àquele banco de tecido perfumado com a vida dos outros afundando-me até me apetecer abraçar o infinito, ou melhor um anjo perdido que agora me é estranho.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Canção de Crescimento Demográfico Relativo

O diabo deu três voltas o diabo do rapaz
Deu três voltas à partida dizia não ser capaz
Faz-te à guerra soldadinho, já és homem tem de ser
Se não és mais pequenino há um preço para crescer
Já não és mais pequenino tua mãe já não te aguarda
Faz-te à guerra, soldadinho, pede colo à espingarda


O diabo deu três voltas, o diabo General
Deu três voltas à maralha ainda assim via tudo igual
Pois por cada soldadinho já lhe dava o desgosto
Viu mais sangue do que vinho escorrendo como mosto
Toda a guerra só se finda se não houver mais para dar
Do que lágrimas nas flores sobre caixa de enterrar


Um país nunca se enterra, a sua boca sabe a lei
Arma-se de soldadinhos, diz-se para obrar o bem
A semente que ele queima, nunca espiga, ou há-de ser,
Alimento para os velhos, e os velhos lidam até morrer
Foi-se embora o menino, eis um homem que se faz
Ao matar um outro homem que afinal era rapaz


Ai diabo que não voltas...

sexta-feira, agosto 05, 2005

5 MINUTOS

Se a minha vida se tornasse num filme a sério, e subitamente me fossem diagnosticados somente mais 5 minutos de vida...
o que faria? O que poderia suceder de derradeiro em tão escasso tempo? Talvez o suficiente para terminar um cigarro.
Finalmente, vou deixar de fumar. Será o meu último cigarro. Adeus, Ó grande malefício.

Agora, mais do que o que devo fazer, Em que devo pensar? Em alguém ou em algo? Em alguém certamente, ou em muitos outros, ou apenas em mim. O mais certo e imediato é pensar na morte que está prestes a empurrar-me do baloiço. Consome-me a ideia de estar Quase, quase a morrer, e estarão passados desde já, um minuto e meio. Merda, isto corre rápido. A vida apressa-se. Chega-me ao juízo a interrogação, algo mais que uma dúvida: Vou gostar mais de estar morto, ou não? E a Morte, que tipo de sensação estará inerente?
Apesar de tantas especulações, o final, esse contudo até o consigo prever em segundos. Um triunfante sorriso, o último do meu masso de sorrisos, porque finalmente vou deixar de pensar. Será esta a minha última expressão!

quarta-feira, julho 06, 2005

Não à volta que é para Diante

A volta é sempre para trás
Soltai-me, quero ir adiante
Também nasci com dois pés
Mas o passo é sempre errante

Venho a arrimar caminho
A estrada é o meu alimento
Deixa de ser homenzinho
Cresce neste movimento
Não te queiras simplóriozinho
Com orelhas de jumento

Sigo rumo à sorte
Venha o que vier
Sigo sonhos que o mundo
Tem
Recantos, ando morto para os ver


Não me venham com histórias
Que só tem culpa a Velha Senhora
Já não entra na Terra a enxada
Porque hoje a Velha é Doutora
Já não entra na Terra a enxada
A Liberdade ainda demora


Com dois pés eu não posso parar
Contra a inércia aviso-vos já
Estou farto de ouvir dizer
Que só com cunhas se vai lá
Estou farto de ouvir dizer
Que só com cunhas se vai lá

Sigo rumo à sorte
Venha o que vier
Sigo sonhos que o mundo
Tem
Recantos, ando morto para os ver

SINA D’INDIGENTE

O Homem sem Terra
Poeta sem pena,
Traz os olhos tristes
Da sorte ser pequena,

Da sorte ser pequena,
De tanto caminhar,
Não tem chão não tem nada,
Nunca poderá voltar.

É devedor à Terra
A Terra lhe está devendo
Ao que a terra paga em vida
O homem paga morrendo


Sem escrita, sem lavra,
Sem papel onde vingar
O homem segue andando
Sem ter nada que pagar,

Sem ter nada que pagar
Sabe bem a sua sorte
De quem vive neste impasse
Sem ter Terra que o suporte.


É devedor à Terra
A Terra lhe está devendo
Ao que a terra paga em vida
O homem paga morrendo




(refrão adaptado do cancioneiro Portugês)

AI Diabo, isto são Homens

Rusga rusga
O diabo não se acusa
Rusga rusga
Ao diabo não foi ninguém
Fusca fusca
Um tiro para o ar
Tomba tomba
Um corpo no chão
Sangue Sangue
Um rio que se arrasta
Chora Chora
O diabo que se agasta

Não há diabo que aguente,
Maçãs podres no paraíso
Não se cativa a serpente
Com gritos e veneno no riso

Cravos Cravos
Nos livros de história
Rosas Rosas
Tenham compaixão
Festa Festa
Que diabo nos resta
Homens Homens
Onde estão os homens
Sobe Sobe
Este alvoroço
Desce Desce
Mais fundo do que o poço

Não há diabo que aguente,
Maçãs podres no paraíso
Não se cativa a serpente
Com gritos e veneno no riso

Rusga rusga, o diabo não se acusa
Tomba tomba um rio de gente
Festa festa, que diabo nos resta
Homens Homens onde estão os homens

quarta-feira, junho 22, 2005

EternidadE

A eternidade é a pronta ameaça que lanço sobre ti
...
meu amor

.Isto que me preenche faz suceder um doce arrepio em alvor.
É o astro que não se impede de nascer continuamente em mim
como se a pele fosse por dentro
É a carta de palavras infinitas por ter tanto a dizer e
entender, curiosos rascunhos como o que sente quando distante
sem nunca chegar a enviar, angustiante, testemunho
como se nada, tudo, tudo o que és soubesse alguma vez sair-me do punho
com tal esforço desta mão, a minha, que se dobra sobre todo o meu corpo
paralizando-me as pulsações perto da tua boca
sempre que procuro tocar-te de longe
eternidade é mais que o eterno
é uma promessa
que não se apressa porque não tem fim
é um pouco de tudo em quase nada
é o perigo de perder-te renovado a cada instante
temendo-o
antecipando-o
é por fim tornar o fim igual ao inicio
é não dar fundo ao precipicio e amar a queda
.Isto que me preenche faz suceder um doce arrepio em alvor...



como se a nossa pele fosse por dentro
essa é a eternidade que conheço

quarta-feira, junho 15, 2005

blá blá blá

Penso que vou habitar uma janela com a persiana sempre fechada
coisa mais preciosa a persiana
da Pérsia por assim dizer
a luminosidade que por ela entra vem de qualquer lado
é coisa preciosa
e pode-se espreitar sempre pelos buraquinhos um mundo inteiro
quando na maioria das vezes não o é tão óbvio
pois vá-se lá entender caber o mundo num buraquinho
...coisas da criação
tudo é possivel no meio desta confusão
se unirmos duas pontas de um guardanapo obteremos sempre um triângulo
parece um pouco obtuso mas tende a ser prático
o certo é que o guardanapo tem muito utilidade
especialmente para mim
veja-se que nele escrevo coisas destinadas a serem perdidas
é veículo do destino
o guardanapo
é coisa preciosa
penso que se os dobrasse em triângulos, porque os dobro sempre em quadrados,
teria na minha janela de persianas fechadas muito mais guardanapos escritos
o que me permitiria, depois de qualquer refeição, limpar os bigodes com poesia ou números de telefone de alguém que tinha algo importante para dizer

Algo Sobre o Amarelo

porque gosto de pianos?
ficam sempre bem onde se precisa de música
substituiria todos os móveis que tenho por pianos
onde guardaria a minha roupa gasta
os papeis que hesito deitar fora
as recordações do dia
as facturas para o i.r.s.
os livros e pacotes de chá
suspenderia pianos na parede
como quadros brilhantes
haveria nessa casa um ranger de madeira presente
que me embalaria o sono na cama...piano
porque gosto de tabaco?
fica sempre bem no meio do silêncio
mas jamais substituiria os móveis por cigarros
é certo
perco-me no modelar do fumo com a forma de sonhos
será talvez um momento para pensar no meio do tal silêncio
sempre com a condição de se estar só
agarrado a um cigarro
à procura da eloquência das palavras
com uma daquelas rodinhas dos rádios antigos em sintonia
seria capaz de fumar durante anos entre paredes com pianos pendurados
para mais tarde retirar os mesmos pianos e ficar com as marcas brancas destes sobre os meus dentes amarelos...paredes
Se me perguntas porque gosto de amarelo
digo-te que na verdade eu gosto é do branco
mas não Só

luxo

cai-me um sorriso em cima
abre-me ao meio
e fico simplesmente por ali

loucura

cai-me um raio em cima
abre-me ao meio
e fico para ali num canto aberto em sorriso

terça-feira, maio 24, 2005

diaporésis

Sempre soube ser feito de farrapos
a que insistentemente denomino por memórias

Mas hoje tenho o corpo feito em pedaços
quase que triturados
quase que estilhaçados
quase que não são vidros mas carne e ossos

partes
peças, das quais nunca me lembro no dia a dia
a não ser por uma comichão ou por um desalento
a não ser por estas dores que me dizem: "estás vivo"
fragmentadas,
comprimidas

Desta vez não é ao que chamo religiosamente de alma
não é a esse estrépito de retalhos que teço lamentos

Hoje esta surge vibrante de tesoura na mão
e também agulha e linha
a cozer
a cozer o tecido destes restos

Tem por dedal a minha cama

quarta-feira, maio 04, 2005

Madrugada

sonhei que deslizava sobre o tejo como um comboio
sonhei aperceber-me de que a torre de belém é em verdade um navio
como outros tantos navios a cortar as águas
sonhei que a torre arrancava da margem e se fazia ao rio
para navegar
assim como de repente todos os edificios de lisboa não eram mais do que naves
com quilha e leme
e todos partiam para o mar
sonhei que a cidade branca se transformava num deserto
e no meio do deserto nascia um candeeiro
alumiava intensamente os pensamentos de ninguém
pois nem sequer se ouvia o estalar de grãos de areia sob solas de sapatos
era o silêncio o doce que se barrava nos pãezinhos frescos sem fome
deliciado
sonhei que estava abraçado ao candeeiro
para não o deixar partir
recusava-me determinante a que fosse
também ele
um barco como os outros barcos
mas aquele Candeeiro era diferente
alumiava ninguém
tinha medo de parecer constantemente
mais do que aquela tamanha luz aos olhos do mar
sendo assim tão inatingivel
como abraçar um só grão de areia

terça-feira, maio 03, 2005

Sem Fim Temer

Inspirado na poesia do quase simpático quanto baste João Silveira
a quem deixo o meu obrigado




Do corpo das mãos
Saem raizes
Estendem-se para outras mãos
Formam palavras
Vivem felizes
Se abrem as portas à criação

Do fogo das mãos
Saem rastilhos
Nasce depois da explosão
Uma nova ordem
Uma forma sem forma
A varrer a destruição

O Medo, o Medo é o rastilho
Que nos empurra
Para mundos maiores
De porta em porta perdidos
Onde outros silvam sem nos ver

Estendem-se as mãos ao comprido
Solta-se sem fim o gemido
Solta-se por fim um gemido
NÃO ME BASTA VIVER!!

sexta-feira, abril 15, 2005

Amarelo

Cada vez é mais notório que o fumo do tabaco se espalha pela casa
Esta casa que eu não habito tão vastamente
Onde nem no tecto deixo marcas tão obvias da minha presença