cai-me um sorriso em cima
abre-me ao meio
e fico simplesmente por ali
quarta-feira, junho 15, 2005
luxo
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loucura
cai-me um raio em cima
abre-me ao meio
e fico para ali num canto aberto em sorriso
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terça-feira, maio 24, 2005
diaporésis
Sempre soube ser feito de farrapos
a que insistentemente denomino por memórias
Mas hoje tenho o corpo feito em pedaços
quase que triturados
quase que estilhaçados
quase que não são vidros mas carne e ossos
partes
peças, das quais nunca me lembro no dia a dia
a não ser por uma comichão ou por um desalento
a não ser por estas dores que me dizem: "estás vivo"
fragmentadas,
comprimidas
Desta vez não é ao que chamo religiosamente de alma
não é a esse estrépito de retalhos que teço lamentos
Hoje esta surge vibrante de tesoura na mão
e também agulha e linha
a cozer
a cozer o tecido destes restos
Tem por dedal a minha cama
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quarta-feira, maio 04, 2005
Madrugada
sonhei que deslizava sobre o tejo como um comboio
sonhei aperceber-me de que a torre de belém é em verdade um navio
como outros tantos navios a cortar as águas
sonhei que a torre arrancava da margem e se fazia ao rio
para navegar
assim como de repente todos os edificios de lisboa não eram mais do que naves
com quilha e leme
e todos partiam para o mar
sonhei que a cidade branca se transformava num deserto
e no meio do deserto nascia um candeeiro
alumiava intensamente os pensamentos de ninguém
pois nem sequer se ouvia o estalar de grãos de areia sob solas de sapatos
era o silêncio o doce que se barrava nos pãezinhos frescos sem fome
deliciado
sonhei que estava abraçado ao candeeiro
para não o deixar partir
recusava-me determinante a que fosse
também ele
um barco como os outros barcos
mas aquele Candeeiro era diferente
alumiava ninguém
tinha medo de parecer constantemente
mais do que aquela tamanha luz aos olhos do mar
sendo assim tão inatingivel
como abraçar um só grão de areia
Publicada por Artur à(s) 10:02 p.m. 2 comentários
terça-feira, maio 03, 2005
Sem Fim Temer
Inspirado na poesia do quase simpático quanto baste João Silveira
a quem deixo o meu obrigado
Do corpo das mãos
Saem raizes
Estendem-se para outras mãos
Formam palavras
Vivem felizes
Se abrem as portas à criação
Do fogo das mãos
Saem rastilhos
Nasce depois da explosão
Uma nova ordem
Uma forma sem forma
A varrer a destruição
O Medo, o Medo é o rastilho
Que nos empurra
Para mundos maiores
De porta em porta perdidos
Onde outros silvam sem nos ver
Estendem-se as mãos ao comprido
Solta-se sem fim o gemido
Solta-se por fim um gemido
NÃO ME BASTA VIVER!!
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sexta-feira, abril 15, 2005
Amarelo
Cada vez é mais notório que o fumo do tabaco se espalha pela casa
Esta casa que eu não habito tão vastamente
Onde nem no tecto deixo marcas tão obvias da minha presença
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quinta-feira, abril 14, 2005
Nota solta 1
Tantas vozem repetem a mesma frase:
"Isto está mau"
Tantos olhos se impacientam a adivinhar o futuro
Já nem há saudosismo
pois o passado é igual ao presente, e pensa-se, o que há-de ser não será diferente
Estamos parados debaixo de árvores que não crescem. Na terra que parece não dar frutos, semeia-se para dar as sementes a comer à bicharada
Também já não há caravelas, ou novas terras por desbravar
O paraíso já só existe nas brochuras das agências de viagens
O mais dificil é compreender o porquê de tudo isto no meio de tantas razões
há algo por detrás da estrutura que não facilita a mudança
porque não dúvido que esta seja desejada
A mudança é o nosso Sebastião!
Publicada por Artur à(s) 3:23 p.m. 0 comentários
terça-feira, abril 12, 2005
Drowning
Vai à solta um gesto.
Despreendido na mais absoluta escuridão, mergulhando em saliva morna,
cristalina como água e o teclar de um piano velho de madeira
Vai rangendo suavemente entre a corrente imparável, maquinal, laboriosa,
Esse gesto girando num cilindro sob agulha de grafonola.
Os tons esverdeados são algas incrustadas em olhos felinos no fundo de um bar
Na mais absoluta escuridão
No centro da textura de trevas
mas com uma réstia de sombras de dedos esticados a tentar alcançar...
o teclar de um piano no fundo de um bar com olhos incrustrados de verde e algas
S.O.S.
Grita a boca de um peixe fora de água
o desespero das guelras em sufoco é um instante de tempo estagnado na memória comprimida
as luzes da cidade eclodem estridentes do lado de fora do vidro
do lado de dentro o turbilhão de imagens cinematográficas nunca anunciaria
o ar tão pesado, impossivel de respirar
Um copo de água...
Derramada sobre um tampo de mesa brilhante a saliva quente escorre do bordo
cai ao lado de uma beata esmagada, uma barata atarefada em fuga, vidros, sobre o soalho imundo de pés e restos de humanos
É o que se encontra nos bolsos
restos de tabaco e uns trocos contados para um pouco mais de alcool.
as guelras dilatam-se sufocantes
põe-se a mão à garganta entre a atmosfera vermelha.
Desde à muito que se faz sentir a tontura
a sede desespera ainda mais
continua-se sem se respirar
Partem-se as asas e solta-se um demónio em nós
o gesto opiàcio invade as púpilas e arcadas dos olhos
solta-se o pause avan..ça...pause
as mãos nos bolsos parecem estar na cabeça
baratas vermelhas em beatas imundas
de meias arregassadas na saliva morna
os olhos veem de dentro dos olhos de dentro
somos passageiros de um corpo incapaz de respirar
vêmos a nossa vida no que sempre faz quotidianamente
sufoca-se sem poder respirar um copo de água
O reflexo no copo é o rosto que parece um gesto
Quem nos disse que para não nos magoarmos basta andar de olhos abertos?
A vida é um compromisso
Abre-se sempre a boca ao sentir dor
Pede-se sempre mais do que conseguimos dar
Respiramos mais do que conseguimos aguentar
Teme-se um copo vazio
Publicada por Artur à(s) 3:49 a.m. 0 comentários
terça-feira, abril 05, 2005
Novo Concerto do BICHO DE SETE CABEÇAS
Associação Abril em Maio, pelas 21.30, e por apenas 5 euros.
Se não vierem espalhem a noticia, divulguem, ou pelo menos visitem o nosso site. Pode ser que suscite alguma curiosidade.
Trata-se de música portuguesa, com influências do popular português, umas gotinhas de muita coisa, e um cheirinho a balada de coimbra.
Venham pois tenho a certeza de que não se arrependerão.
Publicada por Artur à(s) 10:56 p.m. 1 comentários
domingo, março 27, 2005
Tango 2
De onde vem esta dor?
A dor de querer abraçar com a pele, num gemido tenaz e mudo, de olhos fechados, e o desejar soltar a palavra Amor, se amor fosse mais que uma palavra.
Esta dor que nos impele, que nos obriga a respirar antes de agir, sempre doridos de tensão, sempre expectantes, sempre e mais, maior, com mais força, combalidos de vontade, castigados do desespero que é querer, querer, enlouquecer e poder dar, dar tudo o que temos nos lábios..Sobre esta dor, espera-se então não desapontar. Sabemos que não há nada tão perfeito, e por isso teme-se não ter jeito, teme-se o nunca ou o talvez, receia-se a mais estúpida insensatez quando é ela que nos alivia essa tão grande dor, a que nasce dessa ferida, capaz de transformar a vida,
capaz de tudo
Amor
Publicada por Artur à(s) 10:16 p.m.
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
Charles Brownson
Em Esmolfe um pedreiro trocava emblemas do Sporting e do Benfica esculpidos em granito pela promessa de favores sexuais de uma jovem. Esta jovem que fizera promessas da mesma índole a um pastor que tinha um certo atraso intelectual, o qual lhe ía adiantando dúzias de ovos na esperança de um isntante de carinho mais intimo.
A jovem lá ía manobrando estas duas almas carentes que pelo vislumbre da carne quente e a pele macia deste diabo tudo dariam. E sabe-se lá quem mais contribuia para este saco sem fundo, para este perpetuar da economia de troca directa.
Publicada por Artur à(s) 3:42 p.m. 1 comentários
terça-feira, fevereiro 22, 2005
Não há volta. É para Diante
A volta é sempre para trás
Soltai-me quero ir adiante
Também nasci com dois pés
Mas o passo é sempre errante
Cresço a arrribar caminho
A estrada é o meu alimento
Do azar eu cuido sozinho
Uma casa é um tormento
Sinto longe a sorte
Nada muda se não me mexer
Sei dos sonhos
que o mundo
tem
recantos
Ando morto para os ver
Não me prendam com histórias
Que eu não fico por cá
Estou farto de ouvir dizer
Só com cunhas se vai lá
Arrepia-me o Grande Umbigo
Enerva-me a "Velha Senhora"
Vou levar o País comigo
Que agora a "Velha" é "Doutora"
Sinto longe a sorte
Nada muda se não me mexer
Sei dos sonhos
que o mundo
tem
recantos
Ando morto para os ver
Publicada por Artur à(s) 10:20 p.m. 0 comentários
domingo, fevereiro 13, 2005
Chen
Certa vez conheci um homem de 60 anos. Aparentava ser um homem como qualquer outro de 60 anos com aquela estatura baixinha de Português, este da Beira Interior. Mas há sempre algo de peculiar ao indivíduo. Chamava-lhe Chen porque parecia ter saído do circo, aquele palco a que era levado em criança pela quadra natalícia, subornado pelos chocolates-prenda dos T.L.P.
Chen, apesar da sua idade, havia se "amantizado" com uma mulher de 26 anos, gorda e alcoólica, como manda a mais invulgar tradição. Dizia que ainda era homem capaz e lhe "dava" pelo menos três por dia: uma de manhã, uma depois do almoço, e outra à noite, por vezes quando ela lavava a roupa na banheira, cenário que evitei imaginar apesar da descrição pormenorizada. Era de fecto obsceno ouvi-lo falar, apesar das gargalhadas que causava entre o pessoal. Mas o ridiculo estava para chegar na carruagem do insólito. Fiquei a saber que este Chen, antes de se juntar à tal moça, tinha se desfeito de um antigo casamento duradouro através de um negócio. Pode parecer difícl de aceitar, mas ele troucou a antiga mulher por um vitelo. Ao que parece o negócio tinha o valor de 70 contos. Actualmente, perto de 350 euros.
Enfim
Publicada por Artur à(s) 11:54 p.m. 0 comentários
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
espirais
espirais de fumo
fumo deste cigarro
artérias
ossos quebradiços
matéria mortal
a carne
os meus braços
estendem-se pelas espirais
seguram sem unhas estrelas
respiram substância impura
estendem-se como raízes
alongando-se
prendem-se à vida para além da vida
esta vida
fumo deste cigarro
imagino sempre algo mais
angustiante é-o sempre o fim
compreendem
segura-me as mãos
peço-te que o faças sem piedade
como todos os que não entendem
todas aquelas personagens
todas cinzentas
cinzas
porque tu ao menos tens lágrimas
sempre as tiveste
assim como eles
dos quais não quero ter mais pena
tu, Tu ao menos lavas-te em beleza
em lágrimas sobre as espirais
Publicada por Artur à(s) 3:17 a.m. 0 comentários
terça-feira, janeiro 25, 2005
Momento critico
Parece uma revolta de esferas de vidro
a água a rugir na fervura da panela
parece que me puxa que me quer queimar
e nem mesmo escondendo os ossos em silêncio seco
porque nada me resta para além de ossos
por mais que esconda as unhas entre um fechar de gavetas
encerradas com a violência de um pontapé
não creio que uma pestana caia no chão e abra a terra
erguendo-se dessa falha abismal as culpas de outras falhas,
-Aladas. Não!
Há falhas que são pesadas
Lançam-nos os ombros não os rostos de encontro à merda
e ali ficamos pensativos de membros distendidos
Quais as vantagens de viver num frasco de formol?
Bem...os ossos não se partem e não perdem a brancura
Não chegam sequer a ganhar a pátine do abandono
Acima de tudo não se queimam se nada tocam
Publicada por Artur à(s) 5:34 a.m. 0 comentários
sexta-feira, dezembro 24, 2004
TErra da arrogÂncia
deixa passar estas palavras que se vestem de farrapos com buracos nos sapatos
e sorrisos escondidos arrastando pelo chão elas são pobres impossiveis e de sangue vão pintando os lábios mortos em tons de revolução
estas palavras inquietas tem bichos carpinteiros que constroem mealheiros onde guardam a miséria as sobras da humildade porque em terra de arrogantes tudo se faz como era dantes e não Há nada que tenha mais força do que o Não
Publicada por Artur à(s) 2:08 p.m. 0 comentários
terça-feira, dezembro 21, 2004
0
"no meu tempo não era assim, no meu tempo não era assim"
Ahhh, que se fodam eles e mais o tempo. Tanta saudade de um tempo que nunca lhes pertenceu
Publicada por Artur à(s) 11:07 p.m. 2 comentários
NO FUNDO
Um cogumelo de espuma branca e o ruido do corpo a perfurar o mar
De movimentos congelados pela visão prolongada de um paraíso onde todos os gestos são delicados, sem pricipitações apressadas, sem palavras que possam ferir o casco de navio, ao que os cabelos respondem com uma dança meiga, suave.
Mergulho no azul interior onde a calma se respira por oxigénio, onde lentamente deslizo sem atrito até suster os pés na areia cintilante de um outro tecto. Deixo para trás a condião de ser animal, de ser homem, mutante, sou apenas pensamento. As palavras de antes são bolhas de ar que se soltam por um processo de purificação. Se a carne já não me doi, a mente muito menos arde do roçar das superficies agrestes. Estou livre!
Onde estou?
Aqui não há lugares! Neste sitio não há sitios. Trata-se apenas de um estado: O líquido
Aqui apenas se propagam os murmúrios
Aqui, a propriedade mais doce é o movimento
Aqui tudo se esquece para se aprender de novo, porque no fundo, nada se repete...
Publicada por Artur à(s) 10:39 p.m. 0 comentários
domingo, dezembro 05, 2004
O eremita sentado
Parto
Se não parto
Se não parto, porque fico? Talvez porque tenho na permanência a mesma certeza que tinha na partida. Antes sabia que era mesmo assim, agora sei que sou mesmo assim. Dúvidas? Surgem sempre creio, sobretudo aos que gostam de questionar. Sou eremita e pouco mendigo, contudo questiono-me também se o serei efectivamente. Sei que sou o que um determinado, ou indeterminado, espaço de tempo, conjuntura, realidade, desenlace ao qual emprego apaixonadamente as minhas forças, me captura, por cedência e entrega desprovida de arrependimentos, na qual me deixo partir.
Sendo assim, mesmo quando fico, parto. Deixo-me ir como sempre fiz. Não é um ímpeto, é antes uma vontade própria. Propriamente uma vontade minha, que permanece desde que a mesma, a vontade, permaneça. Afirmo-me vagabundo, viajante, mas se me perguntarem se voltarei a partir, digo que não, sabendo bem que já o fiz desde o momento em que o rosto de quem pergunta esboçou o mais leve traço de dúvida, e eu me apaixonei pela ideia de adivinhar o movimento sonoro dos seus pensamentos
Publicada por Artur à(s) 5:16 p.m. 1 comentários
sábado, dezembro 04, 2004
A Mais Suave miragem dantesca
Rostos
que desmoem na calçada
a loucura dos telhados
mesmo à porta do céu
Marcham
contra paredes empilhadas
e visões amuralhadas
pouco ou muito
se a raça se perdeu
Tenham cuidado
se andam de pé
que os costumes
andam armados
à procura de cabeças
de rostos maltratados
de ideais cansados
afogados na conversa
Queimam
o que lhes arde dentro
bem no centro da cidade
salvando as facas e denúncias
Julgam
que os Impérios se apagam
e as cortes se atrasam
pouco ou muito
a reclamar o que é seu
Publicada por Artur à(s) 6:37 p.m. 0 comentários